
O 3 Travesseiro
Nelson Luiz de Carvalho

Ed. Mandarim




Notas de capa:

        Atravs de um amigo recebi uma cpia do texto  projeto de livro  do Nelson para ler e opinar. Incumbncia indita na minha vida, pois s me pediam para
opinar sobre textos teatrais, a minha rea. Li como leitor comum, acostumado a ler de tudo. Puxa! Li num flego e meio. Impossvel larg-lo na metade. Cada captulo
se arma de um novo gancho para continu-lo e assim nos arrebatar.
        Foi uma sensao inusitada constatar que Nelson escrevia pela primeira vez um livro. Tanta experincia, parecia! E no fora o assunto em si que me inebriava.
Fora sua forma de contar a histria. Como conseguia ser to imparcial sem colocar sua emoo pessoal sem mesmo opinar ou interferir sem apressar os fatos, sem distinguir
cenas, sem clichs? Estou certo de que nasce um novo escritor e dos bons entre ns.
                                                                        Jurandir Pereira



Contracapa esquerda:

        Desafio e emoo. Assim posso definir o que representou escrever O terceiro travesseiro. Tudo comeou numa Sexta-feira de dezembro de 1999.
        Ao aceitar o convite de Marcus para um almoo, no imaginei que aps tratarmos de assuntos comerciais  normalmente me reunia apenas com o pai dele  nossa 
conversa seguisse por caminhos to pessoais de sua vida. Vi adiante de mim uma seqncia de expresses, difcil de explicar numa pessoa to jovem. Seus olhos vermelhos 
diziam muito mais que suas prprias palavras. Por meses sua histria invadiu minha vida de uma forma irreversvel, levando-me a decidir cont-la em livro.
        Vencido o desafio de narrar todos os fatos como exatamente aconteceram, passei a caminhar pelo campo da emoo: a obra foi resultado de ter convivido, por 
alguns meses, com os verdadeiros personagens da histria; captulos inteiros foram escritos nos prprios locais dos acontecimentos.




Contracapa direita:

        O terceiro travesseiro fala de amor, de paixo e de liberdade.
        Reflexivo no final, acredito que sua leitura, indicada para todo segmento da sociedade venha contribuir de forma positiva para o fortalecimento do respeito 
a que todo ser humano tem direito.





O inferno so os outros.

JEAN-PAUL SARTRE
Entre quatro paredes
O 3o Travesseiro


Captulo 1

        Agora, andando por esta rua, no consigo deixar de avaliar e refletir sobre tudo aquilo que se passou. Tantos problemas, tanta confuso, muitas mgoas e 
para qu? Tenho a impresso de que, se eu tivesse agido diferente, evitado discusses e desgastes desnecessrios, o resultado teria sido outro.
        A vida  muito estranha, e  uma pena que o vigor fsico no seja acompanhado pelo raciocnio lgico da experincia; corpo e mente tm pontos de partida 
diferentes:
        Cara, onde  que voc est?
        Estou aqui.
        Eu sei que voc est ai. Estou dizendo para voc prestar ateno, vou comear a ler o texto.
        Estou aqui, tentando estudar para a prova de portugus, mas no consigo prestar ateno na matria. O que ser que est errado? Ser que tenho algum problema? 
No  possvel. J sou um cara adulto, tenho dezesseis anos e sou normal. De qualquer forma, estes pensamentos so meus, gosto de t-los e ningum vai saber.
         difcil prestar ateno com estes pensamentos. Eu acho o Renato um cara bonito. O que mais me atrai nele talvez seja o fato de ele ter mais plos do que 
eu.
        Outro dia no ginsio, aps o futebol, ficamos todos sentados na quadra descansando um pouco. Fazamos isso com freqncia, at que um dia percebi que no 
conseguia deixar de olhar para suas pernas. Acho que foi a que comecei a disfarar uma srie de coisas na vida.

Captulo 2

        Sentado no cho, com os joelhos dobrados, de short, meias e tnis, com plos cobrindo desde os tornozelos at as coxas, Renato me fazia sentir algo muito 
estranho. Uma sensao que no sabia explicar, muito boa, mas ao mesmo tempo muito assustadora. Eu no posso ser isso que eu estou pensado; nem em pensamento consigo 
dizer essa palavra. Alis, acho que tudo isso  normal.
        Nesse momento, as palavras dele me voltaram  cabea:
        Tudo ok. J estamos prontos para a prova de portugus na segunda-feira e, mudando de assunto, vamos  festa de Cludia no Sbado? Vai ter muita mulher e 
a gente pode at descolar alguma coisa.
        Fechado, Renato, passo aqui s nove da noite.
        Valeu, cara. Tchau.
        Certa vez, numa roda de amigos, algum disse que na Bblia est escrito que Deus condena relacionamentos ntimos entre pessoas do mesmo sexo. Acho tudo isso 
muito estranho, pois tambm disseram que os anjos no tm sexo. No fundo, essas leis que condenam tudo isso so de Deus ou do homem?
        Entrei em casa e fui direto ao banheiro; ento ouvi minha me:
         voc, Marcus?
        Sou eu, me.
        V se no atrasa, a toalha j est no banheiro.
        No vou me atrasar.
        Eu no podia me atrasar, pois havia prometido  minha me que a levaria  festa de aniversrio da Ldia.
        Ldia era sua melhor amiga, e a festa seria no salo do Lions Club, onde todas elas participavam de eventos. Meu pai sempre acompanhava minha me em qualquer 
ocasio, menos em recepes no salo do Lions. Ele achava tudo muito chato.
        Marcus, no demore, no podemos nos atrasar. Sua roupa j est separada na cama.
        Me, mais cinco minutos e estou fechando o chuveiro.
        Alis,  no chuveiro onde me sinto mais  vontade. L posso pensar nas pessoas de que gosto, imaginando diversas situaes, e tudo isso acompanhado de uma 
bela punheta. No banheiro que  o meu lugar sagrado, s tenho que tomar cuidado para no esquecer de trancar a porta com a chave, e de no deixar cair porra no cho.
        Marcus?
        J estou fechando o chuveiro.
        Chegamos ao salo e a Ldia j nos esperava na porta:
        Ana, Marcus, ainda bem que vocs vieram. E o Giorgio, por que no veio?
        Voc sabe, Ldia, do jeito que ele trabalha naquela editora, ele no tem vontade de sair  noite, principalmente s sextas-feiras.
        Marcus, fique  vontade, vou roubar a sua me por alguns minutos.
        Marcus?
        Quando olhei para trs, era Beatriz, uma antiga namorada do Renato.
        Oi, Beatriz.
        Voc est sozinho?
        Estou com minha me, eu vim apenas acompanh-la.
        O Renato veio com vocs?
        No, na verdade eu nem o convidei. Eu s vim por causa da minha me.
        Amanh, na casa da Cludia, vai ser superlegal; vocs iro?
        Com certeza, j combinei com o Renato.
        Marcus, o que voc acha de amanh esticarmos a noite aps a festa da Cludia? A Snia vai estar comigo. Voc no a conhece, mas ele  uma gatinha. Eu ficaria 
com o Renato e voc, com a Snia. O qu voc acha?
        Por mim tudo bem, eu topo. Agora, quanto ao Renato, vai depender
        Beatriz nem me deixou terminar de falar, e afirmou pelo Renato que, por ele, com certeza estaria tudo bem.
        Acho essa menina muito arrogante. Como ela podia saber se o Renato estava a fim ou no? Eu tive vontade de mand-la  merda e, antes que isso acontecesse, 
era melhor eu me mandar.
        Beatriz, eu vou at o J volto.
        T legal, gatinho.
        Droga de banheiro que no tinha toalhas de papel. Droga de festa, droga de vida, droga de tudo.
        s vezes eu sentia uma vontade enorme de dizer o que pensava, o que queria, mas no, voc queria ficar com a Snia? Claro que sim, eu me sentia um grande 
imbecil. O que eu gostaria mesmo era de levar uma vida normal, sem mentiras, estando com a pessoa de que gosto e podendo mostrar aos outros o que eu realmente sentia.
        Quando voltei ao salo, Beatriz estava conversando com um casal. Aproveitei para ficar de longe, apenas para observar as pessoas. Todo mundo legal, feliz 
e s eu com problemas? Isso no parecia justo.
        O senhor quer uma batida?
Quando o garom veio oferecer a batida, ao me virar, quase levei a bandeja ao cho. Eu precisava me controlar mais e sair menos de sintonia.
        Disse o garom: O senhor est no cu! E perguntei a ele que sabores tinha.
        Ele respondeu:
        Desculpe pelo senhor. Temos de abacaxi, amendoim e coco. Quero de abacaxi, obrigado.
        Achei que estava ficando louco, o garom me chamando de senhor e eu achando o cara uma gracinha. Ele devia ter uns vinte anos ou menos, cabelos pretos e 
curtos e uma carinha de menino. Na cama devia ser muito gostoso.
        A vontade que tinha era de bater uma punheta para ele. Devia ser muito bom estar com um cara na cama, j h dois anos vinha imaginando situaes assim. Nunca 
tive intimidade com nenhum cara, s na imaginao e na punheta.
        Mais ou menos no terceiro gole da minha batida, percebi que o garom lanava olhares estranhos para mim. Fiquei muito nervoso e mal conseguir segurar o copo 
na mo. O suor corria pelo meu rosto ento larguei o copo e resolvi voltar ao banheiro. Suspirei de alvio ao encostar na pia, mas, para minha surpresa, pelo espelho, 
o vi novamente me olhando.
        Algum problema com a batida?
        No. Por qu?
         que voc, depois de alguns goles, veio correndo para o banheiro.
        Mas no  nada, voc no precisa se preocupar. A batida estava muito boa.
        Tentando acabar a conversa ali mesmo, comecei a lavar o rosto, mas ele continuou a falar:
        Desculpe se eu pareo intrometido, mas  que eu imaginei que voc no estava passando bem, e por isso vim at aqui.
        Droga!
        Assustado com a minha exclamao, ele perguntou:
        Eu falei alguma coisa que no devia? Se falei
        No, no  com voc,  que no tem toalhas de papel para enxugar as mos.
        Aliviado ele disse:
        O faxineiro deve ter esquecido. Eu vou buscar para voc.
        Enquanto eu esperava ele voltar com as toalhas, fiquei pensando no que estava acontecendo e cheguei  concluso de que aquele cara s podia estar me cantando, 
principalmente pela forma como ele me olhava.
        No demorou muito e ele chegou.
        Aqui esto elas.
        Eu ainda enxugava as mos, quando ele disse:
        Posso perguntar o seu nome?
        Respondi que era Marcus, e nem precisei perguntar o nome dele, pois, esticando a mo para me cumprimentar, ele falou:
        O meu  Jos Carlos.
        Ele tinha a mo pesada, spera, como se tivesse trabalhado com enxada, mas mesmo assim era muito bonito e me olhava to fundo nos olhos, que me deixava completamente 
despido.
        Nesse momento, um outro garom entrou no banheiro.
        Voc est a, Jos? O chefe est procurando voc.
        Diga a ele que eu j estou indo.
        Percebi que ele ficou meio sem-graa.
        Eu preciso voltar ao salo, Marcus; seno posso perder o emprego logo no primeiro ms.
        O que achava estranho na atitude do Jos Carlos  que ele falava de um jeito, como se o estivesse segurando no banheiro.
        Agradeci a ele pelas toalhas, e, quando estvamos saindo do banheiro, ele falou:
        Depois da festa, se voc estiver a fim de levar um papo, eu deixo o servio s vinte e duas horas, ok?
        No respondi nada a ele. E voltei para o salo, com raiva de mim mesmo por no ter dado a abertura que o Jos Carlos queria.
        Na verdade, ns dois queramos a mesma coisa, mas eu no tive a coragem necessria para ir adiante.
        No Sbado, cheguei  casa do Renato s dez horas da noite. Ele sabia que eu sempre me atrasava. Toquei a campainha e j estava com a resposta do atraso na 
ponta da lngua: diria que uma hora de atraso no era nada. Mas, para minha surpresa, ele atendeu  porta normalmente. A eu disse:
        No vai reclamar?
        No, pois no poderemos ir. O Carlos deu para trs. No vai poder emprestar o carro.
        Mas o seu irmo no disse que iria emprest-lo?
        Disse, mas ele vai levar a Lcia ao teatro, e depois vo jantar.
        Renato, ento vamos de txi?
        De txi? Voc est louco! Se arrumarmos um programa, como vamos sair?
         verdade, voc tem razo. E o seu pai no empresta o dele?
        Eles tambm saram, foram a uma churrascaria com um casal de amigos e vo demorar a voltar.
        No fundo, eu estava adorando tudo aquilo. A vontade que tinha era de dizer para ficarmos ali mesmo, s ns dois, numa boa.
        Eu ainda imaginava s ns dois juntos, quando ele falou:
        J sei, Marcus. Vamos at uma danceteria?
        Danceteria?
        , a gente pode curtir o lugar numa boa, danar bastante e ainda podemos arrumar duas garotas que estejam de carro. O que voc acha? Vamos?
        Meio desanimado, respondi que sim, e ento ele perguntou:
        Voc no gostou da minha idia?
        Gostei, Renato.
        No convencido da minha resposta, e achando que eu ainda preferia ir  festa da Cludia, ele falou:
        Escreve o que eu estou falando, Marcus, se formos sem carro  festa da Cludia, ns vamos ficar na mo.
        Concordei com ele e resolvi no contar nada sobre a conversa que tive com a Beatriz na festa da Ldia; afinal de contas, aquela garota era muito arrogante.
        Marcus, fica ouvindo um som, enquanto eu vou tomar um banho. Alis, se voc quiser beber, tem usque e gelo no barzinho, meu pai abriu um Chivas para seus 
amigos antes de sair.
        Peguei o Chivas, coloquei uma dose dupla com gelo, dei alguns goles seguidos e liguei o som, que j estava carregado com um CD. Quando dei o play, comeou 
a tocar The great pretender. Fiquei curtindo a msica imaginando como seria tomar banho junto com o Renato. O barulho de gua do chuveiro, a msica, o usque a 
minha imaginao me deixou excitado.
        Confesso que, pela primeira vez, no pensei muito e fui at o banheiro. Renato no estava l, ele j tinha ido para o quarto.
        Voltei para a sala, coloquei mais usque no copo e fui direto ao quarto dele. Fiquei parado na porta, s observando aquele corpo maravilhoso. Ele estava 
apenas com uma toalha na cintura, procurando roupa na cmoda, quando falei:
        Voc quer um pouco de usque?
        Eu nem o vi entrar, Marcus. Quero um gole, sim.
        Ele ainda nem tinha levado o copo  boca, quando eu disse:
        Voc  um cara muito bonito, Renato.
        Sem levar as minhas palavras a srio, ele falou:
        Voc acha mesmo, Marcus?
        Sorri e perguntei a ele:
        Voc me daria um beijo?
        Se voc perguntar de novo, eu prometo pensar no assunto.
        Renato s percebeu que no era brincadeira, quando me aproximei dele e com a minha mo direita comecei a alisar suavemente o seu peito.
        Visivelmente abalado, ele falou:
        O que voc est fazendo, Marcus? Voc est louco?
        Completamente.
        Da para frente, e para minha surpresa, ele no falou mais nada e, de olhos fechados, deixou que eu prosseguisse com o meu sonho.
        Que sensao incrvel eu estava sentindo!
        Me aproximei mais ainda dele e comecei a dar beijos muito curtos e suaves no seu peito. Que teso!
        Minha boca mal encostava na sua pele, acho at que ele sentia mais o calor da minha respirao sobre os seus plos do que o toque da minha boca.
        Esse foi um dos melhores momentos da minha vida, tudo parecia mgico.
        Fiz com que se deitasse no cho do quarto e beijei cada parte do seu corpo, a comear pelos ps, que sempre me deram muito, mas muito teso.
        Por vezes, eu no acreditava no que estava acontecendo, apesar de o Renato continuar imvel e de olhos fechados. Eu tinha aquele corpo s para mim. Era tanta 
coisa a fazer, tantos desejos acumulados nos ltimos dois anos, que em alguns momentos eu me perdia.
        Fiz com que ele ficasse de bruos. Que bundinha. Comecei ento a massage-la suavemente, para s depois beij-la de todos os jeitos que o meu teso pedia.
        Novamente comecei a correr com a boca pelo seu corpo, deixando saliva em cada pedacinho daquele territrio que, naquele momento, era s meu.
        Eu lambia suas coxas, quando, num movimento brusco, ele me puxou e enfiou seu pinto na minha boca. O gozo foi quase imediato. E, pela primeira vez, eu sentia 
o que tantas vezes havia imaginado, que era Renato esporrando na minha boca.
        Eu no sei se o desejo faz com que as coisas se tornam atraentes, mas sei que gostei muito de sentir aquele lquido quente e meio salgado escorrendo pela 
minha garganta.
        Eu tinha vontade de fazer mais um milho de coisas, mas percebi que ele estava sem-graa, pois, aps gozar, se virou de bruos e l ficou com a cabea escondida 
entre os braos, como a se proteger daquela situao.
        Na verdade, ele no estava preparado para encarar tudo aquilo que havia rolado entre ns e, respeitando a sua atitude, resolvi ir embora.
        Sa da casa dele me sentindo o homem mais feliz do mundo!
        Cheguei em casa to contente comigo mesmo, que o sorriso j era uma expresso permanente no meu rosto. Abri a porta, e de l mesmo cumprimentei meus pais 
que estava na sala. Minha me logo percebeu que eu estava diferente e perguntou:
        Voc est bem, filho?
        Estou timo, me. Se melhorar estraga.
        Foi to positiva a minha resposta, que meu pai falou:
        O que aconteceu de to especial nesta noite, Marcus?
      Nada, pai.  que hoje eu estou me sentindo muito bem.
      Sorrindo, ele olhou para minha me e me perguntou:
        Qual o nome dela, filho?
        Por Deus, que eu quase disse Renato, mas me contive e perguntei a ele:
        O nome dela, pai?
        , o nome dela?
        Eu no sei, pai.
        Como no sabe?
        Eu me esqueci de perguntar.
        Meu pai caiu na risada, enquanto minha me inutilmente tentava explicar a ele que a juventude de hoje era assim mesmo.
        Minha me  superlegal, mas quando comea a querer explicar o comportamento da juventude de hoje, em que ela se acha expert, sai de baixo, porque, no mnimo, 
so duas horas de conversa.
        Dei boa-noite a eles e fui direto para o meu quarto. Liguei o som, me joguei na cama e fiquei  meia-luz, sonhando com uma realidade que j fazia parte da 
minha vida.
        Agradeci a Deus pela oportunidade que a vida me dera de poder ter estado, to intimamente, com o cara que eu amava mais do que tudo nesta vida.
        Ainda me sentia superexcitado s de lembrar no que tinha rolado entre ns. E, por diversas vezes, cheguei a pegar o telefone e discar para ele. Mas na hora 
ag, faltou coragem.
        Com certeza Renato havia gostado do que acontecera entre a gente, caso contrrio ele no teria deixado rolar tudo aquilo. Mas da a saber lidar com tudo 
isso, era outra histria.
         interessante como as pessoas fazem juzo errado de caras como eu. Quando se pensa em algum assim, logo se imagina que o cara gosta de se vestir de mulher, 
gosta de dar e gosta de qualquer homem, e isso, pelo menos para mim, no  verdade.
        Adormeci pensando nele.
Captulo 3

        No domingo, acordei como se tivesse passado a noite no paraso. A sensao que tinha era do tipo estou com a alma lavada. No tinha nem vontade de levantar 
da cama. Tudo estava calmo, eu estava calmo. Aquela sensao de turbilho que me acompanhava tinha ido embora. Acho que foi a primeira vez em que pude ser eu mesmo. 
Sem mentiras, sem cuidados, sem teatro. E o Renato? Como ser que est? Neste momento, minha me bateu  porta:
        Marcus?
        Fala, me?
        O Renato est no telefone. Voc fala com ele ou peo para ligar mais tarde?
        No, me. Eu falo com ele agora.
        O turbilho ressurgiu dentro do meu peito. S que, dessa vez, bom.
        Renato? Aqui  o Marcus. Tudo bem?
        Tudo bem, Marcus. Eu acho que a gente precisa falar.
        T legal. Como voc quer fazer?
        Eu passo a para apanh-lo daqui a meia hora, ok?
        Meia hora  pouco tempo. Eu acabei de acordar e ainda nem tomei banho. Que tal daqui a duas horas?
        Fechado, Marcus. Em duas horas eu passo a.
        Ele estava muito frio ao telefone e, alm de no perguntar como eu estava, desligou o aparelho logo aps a confirmao do horrio.
        Tomei um banho superdemorado e me contive vrias vezes debaixo do chuveiro para no me masturbar. Coloquei camiseta, meia, tnis, o short vinho, que era 
um dos meus prediletos, e desci para o caf.
        Meus pais ainda estava  mesa e, antes que eu pudesse dar bom-dia, meu pai falou sorrindo:
        S voc filho!
        S eu o qu, pai?
      De no perguntar o nome da moa.
        O senhor ainda est lembrando disso?
        Ele sorriu e, enquanto minha me me servia o caf, ele perguntou:
        Sua me e eu vamos almoar em Embu. Voc quer vir com a gente?
        No d, pai. Eu e o Renato vamos sair.
        Aonde vocs vo?
        Ns vamos dar um giro pela cidade.
        Me passando o queijo, minha me falou:
        E aonde vocs iro almoar, Marcus?
        Sei l, me, mas lugar  o que no falta.
        Eu havia dado a primeira mordida no lanche, quando a buzina tocou e, em meio aos protestos para que terminasse de tomar o caf da manh, me levantei da mesa.
        Apesar de o Renato j ter vindo me buscar mais de mil vezes para sairmos, era a primeira vez que isso acontecia nessa circunstncia, ou melhor, era o meu 
namorado que estava buzinando e no mais o meu melhor amigo, e isso me deixava excitado e nervoso ao mesmo tempo.
        Como  gostoso a gente estar apaixonado por algum e poder curtir essa! Esse contato de pele, de corpo, de cheiro,  um negcio fantstico.
        Respirei fundo antes de sair de casa. Ele estava dentro do carro, de culos escuros, e no tirou o olhar de mim por um instante sequer. Fiquei to sem-graa 
que quase no consegui andar em linha reta da casa at o carro. Mas cheguei:
        Tudo bem, Renato?
        Tudo bem, Marcus.
        Ele estava muito estranho, tanto que, aps colocar o carro em movimento, no falou mais nada. Ento perguntei:
        Aonde vamos?
        Sem olhar para mim, ele disse:
        Pensei em irmos at Mairipor.
        Que lugar em Mairipor, Renato?
         uma cachoeira num trecho da serrinha que pouca gente conhece. L ser possvel conversarmos  vontade.
        Como voc conheceu esse lugar?
        Essa cachoeira fica prxima ao clube de campo de que minha famlia  scia. Eu ia muito com o meu pai para l.
        Da para frente, e at chegarmos  cachoeira, no trocamos uma palavra sequer.
        Chegando l  que pude perceber o porqu de a cachoeira ser pouco conhecida. Ns deixamos o carro num trecho da estrada e andamos por uns dez minutos numa 
trilha mato a dentro. O lugar era muito bonito e tinha at um pequeno lago que se formava com a queda-dgua.
        Sentamos numa pedra prxima ao lago, esperei pacientemente que ele comeasse a falar. Como isso no aconteceu, eu mesmo puxei o assunto.
        O que est acontecendo, Renato?
        Ele no me respondeu, e eu continuei:
        Voc est chateado comigo?
        A resposta dele no passou de um no, e ento comecei a falar:
        Sabe, Renato, eu gosto de voc h pelo menos dois anos. No comeo, no sabia definir direito esse sentimento e por causa disso muita confuso rolou na minha 
cabea. Na verdade, voc me dava muito teso, s que eu no queria aceitar isso; mas a vida fez com que esse sentimento crescesse dentro de mim de uma tal maneira 
que, querendo ou no, voc  fazia parte da minha vida, mesmo sem saber.
        Ele respirou fundo e perguntou:
        Como voc conseguiu controlar esse desejo por tanto tempo?
        Nem sempre consegui. No comeo, bastava bater uma punheta pensando em voc, mas depois
        Mas depois, o qu?
        Mas depois s a punheta no bastava, e a comecei a forar certas situaes no nosso dia-a-dia a fim de poder te sentir mais.
        No entendi, Marcus.
        Estou falando de contato fsico, Renato.
        Como assim, Marcus?
        O futebol de salo  uma delas. Eu sempre quis jogar no time adversrio ao seu, s para poder entrar em dividida com voc.
        Ele me olhou admirado, e ento expliquei:
        De que outra maneira eu poderia encontrar o seu corpo no meu com tamanha intensidade? Sem contar que na dividida  um vale-tudo.
        Ele continuava me olhando, quando comecei a rir.
        Do que voc est rindo?
        Lembra da sua cueca que sumiu no acampamento?
        No, voc no fez isso
        Fiz, Renato. Fui eu quem a pegou.
        Ele comeou a rir.
        E eu achei que tivesse sido a Beatriz. E o que voc fez com a minha cueca?
        Nada de mais, eu s queria ter alguma coisa sua.
        Renato j se sentia bem mais  vontade, e ento eu perguntei:
        Vamos falar um pouco de voc?
        Sorrindo, ele disse:
        Como so as coisas, no? A gente tem amizade h tanto tempo, e a impresso que eu tenho  a de que estamos nos conhecendo agora.
        Ele acendeu um cigarro e comeou a falar:
        O meu caso  um pouco diferente do seu. Voc sabe que eu curti bastante o que rolou ontem entre a gente, s que eu nunca associei esses sentimento a algum 
do sexo masculino.
        Percebendo que eu estava confuso, explicou:
        Eu no sei se  normal, acho que no , mas numa relao sexual, eu tenho teso na frente, como atrs. Eu adoro quando uma mulher me chupa o pau, mas tambm 
adoro quando sou chupado atrs. A diferena entre a gente, Marcus,  que eu nunca imaginei ser chupado por um homem.
        Isso quer dizer que eu dancei, Renato?
        No, Marcus. Isso quer dizer que voc me deixou uma confuso enorme na minha cabea, pois mesmo tendo teso atrs, nunca me senti homossexual por isso.
        Renato, se ontem fosse a Beatriz que tivesse te chupado, seria a mesma coisa?
        No, no seria a mesma coisa. Eu gostei de ficar com voc.
      Como voc poderia ter tanta certeza disso?
        Porque o que voc e eu fizemos ontem, eu j fiz inmeras vezes com a Beatriz, e pode ter certeza de que  diferente.
        Confesso que fiquei chocado com a resposta dele. Nunca poderia imaginar os dois fazendo aquilo, ainda mais a Beatriz, que  toda cheia de frescura.
        Levantando-se ele falou:
        Vou at o carro buscar um mao de cigarros que deixei no porta-luvas e j volto.
        T legal.
        Ele j estava a caminho, quando eu gritei:
        Renato? Tem algum lugar aqui perto que venda cerveja?
        Perto no, mas tem uma garrafa de vodca no carro. Vamos encarar?
        Vamos, traga a garrafa.
      Ele no demorou a voltar e, me dando a vodca que j estava aberta, disse:
      Vamos tomar na garrafa mesmo. Essa aqui  da boa.
      Foi voc quem comprou?
      No. Esta vodca  do Carlos, mas depois eu falo com ele.
      Aps alguns minutos de silncio, eu retomei o assunto:
      Renato, voc sempre me viu como amigo? Quero dizer, voc nunca pensou em nada diferente?
      Eu sempre o achei um cara bonito, Marcus, mas at ontem nada de diferente entre ns passava pela minha cabea.
      E hoje?
      Ele sorriu antes de responder.
      Hoje j passa.
      Ele acendeu um cigarro, deu uma tragada e disse:
      Sabe o que eu acho, Marcus? No fundo, ns dois somos exatamente iguais. Ontem  noite eu tambm tive vontade de tocar em voc, e s no fiz isso porque me 
faltou coragem.
        Comeamos a nos beijar lentamente, enquanto as nossas mos corriam, tambm de forma lenta, em descoberta pelos nossos corpos. Ns estvamos namorando.
        Com as mos, ele explorou cada detalhe do meu corpo, at me deixar completamente nu, de roupa e de alma.
        Dessa vez fui totalmente conduzido por ele, que, colocando o seu pinto entre as minhas pernas, mas sem penetrao, cavalgou sobre mim diversas vezes.
         difcil encontrar palavras que descrevam o que senti naqueles momentos que me lembravam uma cavalgada.
        O instante maior aconteceu quando ele jorrou todo aquele esperma quente em cima de mim. Foi nessa hora que me senti totalmente dele.
        Continuamos nas pedras, s que dessa vez deitados um do lado do outro, nus e olhando para o cu.
        Ficamos em silncio por um bom tempo, at que ele falou:
        Voc est legal?
        Muito.
        Voc gozou, Marcus?
        No, mas eu j estou acostumado.
        Como est acostumado?
         a Segunda vez que a gente sai e que eu no gozo.
        Ns dois rimos muito e, depois de um breve silncio, eu perguntei:
        Voc quer ser meu namorado?
        Eu s vou responder se voc fizer essa pergunta olhando para mim e no para o cu, Marcus.
        Me virei para ele, que continuava deitado, e quase boca a boca perguntei:
        Voc quer ou no?
        Quero, lgico que quero. Agora voc  meu, s meu.
        Nos abraamos e fiquei com a cabea encostada sobre o seu peito por um bom tempo. Nessa hora, me senti um menino que enquanto tinha os cabelos afagados pelo 
cara que amava, viajava em pensamentos, de tanta felicidade que sentia.
        Eu ainda curtia tudo aquilo quanto ele perguntou:
        O que ns vamos fazer agora, Marcus?
J que voc no me fez gozar, eu iria sugerir que nadssemos um pouco. Isso, se a gua no estivesse to gelada.
        Eu estou falando srio, Marcus.
        Eu tambm, Renato.
        Camos na risada. Ento falei seriamente:
        Agora que estamos juntos, ns temos o mundo todo pela frente e ningum precisa saber o que rola entre a gente.
        Mas e se as pessoas desconfiarem de alguma coisa, Marcus?
        Desconfiar do qu? Ns somos grandes amigos. Sempre fomos.
        Talvez voc
        Interrompi as palavras dele:
        E tem mais, Renato, ns no somos afeminados e nunca seremos.
        Talvez voc tenha razo, Marcus, mas ser que a gente consegue levar tudo isso numa boa?
        Eu no tenho dvida e acho que voc est se preocupando demais.
        Voc est certo, Marcus. Esquea o que eu falei.
        Samos de l pouco antes de escurecer com um desejo no realizado, o de nadar no pequeno lago. A gua estava muito fria.

Captulo 4

        J estvamos nos aproximando do Natal. Cinco meses haviam se passado e ns continuvamos apaixonados. Quanta coisa ns aprontamos nesses meses. Ningum nunca 
desconfiou de nada. Nesse tempo todo, Renato foi se soltando cada vez mais, tanto que entre ns, limite era uma palavra que no existia.
        Quando fomos acampar com a turma do colgio, no feriado do dia Sete de Setembro, tivemos que arrumar o maior esquema, em que Renato fez par na barraca com 
a Ana Cludia, e eu com a Dbora, que diga-se de passagem, era um tesozinho.
        Se por um lado o 'proibido' nos deixava s vezes putos da vida, por outro nos excitava, pois criava uma cumplicidade imensa entre a gente.
        No foi por acaso que foramos a barra para ficarmos com a Ana Cludia e a Dbora. Na verdade, as duas possuam uma 'caracterstica' que muito nos interessava, 
ou seja, no enxergavam um palmo alm do nariz e viviam no mundo da lua, sonhando com prncipes encantados ou coisas assim.
        As nicas construes alm da casa do administrador que o camping de Perube possua eram os banheiros. E foi l que quase fomos descobertos.
        Eu tinha acabado de acordar e estava lavando o rosto, quando o Renato entrou e de surpresa me abraou por trs:
        Bom dia.
        Puta que susto, cara.
        E a, Marcus? Transou com a princesinha?
        No respondi nada a ele, e perguntei:
        E voc? Transou com a Ana Cludia?
        Metemos.
        Confesso que essa situao era meio estranha e, para que isso no me incomodasse, o melhor era no levar a coisa muito a srio.
        Comeamos a brincar de fazer ccegas um no outro e quando nos demos conta j estvamos excitados. Renato queria a todo custo me fazer uma chupeta. Ele disse 
que a minha porra seria o seu caf da manh.
        Tentei convenc-lo de que no seria uma boa idia, pois nem banho eu havia tomado. No adiantou nada, ele ficou mais excitado ainda.
        Na brincadeira, dei uma de difcil e fui praticamente arrastado por ele at um dos boxes. Ele fechou a porta, me encostou na parede, desceu o meu short at 
os joelhos e, antes de comear a chupar, perguntou:
        Ontem voc comeu a Dbora?
        H, h.
        O cheiro dela ainda est aqui.
        Ele ficou super excitado em saber que eu havia comido a Dbora na noite anterior, e comeou a chupar o meu pau num ritmo acelerado.
        S sei que foi um teso v-lo agachado  minha frente, me chupando e se masturbando ao mesmo tempo.
        No demorou muito e gozei na boca dele. Como de costume, ele no deixou derramar nenhuma gota de porra no cho, engolindo parte dela, e passando a outra 
para a minha boca, num beijo.
        A principio, tudo isso pode parecer nojento, porm  muito excitante e, afinal de contas, s fao isso com o meu namorado. Em relao a outros homens, somos 
religiosamente fiis um ao outro. Nunca transamos com outros caras e quando transamos com mulheres sempre usamos camisinhas.
        De repente, o banheiro enchei de gente e no dava mais tempo para sairmos do boxe. Fiz o Renato ficar sentado no vaso sanitrio e eu fiquei de p, encostado 
numa das paredes, com o cesto de papel higinico  frente dos meus ps. Mesmo com um trinco sem-vergonha, a porta do boxe estava fechada, porm no ia at o cho, 
ficando com um espao aberto de mais ou menos um palmo.
        Ficamos nessa situao ridcula por mais de uma hora, esperando o banheiro esvaziar. E, para ajudar, eu ainda tinha esperma do Renato escorrendo pela minha 
perna.
        Tambm transvamos muito na minha casa. Meu pai sempre trabalhando, minha me com 'mil' compromissos junto  comunidade e eu, como filho nico, tinha a casa 
toda para ns.
        Eu e Renato chegamos a passar um fim-de-semana inteiro sem sair de casa. O nosso mundo comeou numa sexta-feira  noite, quando meus pais foram para um stio 
passar o fim-de-semana.
        Estvamos dentro de um txi, indo para casa, quando Renato falou:
        E a, Marcus, voc acha que no tem perigo dos seus pais voltarem antes do tempo?
        Claro que no, meu pai  do tipo programado, com ele tudo tem que ser pensado antes.
        Marcus, que tal comermos um cheese salada antes de irmos para a sua casa?
        Voc est com fome?
        Morrendo.
        Ok. S que a gente pede para viagem e come em casa.
        Fechado.
        Compramos quatro lanches, dois para cada um. Sentamos no sof da sala, liguei a televiso e, quando amos comear a comer, o Renato disse:
        Marcus, me empresta o seu lanche?
        Para qu?
        Ele insistiu:
        Empresta?
        Dei o lanche para ele e fiquei esperando para ver o que acontecia. Renato tirou o lanche do saquinho e comeou a bater uma punheta sobre o hambrguer.
        No meu lanche no. Vai ficar uma bosta!
        No vai no.
        Se no vai, ento coma voc.
        De nada adiantou eu falar. Ele esporrou com tudo no meu lanche e falou:
        Pronto! Agora voc j pode comer.
        Rindo, eu disse que no iria comer. Ele insistiu:
        Voc quer que eu faa aviozinho, Marcus?
        Eu no vou comer.
        Acabei cedendo s presses dele e comi o cheese salada depois de levar muitos beijos no pescoo e na nuca. Na verdade, comemos o lanche juntos e, por incrvel 
que parea, foi bom. Adormecemos no sof.
        Acordei de madrugada com a garganta seca, e fui at o banheiro para escovar os dentes. Aproveitei para tomar um banho.
        Fiquei pensando se realmente eu era um cara normal, no pelo fato de transar com um cara, mas sim pelas loucuras que ns fazamos. O que ser que duas pessoas 
fazem numa relao considerada normal?
        J estava debaixo do chuveiro quando o Renato entrou no banheiro:
        Faz tempo que voc acordou, Marcus?
        No, acordei quase agora.
        Posso usar a sua escova de dentes?
        Claro.  a escova amarela que est dentro do armarinho.
        Colocando creme dental na escova, ele falou:
        E a, alemozinho? Gostou do cheese salada especial?
        Quando ele me chamava de alemozinho, a sensao que eu tinha era a de que ele sentia um certo poder sobre mim, e eu gostava disso. Alis, fisicamente, ns 
ramos bem diferentes, a comear pela altura. Ele com mais ou menos um metro e oitenta, e eu com s um metro e sessenta e dois. Outra grande diferena tambm estava 
na cor dos cabelos: eu, loiro e ele, com cabelos bem pretos.
        J estava fechando o chuveiro quando ele pediu para eu no sair, que ele iria entrar. Tentei convenc-lo de irmos para a sute dos meus pais, onde tinha 
banheira com hidromassagem, mas, dizendo no, ele foi entrando debaixo do chuveiro. Ento falei:
        Pensa s no que ns faramos numa banheira, Renato.
        Me abraando, ele falou:
        E voc acha que eu no sei, alemozinho?
        Ento vamos, Renato?
        Me acariciando, ele disse:
        No prximo banho a gente vai para a sute. Agora, eu quero curtir voc aqui.
        T legal, Renato, mas antes de voc me deixar de pau duro, deixa eu fazer outra coisa com ele.
        Eu j saa do boxe quando ele me puxou pelo brao e perguntou:
        Voc vai mijar?
        Lgico, Renato, o que mais eu faria com o meu pau?
        Ele me olhou de uma forma estranha e falou:
        Mija em cima de mim, Marcus.
        Voc est louco, Renato? E se voc pegar uma doena?
        Se ns tivssemos que pegar alguma doena, j teramos pegado. H quantos meses a gente j engole porra um do outro? E tem mais, voc s vai mijar em cima 
de mim.
        Ele se abaixou e eu apontei para o seu peito, comeando a mijar. Renato segurou meu pau e mudou a direo para o seu rosto, e assim eu mijei at o fim. Confesso 
que foi uma sensao to incrvel, que o fiz mijar em mim tambm.
        S sei que ns aprontamos de tudo naquele fim-de-semana. At vitamina de frutas com porra batida no liqidificador ns tomamos.
        S no aprontamos da noite do Sbado para o Domingo, porque o cansao que a gente sentia era to grande, que resolvemos ir dormir cedo. No eram oito horas 
da noite quando entramos na sute dos meus pais e praticamente nos jogamos na cama. Eu estava to esgotado que nem me lembro de ter dado boa-noite a ele.
        Acordei no Domingo me sentindo uma nova pessoa. Espiritualmente, a impresso que eu tinha era a de que, de alguma forma, um certo 'equilbrio' havia sido 
restabelecido dentro de mim. Fisicamente, eu acordei envolvido pelo corpo do Renato, que me abraava por trs de um jeito muito especial.
        Com cuidado para no acord-lo, sa da cama bem devagarinho e, no quarto mesmo, sentei numa das confortveis poltronas da minha me.
        O sol, tentando entrar pelas frestas da veneziana, criava uma atmosfera diferente na sute, que por si s j era muito bonita, com todos aqueles mveis italianos 
distribudos de forma muito bem pensada.
        Sentado na poltrona que pertencera  minha av Elizabeta, e que foi restaurada por minha me, me senti literalmente envolvido por quase um sculo de histria. 
E isso me fez pensar que eu deveria dar um novo rumo  minha vida.
        Observando-o dormir de bruos e quase nu naquela imponente cama, me veio a certeza de que, por mais difcil que fosse, eu estaria disposto a enfrentar tudo 
e todos para poder viver com ele ao meu lado para sempre.
        Enquanto ele dormia, aproveitei para colocar a casa em ordem. A baguna era generalizada, porm a copa e a cozinha eram campes da desordem, e foram justamente 
elas que me deram mais trabalho.
        Tomei um banho e fui para a sala; curtindo um som, adormeci no sof e fui acordado por ele com um beijo:
        Dormiu bem, Marcus?
        Muito bem. E voc?
        Dormindo abraado a um anjo, o que voc acha?
        Confesso que me senti sem-graa ao ser comparado a um anjo e, sem responder nada a ele, perguntei:
        Voc tomou banho de perfume?
        Ele respondeu rindo:
        Por qu? O cheiro est to forte assim?
        Um pouco.
        Juntos fomos para a cozinha tomar caf, pois eu j havia preparado tudo.
        Ele ainda comentava sobre a minha disposio de, sozinho, ter arrumado a casa, quando falei:
        Eu quero viver com voc, Renato.
        Mas ns estamos vivendo juntos, Marcus.
        Eu estou falando na mesma casa.
        Me olhando fundo nos olhos, ele falou:
        Voc tem idia do que est falando, Marcus?
        Colocando a minha mo sobre a dele, eu disse:
        Tenho mais do que idia, Renato. Tenho a certeza daquilo que quero na vida. E na vida eu quero voc.
        Debruando-se  mesa, ele me beijou e disse:
        Eu tambm quero viver ao seu lado, mas para isso ns precisaramos abrir o jogo aos nossos pais, e a a barra pode pesar.
        Com a voz abafada, falei:
        Eu sei que pode pesar, mas no vejo outro jeito.
        Levantando as sobrancelhas num gesto de que tambm no sabia a resposta, ele perguntou:
        Por que voc mudou de opinio to de repente?
        No foi to de repente assim. Eu j venho pensando nisso h algum tempo.
        Sorrindo, ele disse:
        Confesso a voc que tambm j sonhei com essa possibilidade, mas
        A ansiedade em falar era tanta que acabei interrompendo as palavras dele:
        Se os meus pais me apoiarem, ns teremos um apartamento para morar e dinheiro para vivermos bem at que possamos arrumar emprego, Renato.
        Acho que voc est sonhando demais, Marcus!
        No estou no, Renato. Alm de dinheiro, meu pai tem alguns apartamentos alugados e pode ter certeza, para ele no representaria nada financeiramente arrumar 
um apartamento de graa para a gente morar.
        Eu no sabia que o senhor Giorgio estava to bem assim, mas no  isso que estou falando, Marcus. O que
        Novamente tentei interromp-lo, mas ele no deixou, e continuou a falar:
        Eu acho, Marcus, que trs coisas vo pegar. Primeiro  a sua idade, voc s tem dezesseis anos; em segundo, voc  filho nico e em terceiro, eles no vo 
aceitar a idia de que o filho deles  um voc entendeu.
        S que eu sou, Renato, e ningum pode mudar isso. Se os meus pais souberem da verdade agora ou daqui a dois ou trs anos, para eles vai dar no mesmo; agora 
para ns, isso representa mais trs anos perdidos.
        Levantei da mesa e continuei a falar, agachado ao seu lado.
        Renato, eu no vou pedir nada a eles agora. A nica coisa que eles saberiam seria da minha opo sexual. Feito isso, o tempo se encarregaria do resto.
        Ainda sentado, s que de frente para mim, ele falou:
        E se eles no aceitarem essa nova situao, Marcus?
        Eu prefiro no pensar nisso, Renato, mas se acontecer e voc gostar de mim do jeito que eu gosto de voc, s teria um jeito, cara, colocar a mochila nas 
costas e meter o p na estrada.
        Os olhos dele brilharam. Comeamos a nos beijar, fizemos amor no cho gelado da cozinha e decidimos que ainda naquele dia contaramos a verdade aos nossos 
pais.
        Renato foi para a casa dele e eu fiquei esperando os meus pais voltarem do stio. Deitado no sof da sala, curtindo um CD do Ivan Lins, fiquei imaginando 
quantos caras deviam sentir o que eu sentia. Mas que, por vergonha ou sei l o qu, preferiam viver uma vida mentirosa, ou pior ainda, uma vida totalmente sem-graa.
        O meu pai sempre me ensinou que a gente devia brigar, e muito, por aquilo em que acreditasse e gostasse, pois, caso contrrio, ficaramos sempre num lugar 
comum ou simplesmente viveramos apenas porque respiramos.

Captulo 5

        O nervosismo tomou conta de mim na hora em que os ouvi entrando. A porta ainda nem estava aberta quando eu descobri uma grande vantagem em contar a verdade 
a eles dali a trs anos. Mas j era tarde demais, pois nessa atura do campeonato o Renato j deveria ter contado tudo aos pais dele.
        Marcus?
        Era minha me entrando em casa.
        Tudo bem, filho? Voc pode ajudar seu pai a pegar algumas coisas no carro?
        Voltei para a sala carregando um enorme saco de laranjas.
        Me, onde eu ponho isto?
        Coloque na cozinha, filho.
        Meu pai gritou da garagem:
        Marcus? Me ajude a pegar o saco de batatas.
        Carregando as batatas para a cozinha, perguntei  minha me se eles no haviam exagerado na quantidade de coisas que haviam trazido. Ela me respondeu que 
ainda era pouco, que na verdade tudo aquilo seria enviado para a creche na Segunda-feira.
      Eles entraram, se acomodaram e, enquanto minha me fazia o tradicional caf de Domingo  tarde, fiquei pensando em qual seria a melhor forma de contar a eles. 
Seria falando com os dois ou com apenas um deles? Mas tambm se fosse com apenas um, qual deles seria? Minha me sempre foi de entender o problema dos outros, tanto 
que ela participa de inmeros projeto junto  comunidade. Quanto a meu pai, era difcil saber. Ns pouco conversamos. Na verdade eu no sabia muita coisa dele.
      Fiquei na sala com eles, esperando o momento certo para falar. Na verdade, eu me sentia cada vez mais impaciente por no saber como comear. Ao mesmo tempo 
que desfrutava toda a intimidade que uma famlia podia ter, eu tambm me sentia distante deles em diversos assuntos.
      O tempo foi passando, e quando o cuco marcou oito horas da noite tive a certeza de que no poderia esperar mais. Minha me fazia tric e meu pai quase dormia 
assistindo  TV, quando me levantei e, prximo ao aparelho de som, falei:
      Pai, me, eu preciso falar com vocs.
      Como sempre, minha me foi a primeira a responder:
      Pode falar, filho.
      Pai, me, no  assim que eu quero falar.
      Quando eu disse isso, meu pai olhou para mim com um ar de preocupao e perguntou:
      Aconteceu alguma coisa, filho?
      Eu no respondi, e ele tornou a perguntar:
      Fala, filho! Aconteceu alguma coisa?
      Aconteceu, pai, ou melhor, vem acontecendo.
      Assustados, os dois olharam para mim.
      Posso desligar a TV, pai?
      Desliguei a TV e sentei no sof menos quase de frente para eles. Meu pai no tirava os olhos de mim, e minha me, j sem o tric nas mos, num gesto nervoso, 
esfregava uma mo na outra.
      Respirei fundo antes de continuar:
      O que tenho para falar  muito srio, e nem sei como comear.
      Antes que eu pudesse pensar em como prosseguir com a conversa, meu pai perguntou:
      Voc est envolvido com drogas, meu filho?
      Antecipando-se a mim, minha me respondeu que no. Meu pai pediu para ela ficar quieta, pois era eu quem deveria responder isso. Quando vi que minha me iria 
retrucar, intervim dizendo:
      Pai, me, no briguem agora. Essa situao  muito difcil para mim.
      Meu pai voltou a perguntar:
      Fala, filho, o problema  esse mesmo?
      No, pai, no estou envolvido com drogas.
      Nitidamente aliviados, eles at suspiraram e, daquele momento em diante, eu j no tinha mais a ateno deles.
      Totalmente descontrado, meu pai passou por mim, ligou a TV e foi para a cozinha pegar uma latinha de cerveja. Na volta sentou-se no sof e disse:
      Filho pode falar o que . A minha preocupao maior era o seu envolvimento com drogas, e j que bicha voc tambm no , no existe nada pior.
      Eu nem sei definir direito como as palavras dele me atingiram, e a nica coisa que eu queria naquele momento era estar morto.
      Minha me pegou o telefone dizendo que iria pedir uma pizza, que eu estava fazendo uma tempestade num copo d'gua e que mais tarde ns conversaramos. Ela 
j definia com meu pai se a pizza seria de calabresa ou no quando eu, num ato de desespero por perder o controle da situao, desliguei a TV e gritei com ela para 
que colocasse o telefone no gancho. Levantando-se, meu pai disse para eu no gritar com minha me. Respondi que eles no me deixavam falar. Ento ele gritou:
      Fala de uma vez, poxa!
      Eu sou homossexual, pai.
      Senti que a casa caiu.
      Com a expresso no rosto de quem no estava entendendo nada e fazendo gestos com as mos, ele olhou para minha me em busca de uma palavra. Palavra esta que 
no existiu, pois ela, ajoelhada e com as mos no rosto, j chorava compulsivamente.
      Eu continuava de p no mesmo canto da sala, quando ele se aproximou de mim e me segurando pelos ombros, disse gritando:
      Voc  bicha?
      Pai, no use essa palavra.
      Ele no parava de gritar:
      E o que importa a palavra? O que importa  que voc gosta de homem. Meu Deus! Meu filho  uma bicha. Quer ser mulher.
      Pai, eu no quero ser mulher.
      Cala a sua boca!
      Nessa hora ele me deu um soco. Eu ainda cado sobre a estante do som, quando ele veio de novo para cima de mim. Minha me veio ao meu socorro e conseguiu fazer 
com que ele parasse. Levantei com a boca sangrando e fui correndo para o meu quarto. Tranquei a porta com a chave e fiquei na cama.
      Do meu quarto, eu poderia ouvir os gritos do meu pai. Eu estava muito assustado, e o meu corao batia to rpido, que parecia que iria explodir dentro do 
meu peito. Nunca o tinha visto daquele jeito.
      Ao ouvir barulho de passos pesados na escada, percebi que ele estava subindo e, sem saber o que fazer, mesmo com a porta do quarto trancada, me escondi embaixo 
da cama.
      Ele gritava e dava murros na porta.
      Abra essa porta, Marcus!
      Minha me tentava interferir, dizendo para ele se acalmar, mas no adiantava, ele continuava a gritar e esmurrar cada vez mais.
      Acho que, se ele tivesse conseguido entrar, com certeza teria me matado, tamanho era o descontrole em que estava.
      Quando me dei conta da situao, o silncio j se fazia presente na minha casa, mas era to grande o medo que eu sentia que, mesmo com sangue na boca, continuei 
debaixo da cama. L adormeci e fiquei at o dia seguinte.
        Pela manh, apesar de toda a confuso que havia criado na noite anterior, acordei com a sensao de que tinha feito aquilo que era necessrio fazer.
        Eu estava com um gosto horrvel de sangue na boca e precisava urgentemente de um banheiro. A nossa casa era grande, tnhamos trs banheiros, mas o meu quarto 
no era uma sute. Abri a porta do quarto bem devagarinho e fui para o banheiro do corredor.
        Depois de um banho bem demorado, eu j me sentia bem melhor. Tentei descer as escadas sem fazer barulho, mas era impossvel. A nossa escada era de madeira 
e rangia muito. Estava no corredor de baixo, quando vi minha me sozinha na cozinha. Ela estava sentada  mesa, de cabea baixa, como a pensar.
        Me?
        Oi, meu filho.
        Me sentei  mesa e ela se levantou perguntando se eu queria caf com leite ou chocolate. Respondi que queria caf com leite. Eu estava morrendo de fome, 
pois no Domingo no havia almoado nem jantado.
        Aps me servir o caf, ela se sentou novamente  mesa. Dei alguns goles e, preparando um sanduche de queijo, perguntei:
        Me, e o pai?
        Foi trabalhar, Marcus.
        Ela no conseguia olhar para mim, e continuava de cabea baixa.
        Me, ns precisamos conversar. A senhora est muito chateada comigo?
        No meu filho. Estou pensando onde foi que eu errei.
        Me, a senhora e o papai no erraram em nada. Ningum escolhe ser assim. No  uma questo de educao.  uma coisa que vem de dentro da gente.
        Ela olhou bem para mim e perguntou:
        O Renato tambm ?
         Eu tinha que dizer a verdade a ela, mas de um jeito que no a chocasse muito. Em momento algum eu podia me referir a ele como sendo meu namorado.
        Ele tambm , me. Na verdade, ns estamos juntos.
        Assustada, ela me perguntou:
        Como juntos, meu filho?
        Juntos, me.
        Ento foi o Renato que te levou para esse caminho sem Deus, filho?
        No, me. Ningum levou ningum a lugar nenhum. Eu e o Renato somos exatamente iguais. E tambm no me considero sem Deus no corao.
        Isso que voc quer fazer, Marcus,  errado. Deus no aceita.
        Me, no  uma questo de querer, e sim de ser. Eu sou assim, nasci assim.
        Voc no sabe o que est dizendo, filho. Voc no nasceu desse jeito e no vai viver desse jeito. Qual a religio do Renato?
        Acho que  catlica, me. Por qu?
        Ela no me respondeu e continuou a falar:
        Sabe, Marcus, eu acho que esse desvio moral s aconteceu com voc porque est muito distante de Deus. No vai a uma igreja, no reza, no participa dos centros 
comunitrios
        Interrompi as palavras dela, dizendo que tudo isso no tinha nada a ver com religio, mas foi intil. Ela insistia que, desse jeito, eu no teria Deus no 
corao.
        J estava terminando o meu caf quando a campainha tocou e apressadamente minha me foi atender  porta. Da cozinha, ouvi sussurros na sala e a me chamaram.
        Para minha surpresa, quando entrei na sala fui apresentado para um senhor com cinqenta e poucos anos de idade, de fala mansa, que se vestia de uma forma 
um tanto quanto antiquada - era o padre Antnio.
        Minha me disse que havia pedido a ele para vir conversar comigo. Confesso que fiquei muito sem-graa, principalmente aps ela ter nos deixado sozinhos na 
sala. O padre tambm no se sentia  vontade, tanto que aps nos sentarmos, eu  que tive que puxar a conversa.
        Tudo bem, padre?
        Tudo em ordem, meu filho.
        Quando ele ia comear a falar, minha me entrou na sala trazendo uma xcara de caf. Serviu o padre Antnio e disse que no no interromperia mais. Depois 
de um primeiro gole, o padre Antnio comeou:
        Sua me me procurou hoje bem cedo a respeito da conversa que vocs tiveram ontem  noite, e  sobre isso que eu gostaria de falar com voc, Marcus.
        Confesso que fiquei impressionado com a rapidez com que minha me tinha chamado o padre.
        Sabe, Marcus, isso que voc quer fazer no pertence ao plano de Deus. Deus com certeza no quer isso para o homem.
        Achei melhor ficar quieto, enquanto pausadamente o padre Antnio falava:
        Deus criou a espcie humana em dois gneros: masculino e feminino e, portanto, como voc pode ver, no foi criado por deus um terceiro gnero. Masculino 
e feminino so expresses complementares daquilo que  prprio de Deus.
        Ele falava de um jeito, como se estivesse revelando a mim todos os segredos do mundo.
        Sabe, Marcus, o direito cannico de 1913, que  anterior ao cdigo atual, diz que o casamento tem como fim primrio a gerao de filhos e a educao da prole. 
Como fim secundrio vem o bem dos esposos. O novo cdigo possui uma vertente mais personalista em que o casamento visa, como fim nico, o bem dos esposos, a gerao 
dos filhos e a educao da prole.
        Confesso que estava me sentindo um verdadeiro extraterrestre conversando com um padre. Muita coisa do que ele falava eu no compreendia e, quando entendia, 
no fazia muito sentido, como por exemplo a definio de casamento.
        O sexo, Marcus, que  prprio do ser humano e no de Deus, no pode ser praticado de forma mecnica. O sexo s  aceito no casamento, no qual j existe estabilidade 
de unio, de vnculo de amor, de amizade e de afeto, ou seja, o sexo  uma expresso daquilo que na realidade j existe.
        Aps me sentir 'catalogado' pelo padre Antnio, resolvi perguntar:
        O senhor est dizendo que perante Deus  errado ser homossexual?
        Ele pensou muito antes de responder.
s vezes uma amizade profunda, Marcus, pode se tornar dependncia afetiva. Por isso,  importante refletir bastante para que as coisas no se misturem.
        Novamente perguntei a ele:
        Padre,  errado ser homossexual?
        Ele respondeu quase que imediatamente.
         ilcito ser homossexual. A homossexualidade  uma etapa que estacionou e no chegou a se completar, em que no houve uma vertigem pelo feminino. Eu diria 
que  uma fase homfita.
        No era fcil conversar com o padre Antnio, mas mesmo assim fiz mais uma pergunta:
         errado tentar ser feliz, padre?
        Claro que no, Marcus.  prprio do ser humano buscar a felicidade. Agora, temos que aprender a controlar nossos impulsos, no deixando em livre curso todas 
as vontades. O prazer  inerente  sexualidade, porm no  correto buscar prazer pelo prazer.
        Terminamos a nossa conversa com ele se referindo  caridade pastoral e me convidando a freqentar mais a igreja, bem como participar de grupos de trabalho 
dentro dela.
        Antes de sair, o padre Antnio deixou claro que a nica coisa da qual eu no poderia participar no momento seria a eucaristia. Trocando em palavras mais 
comuns, eu estava proibido de receber a hstia.
        Me despedi do padre Antnio e j estava na escada subindo para o meu quarto quando ele me chamou:
        Marcus?
        Sim, padre.
        Venha at aqui, meu filho. Por-favor.
        Segurando as minhas mos, ele falou:
        Tudo o que ns falamos tambm se aplica ao seu amigo. Qual  o nome dele, filho?
        Renato, padre.
        Pois bem, eu gostaria que voc refletisse sobre tudo aquilo de que ns falamos, e junto com seu amigo Renato fosse visitar a nossa parquia.
        Tudo bem, padre. Eu prometo pensar.
        Me despedi dele e subi para o meu quarto.

Captulo 6

        Aps o almoo, fiquei no meu quarto tentando analisar toda a situao. Achei absurda a visita do padre Antnio, que apenas repetiu parte daquilo que eu j 
sabia, s que com palavras um milho de vezes mais complicadas: que a sociedade no aceitava o meu gosto sexual e que, na insistncia desse desejo, seria condenado 
por Deus.
        No fundo, a visita dele me serviu para duas coisas. Primeiro, foi conversando com ele que percebi que o aparelho de som da sala - presente dos meus pais 
no ltimo Natal - havia se quebrado. Segundo, eu no sabia que era proibido a um homossexual receber a hstia.
        Novamente pensei nos meus pais. Seria certo colocar os meus sentimento acima de tudo? Mas ento no adiantaria mais nada. Eu j tinha falado. Era um caminho 
sem volta.
      E meu pai? Como ser que ele estava? Ser que iria querer me bater de novo? Acho que no. Ele estava muito nervoso.
      E o Renato? Como ser que ele estava? E na casa dele, ser que tinha dado tudo certo? Como ser que tinha sido? Eu no podia telefonar para ele de casa. Minha 
me poderia ouvir na extenso e no gostar. Alis, nem de um orelho poderia ligar, pois se a me dele atendesse, eu nem sabia o que iria falar. Que merda!
      As horas foram passando e eu no agentava mais ficar trancado no quarto. Resolvi descer. Eu precisava de ar para respirar. Minha me estava lavando a loua 
na cozinha com o rdio ligado e nem me ouviu descer.
      Fui para o quintal, que ficava ao lado da cozinha. Sentei-me no cho e, encostado na parede, fiquei pensando no Renato e nas loucuras que havamos feito no 
ltimo fim-de-semana.
      Da cozinha j no se ouvia barulho nenhum. Pelo arrastar de uma cadeira, dava para imaginar que minha me estava sentada  mesa. O silncio da casa s foi 
quebrado quando meu pai chegou, e foi a que me toquei que no deveria ter descido. Voltar para o quarto sem que eles me vissem seria impossvel, pois a velha escada 
de madeira iria me delatar. Meu pai chegou calmo, beijou minha me e tambm sentou-se  mesa. Nessa hora eu tinha medo at de respirar para no fazer barulho. Ento 
meu pai perguntou para minha me:
      E a, Ana, como est o rapaz?
      Minha me respondeu que eu estava bem e que no tinha ido ao colgio. Imediatamente meu pai exclamou: Graas a Deus ele no fugiu! Fiquei espantado com a afirmao 
dele. Nunca me passou pela cabea fugir de casa. Eu no teria para onde ir.
      Nesse momento, meu pai comeou a desabafar com minha me:
      Sabe, Ana, eu tenho muito medo de toda essa histria. O mundo no foi feito para pessoas assim. A sociedade no aceita isso. Eu no consigo imaginar o nosso 
filho se envolvendo com drogas e, voc sabe, nesse mundo diferente,  uma questo de tempo. Ana, voc tambm parou para pensar que ele pode querer se vestir de mulher? 
Ana, Ana, Ana, eu no agentaria isso. Eu no consigo imaginar o nosso filhinho com um homem na cama. Eu prefiro morrer primeiro.
      Lgrimas corriam pelo meu rosto. Eu tinha vontade de chorar soluando, mas no podia. Gostaria de entrar na cozinha, abra-los, beij-los e dizer que nada 
disso iria acontecer.
      Novamente o silncio tomou conta da casa. Depois de algum tempo, minha me disse:
      Giorgio, eu conversei com o Marcus e ele disse que o Renato tambm . Acredito at que eles estejam juntos.
      Novamente o maldito silncio. Ele nada respondeu. No quintal, eu ficava ainda mais aflito, pois nem a expresso do seu rosto podia ver.
      Com a voz embargada e com muita emoo, meu pai disse:
      Lembra, Ana, quando o Marcus tinha trs anos de idade? Eu tocava a campainha e ele j vinha gritando: 'Mame! Mame!  o papai. Abre a porta. Mame! Mame!' 
E quando eu entrava, ele vinha correndo para o meu colo. E na hora de dormir? Lembra, Ana? Pelo menos cinco historinhas por noite. No tnhamos mais o que contar. 
O papai Noel j se misturava com a Chapeuzinho Vermelho, que encontrava os Trs Porquinhos e que iam todos viajar no tapete mgico. Ana? Lembra da caneta no Dia 
dos Pais? Ele me deu de presente, dizendo: 'Marquinho presente papai', Lembra Ana? Era s eu esquecer a caneta em algum lugar e l vinha ele: 'Marquinho presente 
papai'. Ele achava que eu tinha que estar sempre com a caneta.
      Novamente o silncio.
      Por que, Ana, justo com o nosso filho! No vou permitir que faam dele uma pessoa inferior.
      Desta vez, o silncio no foi absoluto. Eu podia ouvir meus pais chorando bem baixinho. Que vontade de dizer a eles que eu ainda era o mesmo Marcus! Eles tinham 
que enxergar isso. Meu pai se levantou e disse que ia tomar um banho. Minha me foi junto. Aproveitei o momento para voltar ao meu quarto.
        Foi a primeira vez em que ouvi meu pai chorar. Ele sempre foi to certo, to controlado, to frio. Meu pai era diretor-geral de uma editora de livros e revistas, 
na qual tambm tinha participao acionria. Eu acho que ningum o entendia direito. A comear pelos diretores que se repostavam a ele: todos, sem exceo, moravam 
em condomnios fechado. E ns, num sobrado, que era bom, mas no condizia com a nossa realidade social. Minha me o apoiava em tudo e tambm achava desnecessrio 
mudarmos para uma casa maior.
        Marcus? O jantar j est na mesa, estamos esperando voc.
        Ao ouvir minha me me chamando, desci as escadas com firme pensamento de que tudo daria certo. Sua voz estava quase normal e isso significava que eles j 
haviam decidido alguma coisa. Os dois estavam  mesa me esperando, e antes mesmo que eu pudesse cumprimentar meu pai, ele disse:
        Tudo bem, filho?
        Tudo bem, pai.
        Percebi que os dois estavam diferentes. A sensao que eles me passavam era de que, pela primeira vez, o mais importante era eu. Os meus problemas sempre 
ficavam em segundo plano. Nunca tinham sido importantes. Quase com freqncia, quando eu comeava a contar alguma coisa, no meio da histria era interrompido - ora 
por meu pai, ora por minha me. O que me deixava mais puto da vida: eles nem perguntavam o final da histria. Acho isso uma falta de respeito muito grande. Tenho 
a impresso de que, se numa dessas vezes eu tivesse dito: Comi merda, eles nem iam perceber. Para minha me, o mundo girava em torno da comunidade, e para meu pai 
s a empresa era importante. Tirando os ltimos acontecimentos, acho que a coisa mais sria sobre a qual eles falaram comigo foi quando meu pai, em apenas trs minutos, 
me entregou uma caixa de camisinhas e disse: Agora, com a AIDS, quando voc comear a sair, use camisinhas. Virou as costas e foi ver televiso. Isso aconteceu quando 
eu tinha quinze anos, foi h um ano. Eu lembro que tinha uma srie de dvidas, mas ele no deu abertura, virou as costas e foi embora.
        Quando eu estava me servindo de batatas fritas, meu pai segurou uma das minhas mos e disse:
        Filho, me desculpe pela agressividade de ontem.
        Essa era a abertura de que eu estava precisando. Parei de me servir, coloquei o prato de batatas sobre a mesa e, olhando para ele, disse:
        Pai, o senhor no precisa se desculpar.
      Ele tentou retrucar e eu falar:
      Pai, no fale nada agora. Deixe-me falar. O senhor no precisa se desculpar. Eu tenho conscincia do tamanho do problema que joguei vocs. Se existisse no 
mundo alguma forma de modificar esse sentimento, eu o faria. Para mim tudo isso  muito doloroso. Me custa muito remar contra a mar. Me custa muito viver baseado 
numa grande mentira. Desde os meus treze anos eu sinto isso. O senhor e a mame tambm erraram em algumas coisas, sim. O senhor se lembra da caixa de camisinhas 
um ano atrs? O senhor me entregou a caixa, virou as costas e foi embora. Eu tinha dvidas, pai. Ns nunca conversamos direito, pai. Com tudo isso, eu quero apenas 
mostrar a vocs que ns trs temos problemas. Que ns precisamos conversar mais, no s sobre a editora onde o senhor trabalho ou sobre os problemas da comunidade 
de que a mame sempre fala. Ns temos que falar da gente tambm. Mas, mesmo que tudo isso fosse diferente, eu continuaria a sentir a mesma coisa que sinto. O que 
sinto, pai, vem de dentro de mim. Acho que nada pode mudar isso. Sabe, pai, continuo sendo a mesma pessoa, estudo, tenho boa educao, respeito os mais velhos, no 
fumo, no uso drogas e no sou promscuo. Sabe, pai, apesar de sentir o que sinto, eu sou homem. Nunca vou me vestir de mulher. Nunca vou querer usar uma calcinha. 
Eu gosto de ser homem. Ontem o senhor me chamou de bicha. Essa palavra di muito, pai. No quero carregar comigo nenhum rtulo, seja ele bicha, gay ou o que for. 
Outra coisa, pai, acho at que a mame j falou para o senhor, eu estou com o Renato. J estamos juntos a quase seis meses. E a gente se gosta muito. Acho tambm 
que vocs no tm a obrigao de conviver com tudo isso. E se quiserem, eu vou embora. No comeo eu s precisaria de uma pequena ajuda sua, pai. O senhor sabe, no 
tenho direito.
      Minhas ultimas palavras foram acompanhadas de muitas lgrimas.  difcil conceber a idia de me separar dos meus pais. Comecei a chorar.
      Levantei da mesa me desculpando e ao mesmo tempo chorando muito. Eu no conseguia controlar o choro. Meu pai se levantou, me puxou pelo brao e ns nos abraamos. 
Minha me tambm se juntou a ns. Nessa hora ns trs chorvamos muito.
      No, filho, voc no precisa sair de casa, no , Ana? Ns trs faremos o melhor possvel. Viveremos com muita dignidade, Filho, filho, filho, ns o amamos!
      Naquela noite ns nem jantamos. Acho que ningum tinha fome. Quando se passa por um momento de muita emoo, invariavelmente o que vem a seguir so situaes 
pouco confortveis. Isso foi o que aconteceu aps no abraarmos.
      Minha me arrumava a cozinha, enquanto meu pai e eu estvamos na sala fingindo assistir  TV. Alis, se no fosse a TV, ns dois ficaramos muito sem-graa. 
Na verdade, ns teramos que adaptar nosso dia-a-dia a esta nova realidade, e isso com certeza seria muito difcil.
      Eu no tirava os olhos da televiso, mas o meu pensamento estava com o Renato. Que vontade de falar com ele. Ser que ele estava bem? Por que ser que ele 
ainda no tinha me ligado? Ser que aconteceu alguma coisa? No, no devia ter acontecido nada de grave. Ele devia estar esperando que eu telefonasse primeiro. Afinal 
de contas, os pais dele sempre foram mais abertos que os meus.
      Percebi que meu pai estava impaciente no sof. Achei que ele queria falar alguma coisa e ento perguntei:
      Pai, o senhor quer falar alguma coisa?
      Quero filho.
      Se virando para mim, ele disse:
      Marcus, agora que estamos mais calmos, eu preciso dizer a voc que continuo no concordando com tudo isso, mas aceito em respeito a voc. E j que tem que 
ser assim, vamos agir com a maior dignidade possvel. Voc entendeu?
        Claro, pai.
        Apesar de ele ter dito que me aceitava do jeito que eu era, bastava olhar nos seus olhos para saber que ele s estava fazendo isso por absoluta falta de 
opo.
        Outra coisa, Marcus, a partir de amanh vamos retomar todos os nossos compromissos. E isso, para voc, inclui o colgio, ok?
        Imediatamente concordei com ele. Ir para o colgio era o que eu mais queria, pois seria l que finalmente encontraria Renato.
        Mais uma coisa, Marcus, e o Renato?
        Como assim, pai?
        Os pais dele j sabem?
        J, pai. Ele contou no Domingo  noite.
        E?
        Com as mos fiz um gesto de que no havia entendido a pergunta e ele disse:
        Eu estou querendo saber o que os pais dele acharam de tudo isso.
        Eu no sei, pai, o
        Ele me interrompeu, perguntando:
        Como no sabe, Marcus?
         que a ltima vez que falei com o Renato foi no Sbado, pai.
        Ento voc no tem certeza se ele realmente contou aos pais dele, Marcus.
        Tenho sim, pai. Ns havamos combinado no Sbado que contaramos tudo a vocs no Domingo.
        Achei melhor no falar nada a ele, que o Renato e eu havamos passado o fim-de-semana juntos.
        E assim, ns terminamos a noite.
        Boa noite, meu filho.
        Boa noite, pai.

Captulo 7

        Que ansiedade! Cheguei ao colgio uma hora antes de horrio de entrada, j haviam se passado trinta minutos e ele ainda no tinha chegado. A minha vontade, 
ao v-lo, era de sair correndo e dar um puta abrao nele. Imagina se eu fizesse isso, a bosta que ia dar. Tambm no seria legal ficar no porto. O pessoal iria 
passar a perguntar se eu no iria entrar ou quem estava esperando. Mas tudo bem. S no queria encontrar a Beatriz, no estava com saco para jogar conversa fora 
com ela.
        Marcus?
        Quando olhei para trs eu no acreditei.
        Carlos? Voc aqui! E o Renato?
        Quando ele pediu para que o esperasse voltar da secretaria, percebi que nada estava to bem assim.
        A angstia que eu sentia ao esperar o irmo do Renato voltar fez com que pouco minutos se transformassem em horas. J estava quase indo atrs do Carlos, 
quando ele voltou.
        Marcus, vamos conversar em outro lugar. O carro est logo ali.
        Entramos no carro e paramos a poucos quarteires do colgio, numa rua pouco movimentada.
      Nunca tive muito contato com o Carlos. Ele devia ter mais ou menos vinte e seis anos e estava noivo. Isso era tudo o que eu sabia dele.
      Por diversas vezes esperei que Carlos comeasse a falar, mas ele estava agitado demais para isso. Com certeza no sabia como comear, ento eu o ajudei:
      Carlos, estou mais nervoso que voc. Por isso, respire fundo, cara, e se acalme para que possamos conversar.
      Ele tentava relaxar quando eu falei:
      Carlos, pelo menos me diga se o Renato est bem!
      Acendendo um cigarro, ele falou:
      Agora ele est bem, Marcus.
      Ele continuava travado, ento falei abertamente:
      Olha, Carlos, se faz mal a voc conversar comigo, tudo bem, cara. Eu s quero saber de voc como fao para falar com o seu irmo. Se ligar para a sua casa, 
consigo falar com ele?
        Finalmente ele comeou a falar:
        Voc interpretou tudo errado, Marcus, no tenho nada contra voc.  que apesar de ter sido sem querer, tenho vergonha do que aconteceu no fim-de-semana em 
casa.
        Respirou fundo e continuou.
No Domingo, Marcus, as coisas ficaram muito feias em casa. Ele e o meu pai brigaram. O Renato est internado no hospital. O meu pai no iria machucar o prprio filho. 
Foi muita confuso. Ele estava muito nervoso e acabou acertando sem querer a barriga do Renato com uma faca de cozinha.
        Eu no acreditava no que estava ouvindo. O que fizeram com a pessoa mais importante da minha vida?
        Com as mos no rosto e com a cabea quase sobre o colo, eu tentava controlar o choro, quando fui abraado pelo Carlos. Tambm chorando e afagando os meus 
cabelos, ele disse:
        Eu sei que no  fcil, Marcus. Mas agora, est tudo bem. Ele no corre risco de vida nenhum, e s est no hospital se recuperando.
        Com as mos ele enxugou as lgrimas do meu rosto e disse:
        Vocs foram corajosos. No deve ser fcil assumir uma situao como essa.
        Carlos, eu preciso v-lo. Em que hospital ele est?
        Se quiser, eu levo voc l agora.
        Eu quero.
        Outra coisa, Marcus, no hospital ns dissemos que o Renato caiu na cozinha e sozinho espetou a faca na barriga. Alis, foi praticamente isso o que aconteceu. 
O prprio Renato confirmou toda a histria para o policial de planto no pronto-socorro. Portanto, o nome do meu pai nem aparece no boletim de ocorrncia. Ok?
        Ok, Carlos.
        O nico sentimento que eu tinha naquele momento era o de indignao. Por que ser que as pessoas faziam isso? Por que um sentimento to verdadeiro podia 
incomodar tanto os outros?
        A atitude de Carlos para comigo foi uma surpresa. A caminho do hospital, conversamos bastante e em momento algum eu me senti recriminado por ele.
        Chegando ao hospital, Carlos pediu para que eu ficasse esperando num corredor prximo ao saguo, enquanto ele subia para ver se no havia ningum no quarto. 
Quando disse isso, estava claro para mim que os seus pais no me queriam por perto.
        Enquanto esperava, fiquei tentando entender como o 'seu Jlio' pde ser to violento. Ele sempre foi mais aberto que meu pai. Toda vez que nos encontrvamos, 
ele contava uma piada. Ele  do tipo de pessoa que est sempre bem.
        Fui interrompido pela voz do Carlos.
        Pode subir, Marcus. Quarto 701, 7o andar.
        Voc no vem comigo, Carlos?
        No, Marcus,  melhor eu ficar aqui mesmo. Se algum aparecer, eu subo antes para avisar.
        Valeu, Carlos.
        Envolvido por uma enorme ansiedade, quase no conseguia esperar o elevador chegar ao 7o andar. Aquela droga parava em todos os andares.
        Percebendo minha agitao, uma senhora que estava ao meu lado perguntou:
        Algum parente?
        Eu no entendi o que a senhora falou.
        Voc veio visitar algum parente?
        Eu vim visitar o meu namorado.
        Estupidamente falei o que no devia. O elevador estava lotado e todos, surpresos com a minha resposta me olharam espantados. Tentei corrigir o mal-estar, 
que j era generalizado, dizendo:
        Estou brincando. Na verdade eu vim visitar o meu primo.
        Desci no saguo do 7o andar com a impresso de que ningum havia acreditado em mim, mas tambm isso agora pouco importava.
        Pois no?
        Eu vim visitar o paciente do quarto 701.
        No corredor da esquerda.
        Obrigado.
        Parei em frente  porta do quarto e, antes de abri-la, tentei mudar um pouco o meu estado de esprito. Renato estava num hospital e eu no podia entrar com 
o astral baixo. Respirei fundo, dei duas batidas suaves na porta e entrei.
        O quarto estava escuro. Quando a porta se abriu, a luz do corredor sorrateiramente invadiu o ambiente. E como um refletor, fez brilhar o sorriso mais bonito 
do mundo: o do Renato.
        Demorei um pouco a me aproximar da cama, ento ele falou:
        No ganho um beijo do meu namorado?
        Fui me aproximando cada vez mais e, debruado sobre ele, com todo o cuidado e lentamente, comeamos a nos beijar. Esse beijo foi to especial, que atravs 
dele eu podia sentir uma enorme troca de energia entre a gente. Esse beijo foi to grande, mas to grande, que por ele o meu corpo inteiro se sentiu beijado.
        Definitivamente, ns nascemos um para o outro. Para mim no existe vida sem ele.
        Beijos, misturados com palavras, foram aos poucos nos trazendo de volta  Terra. Na realidade, essas palavras no eram mais do que sussurros, que ecoavam 
dentro de cada um, j que a distncia entre os nossos lbios no existia.
        Por que voc faz isso comigo, Renato?
        Isso o qu, Marcus?
        Voc me derruba, cara.
         que agora voc  todo meu, Marcus.
        Eu gosto tanto de voc, Renato, que s vezes isso me assusta.
        Voc no precisa ficar assustado. Eu sempre vou estar ao seu lado.
        Voc promete, Renato?
        Prometo Aaaai!
        Voc est com dor? Eu no devia ter te beijado tanto tempo.
        Eu no sinto dor nenhuma.
        Ento porque voc gemeu?
         que eu quero te impressionar de alguma forma.
        Como voc  bobo.
        Rimos e ele perguntou:
        Marcus, como  que seus pais receberam a notcia?
        No foi fcil, mas agora est tudo bem. Depois a gente fala sobre isso.
        Sabe o que mais quero depois desse beijo Marcus?
        No, o qu?
        Uma Coca-Cola com rodelas de limo e bastante gelo.
        Eu ainda estava debruado sobre o meu namorado, quando de repente a porta do quarto se abriu e a me dele entrou.
        Por impulso me afastei da cama e, sem saber o que fazer, disfarcei um certo equilbrio emocional que no tinha e a cumprimentei:
        Boa tarde, dona Ins.
        Eu diria que ela estava mais desorientada do que eu e, num tom de voz firme, ela disse:
        O que voc est fazendo aqui, moleque?
        Fiquei branco e antes que pudesse pensar em alguma coisa, o Renato falou:
        Me, isso no  jeito de falar com o Marcus! A senhora
        Ela nem deixou que o Renato terminasse de falar. Virou as costas e saiu do quarto demonstrando muita raiva.
        Tentando me tranqilizar, Renato disse que o acidente de Domingo, com a faca, interrompeu a conversa deles no meio, mas que tudo estaria resolvido em breve, 
e que era s uma questo de tempo para ela aceitar.
        Nesse momento, assustado, Carlos entrou no quarto.
Marcus,  melhor voc ir embora.
Olhando para o Carlos, Renato falou:
Por que voc no nos avisou que a mame estava subindo?
      Eu me distra um segundo, Renato, e quando a vi, ela j estava entrando no elevador.
      Eu quase no pude me despedir do Renato, pois segurando no meu brao, como a querer me puxar, Carlos amigavelmente forava uma sada rpida para mim.
      No corredor foi ainda pior. Eu estava indo com Carlos para o elevador, quando dona Ins parou  minha frente. Ela continuava muito nervosa e com alterada perguntou:
      O que voc quer com o meu filho?
      O show havia comeado. Muitas pessoas - entre pacientes, enfermeiras e visitantes - j olhavam para ns.
      Olha, moleque, voc tem idia da desgraa que voc trouxe para a minha famlia? No, no deve ter, voc no tem educao para isso. A vontade que eu tenho
      Carlos tentou persuadi-la a parar.
      Me, vamos embora. Pra com isso
      Ela ficou com mais raiva ainda.
      E voc no se meta na conversa, Carlos. S o que me faltava agora  voc tambm achar que esse delinqente juvenil est certo!
      Percebendo a roda de pessoas que se formou  nossa volta, ela falou mais alto ainda:
      Voc est com vergonha, Marcus? Por que no fala para estas pessoas do que voc gosta?
      Uma enfermeira, que estava quase ao nosso lado, pediu para que ela falasse mais baixo, pois ali era um hospital.
      Ela nem ouviu a enfermeira e continuou:
      Olha, moleque, eu no quero ver voc mais aqui. Alis, eu no quer ver voc nunca mais. Saia j daqui, saia j daqui, saia j daqui!
      Sa correndo pelo corredor e nem sei como desci as escadas.
      J na rua, com a respirao ofegante, eu pensava: por qu, meu Deus? Essa mulher no tinha esse direito. S uma pessoa muito estpida faria o que ela fez.
      Marcus?
      Era o Carlos correndo em minha direo.
      Ainda bem que eu te encontrei. Voc est legal?
      No d para ficar legal, Carlos. A sua me Deixa para l.
      Eu peo desculpas por ela, Marcus. Minha me sempre foi muito nervosa. Ela perde o controle muito facilmente.
      Tudo bem, Carlos, voc no teve culpa. Eu acho que devo ter chutado muita cruz quando criana. Voc v outra explicao?
      Rimos e nos abraamos.
      Eu levo voc para casa, Marcus.
      No precisa, cara.  melhor voc ficar com a sua me.
      Mas como voc vai embora, Marcus?
      Eu pego um txi.
      T legal.
      Ele ficou me olhando de um jeito diferente e a eu perguntei:
      Voc quer me falar alguma coisa, Carlos?
      Quero. Eu sei que deve ser difcil para voc, mas deixe as coisas se acalmarem em casa, que a gente, eu quero dizer, o Renato procura voc. Ok?
      Ok.
      Mais um abrao e mais uma frustrao. Por mim, ficaria direto no hospital junto com o Renato. Ficar separado dele, ainda mais num momento to delicado como 
este, iria me custar muito ao corao. Afinal de contas, parte da minha vida estava no quarto 701 daquele maldito hospital.
      Comecei a chorar, andei muitos quarteires para poder me acalmar e s peguei um txi e fui para casa.

Captulo 8

        Dois meses haviam se passado e estvamos apenas a uma semana do Natal. Nesse tempo todo no tive nenhum contato com Renato. Mesmo contra a minha vontade, 
fiz exatamente o que Carlos havia me pedido. Sa de cena, para dar tempo ao tempo. Mas o vazio que eu sentia por dentro s aumentava. No agentava mais esperar.
        Do jeito deles, meus pais tentavam me ajudar. Minha me voltou a falar mais comigo, j no era mais uma sombra do meu pai. Este, por sua vez, arrumava sempre 
um passeio novo para ns trs a cada fim-de-semana. Eu lembro que, quando havia lhes contado sobre o acidente do Renato, eles ficaram muito preocupados e, pela expresso 
nos seus rostos, no gostaram nem um pouco. Meu pai chegou at a dizer que se eu quisesse ir ao hospital para visitar o Renato, ele me acompanharia. Para no mago-los, 
nunca contei o que tinha acontecido l.
        Deixando um pouco os meus sentimentos de lado, o Natal era a nica coisa que agitava aquela casa. Alm dos meus avs - quem eu quase no via -, minha me 
convidou vrios parentes. Ela dizia que queria uma festa muito grande, com bastante comida, bebida e gente.
        Meus avs maternos, os nicos ainda vivos, moravam em Jundia. A casa deles era muito bonita. Tinha um jardim enorme. Lembro-me das festas de Ano Novo que 
sempre passvamos l: eram muito boas. Quando chegava a meia-noite, enquanto ns cantvamos a msica da passagem do ano, meus avs - do andar de cima, pela janela 
do quarto - ficavam atirando pratos em direo  rua. Ns somos descendentes de italianos e minha av dizia que quebrar pratos na passagem do ano dava muita sorte.
        Eu nunca soube direito se este costume de quebrar pratos era italiano ou no. S sei que, ao longo do ano, todos os pratos trincados, lascados ou parcialmente 
quebrados, eram guardados para, na passagem do ano, serem atirados ao cho. Meus avs faziam isso com grande entusiasmo e acreditavam que, com isso, todos os males 
do ano no os acompanhariam para o ano seguinte.
        Enquanto relembrava tudo isso, a msica me veio  cabea. Eu nunca soube o nome dela, mas era mais ou menos assim:
        ADEUS ANO VELHO
        FELIZ ANO NOVO
        QUE TUDO SE REALIZE
        NO ANO QUE VAI NASCER
        MUITO DINHEIRO NO BOLSO
        SADE PARA DAR E VENDER
        Parei de sonhar quando minha me me chamou:
        Voc est pensando em qu, Marcus?
        Ns estvamos sentados no sof da sala, onde minha me lia um livro e eu, simplesmente, pensava.
        Por qu, me?
        Sorrindo, ela disse:
         que eu estava reparando em voc. Seus olhos brilhavam muito.
        Deitando no sof com a cabea sobre o colo da minha me, desfrutei um afago fantstico nos cabelos, que s ela sabia fazer.
        Me?
        Fala, filho.
        Eu no acredito que Deus seja to lgico e insensvel como o padre Antnio falou.
        O padre Antnio falou isso, Marcus?
        Com outras palavras, sim. Ele disse que isso Deus aceita, aquilo Deus no aceita.
        Por que voc est pensando nisso agora, filho?
        Por nada, me, eu s estava pensando.
        Ficamos bastante tempo no sof e minha me s se deu conta do horrio quando meu pai chegou da editora.
        Ao v-lo entrar, exclamou:
        Meu Deus, no fiz o jantar!
        Meu pai entrou, nos beijou, e foi at a cozinha, pegou uma latinha de cerveja, sentou no sof e disse:
        J sei. Vamos pedir uma pizza. Meia portuguesa e meia mussarela. O que vocs acham?
        Concordamos com ele, s que trocamos a meia mussarela, por meia de atum, com cobertura de catupiry.
Fazia tempo que a gente no ficava assim em casa. Ns trs estvamos muito bem, apesar de tudo.
        Enquanto minha me telefonava para a pizzaria, meu pai aproveitou para tomar um banho. Quando meu pai chegava em casa, a primeira coisa que ele fazia era 
pegar uma latinha de cerveja e, bebendo, ia para o banho. Minha me sempre reclamava dele. Ela dizia que no era um bom exemplo para mim. Ele respondia que isso 
no tinha nada de mais.
        Quando a campainha tocou, minha me e eu estvamos na cozinha, e meu pai descendo as escadas, gritou:
        Deixa que eu atendo o rapaz da pizza. J estou com o cheque na mo.
        Me sentei  mesa, enquanto minha me acabava de pegar os talheres.
        Aps meu pai ter atendido a porta, percebi um certo silncio na sala e ento gritei da cozinha:
        Est tudo bem a, pai?
        Ele respondeu:
        O Renato est aqui, Marcus.
        Ao ouvir isso, tive a sensao de que o cho havia desaparecido. Minha me, ento, parecia querer entrar dentro da geladeira. Acho que se ela pudesse, teria 
feito isso.
        Quando entrei na sala, meu pai estava pegando a pizza. Acho que o entregador chegou logo aps o Renato. Meu namorado estava muito bonito, do jeito que eu 
gostava, de jeans, tnis e camiseta branca por dentro da cala.
        Nos cumprimentamos com um sorriso e um aperto de mos. Minha me entrou na sala, totalmente sem-graa, e fez o mesmo, perguntando:
        Voc est melhor, Renato?
        Sim, dona Ana, praticamente j no tenho mais nada.
        Meu pai, visivelmente abalado, continuava parado na porta segurando a pizza, Convidei o Renato para jantar conosco e fomos os quatro para a cozinha. No 
imaginava que um encontro pudesse ser to leve. Imaginava algo mais pesado.
        E meus pais? Eles foram timos. Tenho que agradecer a Deus por ser filho deles.
         mesa, por vezes tive que segurar o riso. No podia me lembrar do lance da minha me com a geladeira. Afinal de contas, o momento era srio e meus pais 
estavam muito nervosos. Ento comecei a lembrar do dia em que minha av Elizabeta morreu. Eu tinha que ficar srio de qualquer jeito.
        Aps minha me ter servido pizza para o Renato, ela perguntou-lhe:
        Voc est melhor, Renato?
        Eu no acreditei. Ela fez a mesma pergunta de novo. Segurei o riso. No sei se tudo era realmente engraado ou era eu que estava me sentindo muito feliz. 
Tinha vontade de dizer para minha me: tudo bem, eu seguro o riso, mas v se a senhora colabora!
        Por vezes percebi que meu pai tentava participar, mas ele no conseguia falar. No fundo, toda essa situao devia ser muito difcil para os dois.
        Ao final do jantar, minha me me surpreendeu, dizendo que ela e meu pai iriam subir para que ns, Renato e eu, pudssemos conversar. Meu pai despediu-se 
do Renato com um cumprimento de mos e minha me, com um beijo. Eu e o Renato continuvamos sentados  mesa, quando ouvimos um barulho mais forte na escada. Ento 
gritei da cozinha:
        Aconteceu alguma coisa, me?
        No  nada, meu filho, foi o seu pai que escorregou na escada.
        Eu e Renato tivemos que colocar a mo na boca para no rir. Ento, olhei para ele e disse:
        Eles no so timos?
        No devia ter dito isso, na verdade saiu sem querer. Eu no sabia o que tinha rolado na casa dele, porm, com certeza, as coisas no deviam estar to bem 
quanto estavam na minha.
        Concordando, Renato disse:
        Eu soube o que rolou no hospital, o Carlos me contou. Imagino o quanto deve ter sido difcil para voc. E estou pedindo desculpas pela minha me. Ela no 
tinha o direito de fazer o que fez.
        Respondi que tudo bem e perguntei:
        E como as coisas esto agora?
        Ele comeou a rir e disse:
        Voc quer mesmo saber?
         lgico que eu quero, no estou entendendo voc.
        Ele se levantou da cadeira, fez com que eu me levantasse e, com o seu corpo, me encostou numa das paredes da cozinha. Com sua boca quase grudada na minha 
e bem baixinho, ele disse:
        Em casa est to bem quanto aqui!
        Fiquei surpreso e antes que pudesse falar alguma coisa, ele comeou a me beijar. Estvamos dando um puta amasso na cozinha, quando ouvimos o barulho de algum 
descendo as escadas. Era minha me, que fazia um barulho excessivo, como a dizer: estou chegando.
        Imediatamente paramos e sentamos  mesa da cozinha. Ns no poderamos ficar de p naquele momento.
        Minha me desceu, perguntou se estava tudo bem e foi at a geladeira pegar um copo de gua. Renato perguntou a ela:
        Dona Ana, vocs vo passar o Natal aqui em So Paulo?
        Ainda de frente para a geladeira, com a porta aberta e tomando gua, minha me respondeu que sim, passaramos o Natal l em casa mesmo, com alguns parentes.
        Ele continuou:
        Eu gostaria de trazer os meus pais para cumpriment-los na noite de Natal. Ns tambm vamos passar em casa.
        Minha me no respondia. Continuava a encher o copo e beber gua, at que o Renato se levantou, foi em sua direo:
        Dona Ana, olhe para mim. No precisa ficar sem-graa comigo. E se continuar a beber gua desse jeito, a senhora vai passar mal.
        Nesse momento, os dois sorriram e Renato, abraando-a, disse:
        Eu sei que deve ser muito difcil para a senhora toda essa situao. Mas pense, dona Ana,  difcil para todos ns, para mim, para o Marcus, para o senhor 
Giorgio e para os meus pais. Quando eu pensei em traz-los na noite de Natal  porque acho que seria mais fcil para todos. Primeiro porque  Natal e segundo porque 
a casa vai estar cheia de gente.
        Com lgrimas nos olhos, minha me disse que iria se sentir muito envergonhada. Ele a abraou novamente:
        O que a senhora est me dizendo, eu j ouvi de minha me. Eles tambm esto muito envergonhados. Um dia vocs vo se encontrar. Por que no agora?
        Antes de voltar para o quarto, ela disse que iria conversar com o meu pai, mas que o convite j poderia ser feito aos pais dele.
        Renato sempre me surpreendia e eu o admirava por isso. No teria coragem de fazer, com a me dele, o que ele fez com a minha. Alis no era uma questo de 
coragem e sim de vontade.
        Aps minha me ter subido, Renato foi at a geladeira para guardar a garrafa de gua. Aproximando-me dele, abracei-o por trs e disse:
        No  gostoso ser abraado por trs e de surpresa?
         muito gostoso, Marcus. E se voc fosse um pouquinho mais alto seria melhor ainda.
        Eu posso ser pequeno, Renato, mas aquilo  grande.
        Que coisa baixa voc falou agora, Marcus.
        Rimos e, j abraados de frente, ele falou:
        Eu sei que o seu  maior e mais grosso que o meu, Marcus, mas eu no estou com voc por causa disso.
        Eu estava s brincando, Renato.
        Que tal voc brincar com algo mais interessante?
        O que, por exemplo?
        Ele desceu a cala jeans e a cueca at os joelhos e, sentado no gabinete da pia, falou:
        Olha como ele est triste. Acho que ele precisa de um beijo seu, Marcus.
        Eu acho que no, Renato. Ele deve estar com sono. Olha como ele est com mole.
        Tenho certeza de que, se voc mexer nele com a boca, ele vai ficar bem esperto, Marcus.
        E se ele no ficar esperto?
        Ele fica, Marcus. E se tem uma coisa que ele adora,  quando um certo alemozinho passa os seus lbios macios sobre a sua cabea.
        Acho que voc est certo, Renato. S que eu vou comear por outro lugar.
        Sem pressa, deixei-o totalmente nu da cintura para baixo e ento comecei suavemente a beijar os seus ps. Ele foi s alturas e eu pude curtir com todo o 
tempo do mundo uma das coisas que mais gostava de fazer.
         bom demais, Marcus. Voc me deixa louco.
        Aos poucos fui alcanando suas pernas e j lambia suas coxas, quando ele, se masturbando, esporrou com tudo no meu rosto. A sensao foi incrvel.
        Suspirando, Renato falou:
      Que teso, Marcus.
      Voc gostou?
      Demais, cara. Venha aqui me dar um abrao.
      Ele continuava sentado no gabinete da pia, quando me levantei e nos abraamos. E foi nesse abrao, acompanhado de muitos beijos, que ns ficamos totalmente 
lambuzados com o esperma que ele havia jorrado no meu rosto, pescoo e cabelos.
      Depois de um banho de gato, fomos para sala curtir um som. Eu fiquei do jeito que queria: deitado no sof com a cabea sobre o seu colo e ouvindo msica enquanto 
ele afagava os meus cabelos.
      Voc sentiu saudades de mim, Marcus?
      Muitas, Renato. E voc?
      Quase nada. Na verdade eu conheci um enfermeiro
      Fiquei puto! E antes que pudesse falar alguma coisa, ele disse:
      Calma, Marcus!  brincadeira.
      Que brincadeira idiota.
      Desculpe. No queria te deixar chateado.
      Silncio na sala.
      Me d um beijo, Marcus?
      No.
      Um s.
      Eu j falei que no.
      Eu j estava tirando a cabea do colo dele, quando Renato me puxou:
      Daqui voc no sai, Marcus.
      No estou brincando, Renato. Me deixe levantar.
      No.
       fora fui beijado por ele e resisti ao beijo apenas nos primeiros segundos. Foi um teso.
      Viajei legal quando ele, ainda me beijando, enfiou a sua mo por dentro do meu agasalho e comeou a me bater uma punheta.
      Eu te amo, alemozinho. Voc  meu. S meu
      Gozei com tudo e adormeci no colo do meu namorado me sentido o cara mais feliz do mundo.

Captulo 9

        Na vspera de Natal acordei cedo. Minha me j havia me chamado pelo menos umas cinco vezes. Desci, tomei um banho superdemorado - o chuveiro do banheiro 
de baixo tem o jato de gua mais forte - daqueles que fazem a gente despertar, e fui para a cozinha.
        Sobre a mesa encontrei um dos famosos bilhetes da minha me, que s serviam para me dar ordens - 'Marcus faa isso, Marcus faa aquilo' - ser filho nico 
nessas horas era muito ruim, pois qualquer atividade especial acabava sempre sobrando para mim.
        Das tarefas que ela havia deixado, a principal delas era a de levar a mesa da cozinha para o barraco dos fundos e a pior era a de arrumar o barraco, que 
quase sua totalidade era ocupado com minhas coisas. Eu sempre fui de guardar coisas velhas e quebradas. Minha me dizia que eu havia puxado ao meu av Francesco, 
que tambm era mestre em guardar porcarias.
        Com um sanduche de queijo na mo esquerda e um copo de leite gelado na mo direita, fui para o barraco, quando ouvi meus pais chegando. Devagarinho e sem 
fazer barulho fui a cozinha para surpreend-los. Na verdade, eu sempre brincava de dar sustos na minha me. Quando cheguei perto da porta, percebi que eles estavam 
falando de mim e apesar de no ser correto, resolvi ficar ouvindo.
        Eles estavam conversando numa boa e meu pai dizia:
        Sabe, Ana, eu me sinto cmplice de tudo isso ao apoi-lo. E nada disso me faz bem. Mas o que a gente pode fazer? Se ns virarmos as costas, ns vamos deix-lo 
sozinho. E isso eu acho pior. Sozinho, ele vai encontrar gente de toda espcie. Algumas pessoas vo querer se aproveitar dele, seja em sexo ou em drogas. Ns sabemos 
como  o mundo l fora. Quando voc foi consultar a Slvia, que trabalhou com jovens problemticos na cidade Como era mesmo o programa social?
        'Vamos tirar os jovens das ruas'
         esse mesmo, Ana. Voc lembra que ela falou que meninos na idade do Marcus estavam vendendo o corpo em troca de dinheiro para sobreviver? Sabe, Ana, se 
algum tem que passar por algo que no gosta, acho que tem que ser a gente e no ele. Vamos fazer com que as coisas aconteam com a maior dignidade possvel.
        Sem fazer barulho, resolvi voltar para o barraco. Me arrependi de ter ouvido esta conversa. Eu no faria nada disso. Comecei a pensar num jeito de mostrar 
que eu estava l, mas que nada tinha ouvido. Comecei ento a cantar e em poucos minutos eles vieram. Quando os vi, disse:
        Vocs j chegaram?
        Eles no perceberam nada e minha me disse para me apressar, pois logo os convidados chegariam.
         noite, minha casa j estava cheia de gente. Por parte de meu pai, estavam seus trs irmos. Tio Marcello, que era o mais legal deles e tambm o mais pobre. 
Ele trabalhava num banco, mas no ocupava nenhum cargo de destaque. Tio Marcello era casado com Isabel, a quem eu tambm chamada de tia. E tinham duas filhas que 
eram uma gracinha, Flvia, com sete anos, e Mara, com nove.
        J tio Sandro era do tipo bem sisudo. Ele era contador e tinha escritrio prprio. O que eu no gostava nele era o papel de 'senhor sabe-tudo' que ele fazia. 
Tio Sandro era casado com Marta, que tambm andava com o nariz em p. Eles no tinham filhos.
        O que tio Sandro tinha de sisudo, sua irm tinha de simptica. Tia Tela se casou com Miguel quando tinha quarenta e cinco anos de idade e vivia como se o 
mundo fosse um paraso. Eles no eram ricos, mas tristeza e coisas ruins no faziam parte da vida dela. Na verdade, eu nunca soube definir minha tia Tela. s vezes 
eu a achava inocente de tudo e s vezes tinha a impresso de que ela simplesmente bloqueava aquilo que no queria ver.
        Pela famlia de minha me, alm dos meus avs, estava a sua nica irm, minha tia Rosa. Era a simplicidade em pessoa. Eu nunca vi minha tia falar mal de 
algum. Ela era casada com o tio Joo, que tambm era muito legal. Eles eram proprietrios de sete lojas de autopeas. O filho deles, Daniel, tinha minha idade e 
a gente aprontou muito quando crianas.
        Eu estava servindo ponche ao meu av, quando vi os pais do Renato entrando.
        Presta ateno, Marcus.
        Me desculpe, v.
        Depois de quase ter derramado ponche em cima dele, fui tomado por um calafrio no corpo todo. Percebendo algo de diferente em mim, meu av perguntou:
        Quem so aqueles, Marcus?
        Quem, v?
        Aqueles que esto parados na porta do quintal junto com os seus pais?
        So os pais do Renato, v.
        E por que a presena deles o deixou to nervoso?
        Eu no estou nervoso, v.
         lgico que est!
        Nisso, Renato veio em minha direo.
        E a, Marcus, tudo bem?
        Nos cumprimentamos com um abrao e ao p do ouvido ele me falou:
        Meus pais j esto aqui.
        Tambm encostado ao seu ouvido, eu respondi:
        Eu sei, Renato. J os vi.
        Num tom de voz bem alto, meu av falou.
        Vocs vo ficar agarrados por muito tempo?
        Sem graa, paramos de nos abraar e Renato foi finalmente cumprimet-lo:
        Tudo bem, Sr. Francesco?
        Eles tambm se cumprimentaram com um abrao e meu av perguntou ao Renato:
        Por que o Marcus ficou to nervoso quando viu os seus pais, Renato? Aconteceu alguma coisa?
        Ele ficou nervoso, Sr. Francesco?
        Ficou.
        Intervim na conversa.
        Eu no fiquei nervoso, v. Isso foi impresso sua.
        Inteligentemente, Renato puxou outros assuntos com meu av e enquanto eles conversavam fiquei observando - com um falso sorriso no rosto -  os quatro se 
aproximarem de mim. Minha me vinha de braos dados com dona Ins, aparentando uma amizade que no existia. J bem mais  vontade, meu pai conversava com o senhor 
Jlio e, pela forma que gesticulavam com as mos, o assunto era negcios.
        Dona Ins, seu Jlio. Tudo bem?
        Como sou falso. Fui cumprimentar o senhor Jlio com um aperto de mos, mas para minha surpresa ele me abraou. Nosso abrao foi muito curto em funo da 
impacincia que dona Ins demonstrava em querer me cumprimentar. A impresso que ela me passava era a mesma de uma criana numa fila qualquer, que no tinha pacincia 
em esperar a sua vez chegar. Por certo ela era a mais nervosa de todos ns, pois junto com o abrao demasiadamente demorado, ela me beijou diversas vezes no rosto.
        Ela ainda me cumprimentava quando meu av foi se apresentando.
        Boa noite. Eu sou o Francesco, pai da Ana e Essa aqui  minha esposa, Luiza.
        Minha av no estava exatamente no grupo e meu av, ao tentar delicadamente pux-la, derramou ponche de vinho tinto na camisa do Renato, que estava ao seu 
lado.
        Ele nem teve tempo de se desculpar com o Renato, pois minha av, que no gostou muito da forma como ela a havia puxado, falou:
        Francesco, olha o que voc fez na camisa do moo!
        Foi sem querer, Luza.
        Eu sei que foi sem querer.
        Se voc sabe que foi sem querer, ento por que pergunta?
        No fala besteira Francesco. Eu no estou perguntando nada. Eu s estou dizendo para voc prestar mais ateno nas coisas que faz.
        Eu estou prestando ateno, s que o vinho j caiu, Luza.
        Eu sei que o vinho caiu. S que agora manchou a camisa do moo.
        E voc quer que eu faa o qu, Luza? Troque de camisa com ele?
        No se atreva a tirar a camisa aqui, Francesco.
        Duvida?
        Por incrvel que parea, foi dona Ins que tentou evitar a discusso entre os meus avs se prolongasse. Ela disse:
        Vocs no precisam discutir por causa da camisa. Eu tenho certeza de que o Francisco no fez de propsito.
        Sem pensar, meu av respondeu:
         lgico que eu no fiz de propsito. E o meu nome no  Francisco,  Francesco!
        Para que as coisas no ficassem piores, minha me entrou na conversa e foi mudando de assunto:
        Vocs no querem comer alguma coisa? Eu fiz pimento com alixe. Est uma delcia.
        Dona Ins respondeu:
        No, Ana, obrigada. Fica para a prxima vez. Na verdade ns j temos que ir. O meu outro filho, Carlos, est com a noiva nos esperando, no  Jlio?
 isso mesmo, Ins.
        O senhor Jlio e a dona Ins ficaram pouco tempo em casa, mas com certeza o suficiente para uma primeira aproximao.
        Passado o sufoco e com a casa cheia de gente, foi possvel ficar alguns momentos com Renato no meu quarto, sem que fssemos notados. Eu nem bem havia fechado 
a porta e ele me prensou contra a parede.
        Como voc gosta de me apertar contra a parede, cara.
        Por qu, Marcus? Voc no gosta?
        Eu adoro, cara, ainda mais quando voc me pega de surpresa, como agora.
        Comeamos a nos beijar e, entre um amasso e outro, ele falou:
        Eu gostaria de te dar o meu presente de Natal, Marcus.
        Ento voc no se esqueceu do meu presente, Renato!
        Como eu posso esquecer o presente da pessoa mais importante da minha vida? A caixinha est no meu bolso, Marcus. Voc pega?
        Pego.
        Eu falei no bolso, e  uma caixinha e no um canudo.
        Risos.
        Eu sei que  uma caixinha, Renato, mas eu estava com a mo to perto dele, que no resisti.
        Ele havia comprado uma corrente de ouro, mas o detalhe que tornava o presente especial era o pingente: no formato de uma medalhinha, tinha um crucifixo cunhado 
na frente e a letra 'erre' atrs.
        Voc gostou, Marcus?
        Muito, cara. Voc coloca em mim?
        Lgico. Essa  a melhor parte.
        Junto com a corrente ganhei vrios beijos no rosto e no pescoo e ento foi a minha vez de presente-lo.
        Agora  a vez do meu presente, Renato.
        Voc tambm guardou no bolso, Marcus?
        Sobre o jeans, ele comeou a passar a mo em mim.
        No, Renato, o seu presente no est no meio das minhas pernas.
        Rimos.
        Eu vou peg-lo no maleiro.
        Emocionado, entreguei a caixa a ele:
         seu, cara. Espero que voc goste.
        O que tem aqui dentro, Marcus? Criptonita?
        Comecei a rir e perguntei:
        Por que voc disse isso?  pelo papel?
        H, h.
        A caixa estava embrulhada em um papel verde brilhante.
        Que legal, Marcus!
        Voc gostou?
         impossvel no gostar. Puta tnis transado, cara!
        Entre os importados, eu escolhi o que tinha mais o seu jeito.
        Valeu mesmo, Marcus. Agora deixa eu ler o seu carto.
        No leia agora, Renato.
        Por qu?
        Leia quando voc estiver sozinho.
        Voc est com vergonha?
        Tentei puxar o carto da mo dele, mas no consegui.
        Marcus, se eu no puder ler o carto agora, no tem graa.
        T legal, Renato. Voc pode ler, mas no vale rir.
        Ok, Marcus.
        Ele comeou a ler o meu carto em voz alta.
        'A bordo de sua vida, me fiz um passageiro eterno.'
        Renato, juntos faremos o possvel e o impossvel para realizarmos os nossos sonhos.

                                                        Eu te amo.
                                                             Marcus.

        Eu nem sei o lhe dizer, Marcus. O que voc me escreveu  bonito demais, cara.
        Ento no diga nada, apenas me abrace.
        Ns estvamos namorando quando bateram  porta:
        Marcus? Voc est a?
        O que voc quer, Mara?
        O vov est procurando voc.
        Diga a ele que eu j estou descendo.
        Olhando para o Renato, falei:
        Se bem conheo meu av,  melhor descermos agora.
        Por qu?
        Porque seno ele sobe.
        No precisei falar duas vezes.

Captulo 10

        A ceia de Natal transcorreu quase que normalmente. Percebi que meus pais j se sentiam bem mais  vontade comigo e com o Renato. No fundo, esse alvio vinha 
do fato de nem eu nem ele darmos bandeira da nossa situao. Realmente ns parecamos apenas amigos.
        O que eles no sabiam era que ns brincvamos muito. Renato e eu, sentados lado a lado e por debaixo da mesa, nos alisvamos constantemente sobre o jeans. 
Sabamos que estvamos arriscando, mas tambm no era tanto risco assim. Alm do mais, era muito gostoso.
        Eu estava completamente distrado, quando da ponta da mesa meu av gritou: Meia-noite em ponto! Imediatamente todos comearam a se cumprimentar. Nunca gostei 
disso, pois nessas horas voc  obrigado, inclusive, a cumprimentar quem voc no gosta. Passado esse momento, iniciou-se a troca de presentes. Estava muito ansioso, 
pois junto com minha me havia preparado um presente para o Renato em nome da famlia.
        Em casa, a troca de presentes era comandada pelo meu av que, da ponta da mesa, pegava pacote a pacote, devidamente identificado, e fazia o maior suspense 
para entreg-lo, dizendo por fim o nome do ganhador e o nome de quem havia dado o presente. Quando a pessoa se levanta para pegar o pacote, a mesa inteira gritava 
o tradicional: Abre! Abre! Abre! Abre!
        Mesmo com todo o suspense que meu av fazia, percebi quando o momento que eu mais esperava chegou:
        Este presente que tenho em mos  para uma pessoa que, pela amizade, j  quase da famlia. Algum quer arriscar o nome?
        A mesa inteira respondeu que no, inclusive eu.
Esta pessoa  muito jovem e o presente est sendo dado pelo Giorgio, pela Ana e pelo Marcus o presente  para o Renato.
        Ele no esperava ganhar um segundo presente e ficou todo envergonhado em receb-lo na frente de todos. Mas o pior mesmo aconteceu quando a caixinha foi aberta. 
Todos ficaram sem entender nada. Eu havia comprado um relgio de marca, folheado a outro. Minha me, do outro lado da mesa, se pudesse, arremessaria a bandeja de 
pernil na minha cabea. Ela sabia que eu havia comprado um relgio, mas no imaginava que tivesse sido to caro.
        Na verdade no era o valor do presente que estava em questo, pois dinheiro ns tnhamos bastante, e sim como explicar aos outros o porqu de um presente 
to caro a um amigo meu.
        Percebendo que no havia o que explicar, meu av prosseguiu com a entrega de presentes e minha me - delicadamente - pediu para que eu a ajudasse com a travessa 
de maionese na cozinha.
        Nem bem passamos pela porta, ela falou:
        Voc est louco, Marcus? Voc at pode dar um relgio to caro ao Renato, mas que desse sozinho, filho.
        Eu sei, me, agora percebo a mancada que dei.
        Ningum entendeu nada, filho. Voc viu como a sua tia Marta me olhou? Ela
        Interrompi minha me:
        A Marta no  minha tia.
        No  isso que ns estamos discutindo, Marcus.
        Desculpe, me, a senhora tem razo.
        Da prxima vez que voc quiser fazer alguma coisa, filho, pense antes nas conseqncias. A famlia no precisa saber o que acontece. Voc entendeu?
        Entendi, me.
        Agora  melhor voltarmos para a mesa, Marcus.
        Ns no vamos levar a maionese?
         mesmo. Pegue-a na geladeira, filho.
        Ningum tocou no assunto do relgio, e meus tios j combinavam em que lugares da casa dormiriam, quando meu av, pela primeira vez baixo, me perguntou:
        Est tudo bem, Marcus?
        Est, v.
        Ento volte para o seu lugar.
        Os meus avs sempre foram muito rgidos em se tratando de almoo e jantar. Tanto que as crianas sempre comiam separadas dos adultos e, caso algum quisesse 
sair definitivamente da mesa antes que o meu av desse o jantar por encerrado, tinha que pedir licena a ele.
        Voltando para o meu lugar, observei as pessoas  minha volta e fiquei imaginando como seriam os nossos Natais da a alguns anos, quando eu j estivesse morando 
com Renato. Ser que todos se sentariam  mesa com a gente?
        Fui interrompido em meus pensamentos por Renato, me dizendo bem baixinho:
        Voc vai dormir na sala com o Daniel.
        Do que voc est falando?
        Do esquema que a sua famlia preparou, para voc e o Daniel dormirem na sala em colchonetes.
        Claramente pude perceber que Renato estava com cimes.
        Ento por que voc no dorme com a gente?
         o que vou fazer, Marcus.
        Enquanto bebamos muito ponche e jogvamos tmbola, a noite foi avanando sem tropeos e, na hora de dormir, trs pessoas se deitaram na sala: eu, o Renato 
e meu primo Daniel.
        Ao acordarmos, disse aos meus pais que almoaria na casa do Renato, e perguntei se eles poderiam me emprestar um carro. Minha me disse que ns poderamos 
levar o dela, desde que o motorista fosse o Renato. Concordei, j que entre ns ele era o nico que possua habilitao para dirigir.
        Aps o banho, e a pedido de minha me, avisei a meu av que eu passaria o almoo de Natal na casa do Renato. Ele disse que tudo bem e ainda brincou, falando 
com a minha av em italiano que as moas deveriam estar l ou algo assim.        
        J a caminho da guerra - era assim que eu me sentia -, perguntei ao Renato se ele tinha certeza de que os seus pais me receberia bem. Sorrindo, ele afirmou 
que sim.
        No satisfeito com a resposta, insisti:
        Renato, posso tocar num assunto delicado?
        Pode. O que voc quer saber?
       sobre o seu pai.
      Pode falar, Marcus.
      Sabe o que , Renato, tem uma coisa que ainda no se encaixou direito na minha cabea.
      Pode falar. O que est preocupando voc?
      At hoje, Renato, eu no entendo como uma pessoa to 'de bem com a vida' como o seu Jlio pde ser voc entendeu.
      Ele terminou a frase por mim:
      Pde ser to violento.  isso, Marcus?
       isso.
      Percebendo que a situao me incomodava demais, ele parou o carro e disse:
      Marcus, ao contrrio do que possa parecer, meu pai no teve culpa nenhuma. Quando eu comecei a falar com eles, ele estava na cozinha preparando um lanche. 
Minuto a minuto, a discusso foi tomando propores mais graves, at que minha me saiu chorando da cozinha e se trancou no banheiro. Meu pai, tambm descontrolado, 
veio para cima de mim e me puxou com muita fora para perto dele. Foi nessa hora em que ele se deu conta de que a faca estava na sua mo e que tinha entrado na minha 
barriga. Dias depois que voc havia me visitado no hospital, eu tive que conversar muito com o Carlos para provar a ele que o papai
      Muito emocionado, Renato tinha dificuldade em falar, mas mesmo assim continuou:
      Tive que conversar muito com o Carlos para provar a ele que o papai no tinha tentado me matar, que era o que estava na cabea dele e o que tambm deve estar 
na sua.
      Com um abrao interrompi as palavras dele, e enxugando com as minhas mos as lgrimas que caam pelo seu rosto, disse:
      No fale mais nada, Renato.
      Ficamos algum tempo no carro e depois, j recuperados, seguimos para a casa dele.
      L chegando, encontramos todos j almoando. Quando o senhor Jlio nos viu entrar, levantou-se e veio me cumprimentar. Dona Ins fez o mesmo, seguida por Carlos 
e sua noiva.
      Ainda nem tnhamos sentado  mesa, quando dona Ins comentou:
      Pensei que vocs no viriam mais!
      Foi a que percebemos que j eram quase quatro horas da tarde.
      A me do Renato estava supergentil comigo. Ela me oferecia de tudo e entre um pedao de pernil e outro, sem qualquer sentido, ela disse:
      Voc me desculpa pelo hospital, Marcus?
      Ela havia levantado a questo do hospital numa hora totalmente imprpria. Carlos largara os talheres sobre o prato e Renato vinha ao meu socorro, quando antecipando-se 
a ele, o senhor Jlio falou:
      Marcus, todos ns sabemos que o momento no  este, inclusive a Ins, no , Ins? Porm, ns at hoje estamos muito aflitos com o que aconteceu e no queremos, 
de forma alguma, que voc fique magoado com a gente. A partir de agora, ns o consideramos como um filho.
      Me senti desarmado pela palavras do senhor Jlio e at achava que o incidente do hospital no tinha sido to grave assim.
      Percebendo que eu no sabia o que dizer, Renato, que estava sentado  minha frente, colocou sua mo sobre a minha e disse:
      Est tudo bem, Marcus?
      Corei de vergonha. Como pde o Renato me tratar como namorado, colocando a sua mo sobre a minha com tanto carinho na frente de todos? Confuso, tentei buscar 
a firmeza que meu av sempre teve e, olhando para dona Ins, disse:
      A senhora no precisa se desculpar, e por ser quem  j est tudo esquecido. Vamos brindar?
      No sei at hoje porque eu disse essa merda. No tinha nada a ver com a situao. Esse 'vamos brindar' saiu da minha boca no sei como. Percebi que Renato 
tambm no havia entendido nada, alis acho que ningum entendeu, mas todo mundo brindou. A nica coisa certa  que me senti um completo idiota.
      Aps o almoo, que foi rpido - afinal de contas eles j deviam estar  mesa h muito tempo -, fomos todos para a sala, com exceo do Renato, que foi tomar 
um banho.
      Minha me havia me ensinado que  muito perigoso tomar banho aps as refeies e que isso poderia dar congesto. Na famlia do Renato no tinha nada disso. 
Se o banho fosse logo aps a refeio, nada aconteceria.
      O senhor Jlio e a dona Ins ficaram pouco tempo na sala e logo subiram para o quarto. Eu, Carlos e Lcia ficamos selecionando uma fita para colocarmos no 
videocassete.
      Quando Renato entrou na sala, tive que controlar minha excitao. O meu namorado estava gostoso demais. Ele vestia uma camiseta branca, um short xadrez em 
tons mostarda e nos ps usava apenas meias brancas.
      Carlos e Lcia se acomodaram no sof pequeno. Renato e eu, no grande. Com poucos minutos de filme, ele deitou no sof e colocou a cabea sobre o meu colo. 
Fiquei com vergonha e no sabia o que fazer com as minhas mos, quando Renato falou:
      No ganho carinho?
      Muito sem graa comecei a acariciar seus cabelos. Carlos e Lcia tambm no sentiram  vontade, e mais uma vez Renato falou:
      Gente! Vocs precisam relaxar.
      Carlos foi o primeiro a falar:
      O que voc disse, Renato?
      Voc sabe o que eu disse, Carlos!
      Os dois comearam a rir e Renato falou, ajoelhando-se no sof, ao meu lado.
      Eu e o Marcus no vamos fazer isso na presena de estranhos, mas vocs so da famlia.
      Tentando me provocar. Renato disse:
      Olhem para o Marcus. Est com tanta vergonha que parece que seu rosto vai pegar fogo. E a Lcia, ento? Nem respira.
      Todos ns camos na risada, e Carlos falou:
      Sabe o que , Renato? Vendo pela primeira vez, a gente se sente meio estranho, no  mesmo, Lcia?
       isso mesmo, Carlos. At o Marcus est com vergonha.
      Ento eu disse:
      Eu no tenho vergonha dos meus sentimentos. O que me faz sentir meio estranho  agir assim na frente de outras pessoas. Alis, Renato, se os seus pais estivessem 
aqui, com certeza eu ainda no estaria preparado e acho que nem eles.
      Todos concordaram comigo e, a partir da, o clima no ficou to tenso como no incio.

Captulo 11

      Na semana logo aps o Natal, agitamos com os nossos pais uma viagem para o litoral norte de So Paulo. Eu e Renato queramos passar o Ano Novo sozinhos num 
hotel. Mas para isso precisaramos de grana, e eu no queria mexer na minha poupana novamente. Tambm minha me teria que deixar o carro dela com a gente. No incio, 
eles hesitaram um pouco. Primeiro disseram que os meus avs ficariam chateados. Depois, que no conseguiramos reservas num hotel em cima da hora. E, por ltimo, 
como faramos no hotel para que ningum percebesse nada? Respondi a eles que ns ficaramos num apartamento com duas camas de solteiro, ou seja, dois amigos passando 
o Ano Novo juntos. Disse, tambm que j havamos feito contato com um hotel em Boiucanga, e que ainda era possvel reservar um apartamento pagando um pouco a mais 
pela diria. Na verdade esse 'um pouco a mais' representava quase o dobro da diria, mas achei melhor no contar nada a eles.
      Antecipando-se a meu pai, minha me disse:
      Voc pensou em tudo, no  Marcus? E quanto aos seus avs? Voc sabe que eles gostam de ver a famlia toda reunida em Jundia para a passagem de ano.
      Meu pai quase no deixou minha me terminar de falar dizendo que o problema  com o seu Francesco eles resolveriam. Percebi que ela ficou surpresa com a atitude 
dele. Acho que era a primeira vez que meu pai no estava ligando muito para o que meu av iria pensar.
      Antes de sair da sala, ela disse que eu poderia fazer as reservas e depois dissesse a ele quanto em dinheiro iria precisar.
      Meio inconformada com a deciso do meu pai, minha me subiu as escadas logo atrs dele, mas esperou que chegasse  sute para question-lo. Eu tambm subi 
e, com o ouvido na porta, escutei o que eles diziam:
      Ana, ns sabemos que o problema maior no  o seu pai. Nada na vida  eterno. Este ano  o Marcus que no poder estar presente na festa. No ano que vem, poder 
ser outra pessoa, e assim a vida continua. Eu mesmo me encarrego de inventar uma histria qualquer para o seu Francesco.
      Sei que voc est certo, Giorgio. Mas me incomoda saber que o nosso filho, que s tem dezesseis anos, vai ficar com um rapaz alguns dias num hotel. J parou 
para pensar no que pode acontecer?
      Ligeiramente alterado, mas com a voz firme, meu pai disse:
       bvio que j pensei, Ana. S que  impossvel querer controlar uma situao como essa.  como tentar impedir que as ondas se quebrem na praia. No fundo, 
Ana, estou tentando ser digno dentro da lama.
      Minha me suspirou fundo, e meu pai continuou a falar:
      Outra coisa, Ana. O Marcus j vai fazer dezessete anos e o rapaz com quem ele vai viajar tem nome, tem famlia e estuda no mesmo colgio.
      E voc acha que isso  suficiente para atestar a conduta do Marcus? Eu no estou entendendo voc, Giorgio!
      Pelo tom de voz de meu pai, eles j estavam a ponto de discutirem:
      Ana! Quando voc vai entender de uma vez por todas que no somos ns que definimos a tendncia sexual do nosso filho? Se fosse assim, eu diria: 'Marcus, a 
partir de agora, voc gosta de mulher' e pronto, como num passe de mgica tudo estaria resolvido.
      Por alguns minutos, silncio absoluto no quarto.
      Ana, no sei se estou decidindo certo ou errado, mas sei que prender o Marcus dentro de casa no vai adiantar nada. J falei que estou tentando ser digno dentro 
da lama. Outra coisa, Ana, prefiro no pensar muito no que eles fazem, mas com certeza alguma coisa j deve ter acontecido. Ou voc acha que no?
      Ele no esperou a resposta dela e continuou a falar:
      E tem mais, Ana!  importante sim conhecer a pessoa com quem o nosso filho est. Pior seria se nem isso ns soubssemos. Bem ou mal, o Renato vem de uma famlia 
estruturada, que tem pai, tem me e ainda tem um irmo que est noivo.
      Minha me continuava em silncio.
      Eu j nem sei mais o que estou dizendo, Ana. Vou tomar uma ducha.
      Apesar de ele ainda no me aceitar, gostei muito do que meu pai havia dito. Alm de pai eu comeava a sentir nele um amigo.
      Na casa do Renato no houve problema algum, tanto que, depois de confirmar comigo, ele mesmo fez a reserva do apartamento.
      Tudo estava resolvido, e a noite que antecedia a nossa viagem foi uma das piores da minha vida, tamanha era a ansiedade que eu sentia.
      No dia da viagem acordei cedo e quando desci para o caf meus pais j estavam na cozinha.
      Bom dia, pai. Bom dia, me.
      Depois de nos beijarmos, minha me perguntou:
      Que horas voc marcou com Renato, Marcus.
      Ns combinamos s nove horas da manh, me.
      Tomando o caf, meu pai disse:
      No se esquea de pegar os documentos do carro, Marcus. Eles esto na mesinha da sala, junto com alguns nmeros de telefones, que eu mesmo separei para vocs 
levarem.
      Que telefones, pai?
      Caso vocs precisem de alguma coisa e por um motivo qualquer no consigam falar comigo, as pessoas que esto nesses nmeros podero ajud-los.
      Pode ficar tranqilo, pai. No vai acontecer nada de ruim.
      No sei o que passava na cabea de meu pai, mas eu j havia viajado inmeras vezes, inclusive com Renato, e nunca ele teve uma preocupao to grande como 
agora. Eu ainda refletia sobre o que tinha acabado de ouvir, quando ele disse:
      Outra coisa, Marcus. No v esquecer de me passar o nome e o telefone de onde vocs vo ficar.
      Sorrindo, eu falei:
      Quando Renato chegar, eu pego com ele e passo a voc, pai.
      Ele conversava comigo numa boa, mas no me olhava firme nos olhos como de costume.
      Voc falou que o hotel fica no litoral norte, Marcus?
      H, h. S que no  um hotel,  uma pousada, pai.
      Mas o lugar  bom, filho?
      Renato falou que  de primeira, pai.
      Preparando um suco de laranja, minha me perguntou:
      Em que regio do litoral norte fico a pousada, Marcus?
      Entre Boiucanga e Barra Sahy, me.
      Meu pai comentava que essa regio era muito bonita, quando eu disse:
      Pai, o senhor fez o DOC para a conta corrente do Renato?
      Fiz, Marcus, ou melhor, a Maria Estela fez.
      Maria Estela era sua secretria. Minha me dizia que se no fosse a Maria Estela, ele no conseguiria trabalhar direito, j que ela cuidava de tudo. Desde 
a conta corrente dele at as revises nos carros.
      Eu j estava saindo da mesa para pegar as mochilas no meu quarto, quando meu pai perguntou:
      Esse dinheiro que eu mandei para a conta do Renato  para pagar a pousada, filho?
       sim, pai. A famlia do Renato no  pobre, mas tambm no  rica.
      Eu ainda conversava com ele quando a campainha tocou. Era Renato. Correndo, fui atender  porta.
      E a, Marcus, tudo bem?
      Melhor agora, cara. Vamos at a cozinha? Meus pais esto l.
      Todos se cumprimentaram numa boa e Renato tomava um cafezinho quando meu pai perguntou a ele:
      Que caminho voc vai fazer, Renato?
      Eu vou pela rodovia dos Trabalhadores, senhor Giorgio.
      E pega a sada para Mogi das Cruzes?
      Isso mesmo, passa por dentro de Mogi, pego a rodovia Mogi-Bertioga e depois a Rio-Santos.
      Muito cuidado nessa estradas, Renato. Principalmente agora que  uma poca de festas e todo mundo bebe demais.
      Pode deixar, senhor Giorgio.
      Meus pais quiseram saber de tudo. Minha me forneceu papel e lpis para Renato anotar o nome e o telefone da pousada e depois de 'um milho de recomendaes' 
nos acompanharam at a porta e, abraados, esperaram que a gente partisse:
      O carro j estava em movimento, quando da janela eu gritei:
      Pai, me: obrigado!
        Ns dois estvamos muito excitados com a viagem. A sensao de liberdade era muito grande. A impresso que eu tinha era que o meu peito iria explodir de 
tanta felicidade. Pela primeira vez, Renato e eu estvamos viajando sozinhos como namorados e, melhor ainda, sem ter que esconder isso dos nossos pais. Essa viagem 
representava muito mais do que um simples passeio. Era uma conquista!
        Eu nem acredito que ns vamos passar o fim de ano sozinhos, Renato.
        Voc est feliz, Marcus?
        Demais, cara. E voc?
        Passando a mo sobre a minha coxa, ele disse:
        Com o meu alemozinho do lado, o que voc acha?
        Renato estava de camiseta, short, meias brancas e tnis. S olhar para ele me deixava excitado. Percebendo isso, ele disse:
        Marcus, vem brincar um pouco com ele.
        Agora?
        , agora.
        Mas voc est dirigindo, Renato.
        Mas ele, no.
        Tirando-o para fora do short, ele falou:
        Pronto, cara, vem cair de boca.
        Foi um teso. Eu nunca o havia chupado daquele jeito. Ele gozou muito em meio a um fantstico ziguezague com o carro, e eu engoli cada gota jorrada.
        O que tambm me deixava muito excitado era a forma como Renato dizia as coisas. Esta expresso 'vem cair de boca' me faz gozar espiritualmente.
        Demoramos quase trs horas para chegar  pousada e a caminho ainda paramos para um caf num lugar muito bonito, chamado Riviera de So Loureno.
        Gostei da pousada logo que a vi. Ela no era nada sofisticada, mas tinha uma coisa muito importante: charme!
        Boa tarde. Em que posso ajud-los?
        Eu ia responder, quando Renato tomou a frente:
        Eu fiz reserva de um apartamento em nome de Renato Assuno.
        Perfeitamente. O apartamento de vocs j est pronto. Voc deve ser o senhor Renato?
        Sou eu mesmo, mas no precisa me chamar de senhor.
        Checando numa planilha, o recepcionista olhou para mim e disse:
        Ento, voc s pode ser o Marcus Drio, quero dizer, o senhor Marcus Drio. Sejam bem-vindos  nossa pousada.
        Enquanto preenchamos as fichas, o recepcionista, olhando para Renato, no parava de falar.
        O apartamento de vocs tem duas camas de solteiro e, a pedido do senhor, quero dizer, a seu pedido, o frigobar foi abastecido quase na sua totalidade com 
cervejas em lata. Eu queria falar tambm deste folheto. Nele vocs podero verificar todos os servios que a pousada oferece, desde o caf da manh at os servios 
de quarto, onde
        Renato interrompeu o cara:
        Qual  mesmo o seu nome?
        Puxa! Eu esqueci de me apresentar a vocs, quero dizer, aos senhores. Me desculpem, eu sou o Ronaldo.
        O rapaz devia ter seus vinte e cinco anos mais ou menos e nos passava a impresso de que tentava seguir um script qualquer do tipo 'como receber hspedes'. 
Porm, se enrolava todo.
        Por iniciativa do Ronaldo, mais uma vez nos cumprimentamos, e Renato disse a ele:
O importe, Ronaldo,  no deixar faltar cerveja no frigobar. Agora quanto ao resto, em caso de dvidas, a gente liga, Ok?
        Perfeitamente, senhor Renato, quero dizer, Renato.
        Outra coisa, Ronaldo. Qual  o nmero do nosso apartamento?
        Ah, sim.  o apartamento nmero vinte e dois, que fica no segundo andar. Subindo as escadas, do lado esquerdo do corredor.
        E as chaves, Ronaldo?
        Ah, sim. Esto aqui.
        Livres do confuso Ronaldo, pudemos subir para o nosso apartamento. Internamente a pousada mantinha o mesmo charme que do lado de fora. De uma forma meio 
rstica, possua muitos detalhes em madeira e devia ter, no mximo, quarenta apartamentos nos seus dois andares.
        A satisfao que eu sentia em poder estar ali com Renato era to grande, que subi as escadas imaginando ouvir a msica. La donna  mobile, de Verdi.

Captulo 12

        O apartamento era bem transado, mas o que mais me agradava nele era a varanda, que alm de uma mesinha, tinha duas confortveis cadeiras.
        Trancamos a porta, largamos as mochilas no cho, pegamos duas cervejas estupidamente geladas e nos sentamos na varanda. Naquele momento, se tivesse talento, 
teria feito uma poesia para Renato. Ficamos um bom tempo nos beijando, at que minha mo comeou a deslizar pelo seu corpo. Tomando cerveja como se nada estivesse 
acontecendo, podia at parecer que ele estava indiferente aos meus carinhos, se no fosse pelo volume que comeava a se formar dentro do seu short. Pedi a ele que 
continuasse sentado e deixando-o apenas de camiseta e meias, comecei a chup-lo.
        Eu ainda curtia tudo aquilo quando a campainha tocou. Imediatamente paramos e Renato, mesmo sem gozar, foi vestindo a cueca e o short.
        Quem poder ser, Renato?
        Deve ser o Ronaldo, que esqueceu de nos falar alguma coisa que no est escrita no folheto.
        Estava indo atender a porta quando Renato, brincando, falou:
        Se for ele mesmo, Marcus, d uma porrada na boca dele por mim.
        Ao abrir a porta, no pude acreditar no que meus olhos viam:
        Beatriz! Voc aqui!
        Ela me deu um beijo no rosto e foi entrando sem qualquer cerimnia. Sem entender o que estava acontecendo, fechei a porta com uma nica certeza: aquilo s 
podia ser armao do Renato. Mar por que ele faria isso? Eu ainda tentava encontrar uma resposta, quando ela disse:
        No ganho uma cerveja, Marcus?
        Eu estava pegando a cerveja no frigobar, quando Renato entrou no quarto.
        Eu pensei ter ouvido a sua voz.  voc mesma!
        Tudo bem, Renato?
        Eles se cumprimentaram com um curto beijo nos lbios, e Renato perguntou:
        Como voc nos achou aqui?
        Pura coincidncia. Eu estou aqui com mais duas amigas no apartamento oito, primeiro andar. E vocs esto sozinhos?
        Entrando na conversa, eu respondi:
        Estamos, Beatriz. Aqui est a sua cerveja.
        Obrigada, Marcus.
        Abri minha latinha de cerveja e sentei numa das camas. Eles fizeram o mesmo, com Renato dizendo a ela:
        Mas que surpresa, hein!
        Ainda mais porque voc anda fugindo de mim, no , Renato?
        Eu no tenho motivos para fugir de voc.
        Parece, Renato. Desde o seu acidente eu ando tentando falar com voc e no consigo.
        No confunda as coisas, Beatriz. No somos mais namorados.
        Eu no estou falando de namoro, Renato. Estou falando de amor, amizade e considerao. Eu acho que no mereo ser tratada dessa maneira por voc. Afinal 
de contas, juntos ns vivemos muitos momentos bons.
        O dilogo entre os dois estava difcil e mesmo se tratando do meu namorado, achei que deveria sair do quarto para que Renato, mais  vontade sem a minha 
presena, pudesse dar um ponto final naquela histria.
        Quando me levantei da cama em direo  porta, Beatriz me perguntou:
        Aonde voc vai?
        Renato apenas me olhava.
        Eu vou deix-los sozinhos para que vocs possam conversar mais  vontade, Beatriz.
        Levantando-se da cama e me segurando pelo brao, ela me fez sentar novamente e, olhando para Renato, disse:
        Acho que sei o que rola entre vocs.
        Com muita calma, Renato respondeu:
        O que voc est querendo dizer?
        Que voc e o Marcus se gostam.
        Pegando mais uma cerveja no frigobar, sem ter bebido a anterior totalmente, ele disse:
         claro que a gente se gosta, ns somos amigos.
        Sem hesitar, ela revidou:
        Eu no estou falando de amizade, Renato.
        Por que voc acha que a gente se gosta de uma forma diferente?
        Por tudo que j observei em voc, Renato. Agora certeza mesmo eu s tive no hospital em que voc estava internado.
        J com a voz no muito firme, ele disse:
        Voc nunca me visitou no hospital.
        Aproximando-se bem dele, ela falou:
        Visitei sim, Renato. Presenciei toda a cena que sua me fez no corredor com o Marcus. O Carlos tambm estava l.
        Eu no sei definir direito que tipo de sentimento essa garota provocou em mim, mas sei que gostei muito do fato de ela ter descoberto tudo. Quantas e quantas 
e quantas vezes eu sonhei em ocupar o lugar dela. Meu Deus! Isso  maluco.
        Ela continuou a falar e Renato, de cabea baixa, apenas ouvia:
        Sei que voc no tem compromisso nenhum comigo. Mas eu me senti muito magoada por voc nunca ter me dito nada do que estava acontecendo, Renato, bastava 
apenas voc dizer que existia outra pessoa na sua vida, s isso.
        Assistindo a tudo de camarote - era assim que eu me sentia - pude finalmente perceber que, na verdade, nunca tive raiva dela. Cimes e inveja era o que eu 
senti apor ela poder desfrutar, sem esforo nenhum, aquele universo que a sociedade nunca permitiu que eu tivesse acesso. E a presena dela, naquele momento, representava 
para mim uma vitria.
        Visivelmente sem-graa, Renato pediu desculpas a ela e os dois se abraaram por muito tempo. Confesso que no sabia o que fazer e acabei por esperar que 
aquele abrao terminasse.
        Antes de sair do apartamento, com lgrimas nos olhos, Beatriz me deu um beijo no rosto, que acabou num abrao. Definitivamente, ela estava triste por ter 
perdido um lugar no corao dele, mas em momento nenhum ela demostrava estar com raiva de mim.
        Depois de acompanh-la at a porta, peguei duas cervejas e sentado de frente para ele, na cama, falei:
         melhor bebermos. Tome a sua.
        Pegando a cerveja, ele disse:
        Desculpe por ter feito voc passar por isso, Marcus.
        Voc no precisa se desculpar. Comigo est tudo bem.
        Mesmo?
        Mesmo, Renato. E digo mais, nem a presena dela na pousada me incomoda. O que ns temos que pensar, e nem precisa ser agora,  na possibilidade de ela espalhar 
a notcia no colgio.
        Ela no vai contar nada a ningum, Marcus.
        O que te d tanta certeza?
        No se esquea de que ela j foi minha namorada, Marcus. Alm do mais, nos ltimos tempos, ela e eu fizemos muita coisa diferente. E pode ter certeza de 
que ela tambm gostou.
        Alm do que voc j me contou na cachoeira, o que mais vocs fizeram?
        Eu vou contar toda a histria, Marcus.
        Eu no estava muito a fim de ouvir toda a histria, mas acho que ele precisava falar:
        No incio ns ramos um casal comum. amos muito a motis e transvamos bastante. Na cama, ns fazamos aquilo que era considerado normal, ou seja, alm 
do tradicional, um chupava o outro e estava limpo. Com o tempo, comecei a perceber que quando Beatriz me tocava atrs, com a mo ou com a lngua - e isso s acontecia 
sem querer e rapidamente - me dava muito teso. Como que ela te chupava 'sem querer' atrs, Renato?
        Isso acontecia quando ela dava um trato no meu saco. Por diversas vezes sua lngua escorregava mais para baixo.
        Voc nunca se imaginou transando com um cara, Renato?
        Eu j falei que no, Marcus. E o assunto agora no  esse.
        Me desculpei e ele continuou a falar:
        O tempo foi passando, e como nunca tive coragem de pedir a ela que tambm desse um trato nesses novos lugares do meu corpo, a nossa relao foi caindo, caindo, 
at que um dia percebi que estar com ela na cama j no representava muito. Mesmo gostando da Beatriz, resolvi terminar o namoro. Pode parecer estranho, mas pela 
privacidade escolhi um motel para falar com ela. E olha que foi difcil, Marcus. Ela comeou a chorar e a dizer que queria saber quem era a outra mulher, e como 
eu no tinha o que explicar, fui ficando cada vez mais nervoso, at que, no meio da discusso, disse a ela que no tinha certeza dos meus sentimentos como homem. 
Ao dizer isso, confesso que esperei dela a reao mais negativa possvel, mas foi o contrrio, cara.
        O que ela fez?
        Foi a que pude perceber como ela gostava de mim. Me abraando ela repetia que me amava e me aceitava de qualquer jeito.
        E voc?
        Acabei com o namoro assim mesmo. No seria honesto da minha parte manter uma relao em que j no havia emoo nenhum.
        Mas vocs continuaram indo para cama, Renato.
        A Beatriz  uma garota interessante, Marcus. Voc acredita que ela nunca perguntou o que eu realmente sentia? Sem contar que ns nunca mais falamos sobre 
aquela conversa no motel.  como se tudo aquilo nunca tivesse existido.
        Acendendo um cigarro, ele continuou:
        Uma semana depois, ela me ligou e acabamos saindo. Fomos a um barzinho, e de l, j com duas doses de usque na cabea, esticamos para um motel. Ela escureceu 
o quarto e disse que iria me fazer uma massagem. At a, nada de novo, se no fosse pelo fato de ela insistentemente manter as suas mos deslizando sobre a minha 
bunda. Ela me fez viajar, cara.
        E voc vai me fazer morrer de fome, Renato.
        Eu pensei que voc quisesse conhecer a histria toda!
        E quero. Mas no agora. Vamos pedir alguns lanches primeiro?
        Fechado. Que tal dois churrascos com queijo para cada um?
        At os lanches chegarem, decidimos tomar um banho super-rpido, j que a fome naquele momento era maior do que qualquer coisa. Com toalhas enroladas na cintura 
e sentados na cama um de frente para o outro, comeamos a comer. Renato literalmente descarregava ketchup no lanche, quando eu falei:
        Por que voc disse que a Beatriz sente prazer em fazer 'aquelas coisas', Renato?
        Voc sente quando uma pessoa est gostando de fazer alguma coisa.
        Voc tem razo Mas o que vocs faziam?
        Parando de comer e olhando para mim, ele perguntou:
        Por que voc est to interessado, Marcus?
        Eu no estou to interessado assim Mas  que por ela ser mulher Eu tenho curiosidades em saber o que rolou.
        H, h.
         srio, Renato.
        Imagine a cena, Marcus: Eu deitado de bruos e a Beatriz me lambendo atrs e se masturbando ao mesmo tempo.
        Aquilo era excitante demais. Me imaginei deitado de bruos na cama, sendo chupado atrs pela Beatriz.
        Fale mais, Renato! Detalhes, detalhes.
        Percebendo meu entusiasmo, Renato puxou a toalha da minha cintura. Sorrindo, ele se jogou em cima de mim, me fazendo deitar na cama e disse:
        Que mente suja, Marcus!
        Voc est me apertando muito, Renato.
        No muda de assunto, Marcus.
        Eu no tenho culpa de que essa histria me deixou excitado.
        Ele tentava ficar srio, mas no conseguia.
        E o nosso amor, Marcus?
        Isso no tem nada a ver com amor, Renato. Alis se voc quiser saber, at cachorro transando na rua me excita.
        Rimos.
        Tudo bem, Marcus. Pelo seu descanso voc ser torturado.
        Isso no, Renato. Eu sinto ccegas demais embaixo do brao.
        Ele sabia que eu quase no agentava sentir a sua lngua passando lentamente sobre as minhas axilas. Ele adora fazer isso e eu sinto um misto de prazer e 
ccegas ao mesmo tempo.
        Preparado, Marcus?
        No, Renato. No, no, no
        Deitado sobre mim e mantendo minhas mos presas, ele comeou. Dei vrias voltas ao mundo em apenas um segundo e, no mais agentando de teso, gozei com 
tudo, de tanto que ele me apertava com o seu corpo.
        Sorrindo, Renato disse:
        Valeu, Marcus?
        Muito
        Em meio  pedaos de po, ketchup e queijo, eu continuava deitado.
        Voc vai dormir, Marcus?
        H, h.
        Ele me havia feito gozar com uma intensidade. Juntando isso ao cansao da viagem, eu queria mais era ficar largado. Acho que se o mundo acabasse naquele 
momento, eu no seria capaz de me levantar da cama.
        Voc no quer deitar na outra cama, Marcus?
        No
        Pegando um pedao de lanche que estava debaixo da minha coxa esquerda, ele disse:
        Voc viu a sujeira onde voc est deitado? Por isso que eu falei para voc mudar de cama.
        No
        T legal, Marcus. Durma ai mesmo, que eu vou fumar um cigarro na varanda.
        No vai no, Renato.
        J deitado de lado na cama, fiz com que se deitasse com a cabea um pouco abaixo da minha cintura. E assim eu adormeci do jeito que eu mais gostava: com 
o meu pau - mesmo mole e todo sujo de porra - encostado no seu rosto.

Captulo 13

        Quando acordei era noite. Me levantei da cama e fui acender a luz do quarto, j que a nica luz acesa era a de um abajur muito pequeno que quase no iluminava 
nada. Tanto eu quanto o lenol estvamos muito sujos de ketchup e mostarda, sem contar as sobras de po, carne, queijo e latinhas vazias de cerveja que se espalhavam 
pela cama e pelo cho. Estava sozinho e, antes de ir tomar banho, ainda procurei algum bilhete deixado pelo Renato. Como no encontrei nada, fui para o banho. No 
fazia dez minutos que eu estava debaixo do chuveiro quando a campainha tocou. Inutilmente gritei que a porta no estava trancada, mas acho que no dava para Renato 
ouvir. Ainda ensaboado e puto da vida fui atender  porta:
        Voc  foda, Rena Beatriz!
        Pedi a ela que entrasse e voltei correndo para o banheiro. Apesar de ter feito o 'tipo envergonhado', na verdade eu gostei muito de ela ter me visto nu.
        Terminei meu banho e de short fui para o quarto.
        Tudo bem, Beatriz?
        Tudo bem, Marcus.
        Desculpe ter atendido a porta daquele jeito. Eu pensei que fosse o Renato.
        No se preocupe no, Marcus. Alis, voc deixa pra l.
        Pode falar, Beatriz.
        Eu ia dizer que voc tem um corpo muito bonito.
        Sem saber o que responder, disse um solene 'obrigado' e a convidei para tomar cerveja na varanda.
        Aceito, Marcus. Mas voc vai deixar o quarto desse jeito?
        Realmente o quarto parecia um chiqueiro. Uma das camas, ento, dava at nojo de olhar. Alm de toda a sujeira, nossas mochilas ainda estavam abertas no cho, 
dando uma certa impresso de maloca. Por sugesto dela, liguei para a recepo e pedi que viessem trocar os lenis e dessem uma ordem no quarto. Antes de irmos 
para a varanda, deixei a porta aberta para que o pessoal da limpeza pudesse entrar sem nos incomodar.
        Estava claro para mim que no deveria me imaginar transando com a Beatriz. Mas eu no consegui deixar de pensar nisso. De uma forma meio animal, ela me atraa. 
Se o Renato soubesse dos meus pensamentos, com certeza ele no entenderia que foram as histrias dele com ela que me deixaram com esse desejo estranho. E isso com 
certeza no tem nada a ver com o amor que sinto por ele.
        Eu vou voltar para So Paulo amanh, Marcus. E vim at aqui para me despedir de vocs.
        Eu acho que entendo o que voc deve estar sentindo, Beatriz. S que esse tipo de assunto entre a gente  muito difcil. Eu sou suspeito para lhe dizer qualquer 
coisa.
        Eu sei o que voc quer dizer, Marcus. Numa situao normal, ns nem estaramos conversando.
        A campainha tocou e eu comentei com ela:
        Isso porque eu avisei a recepo que o pessoal da limpeza poderia entrar direto. Vou atender a porta e j volto, Beatriz.
        Quando voltei, ela estava de p encostada na grade, olhando para o mar. Sem ser percebido, fui me aproximando dela e, por trs, quase encostando o meu corpo 
no seu, coloquei as duas mos na sua cintura. Aceitando o meu gesto, ela encostou todo seu corpo no meu e disse que estava se sentindo muito frgil. Apesar de eu 
mesmo ter provocado aquilo, ns no poderamos ficar naquela posio por muito tempo, pois logo eu ficaria excitado e, com receio de que Renato entrasse a qualquer 
momento, fiz com que voltssemos a nos sentar.
        Voc no deve estar entendendo nada, no , Beatriz?
        Acendendo um cigarro, ela disse:
        Tem coisas, Marcus, que  melhor no entender. Isso eu aprendi com o Renato.
        Nesse momento ouvimos a porta do quarto se abrindo. Era o Renato. Antes de entrar na varanda, ele j foi dizendo:
        Faz tempo que voc acordou, Marcus?
        Da varanda, eu gritei:
        A Beatriz est aqui, Renato!
        Eles se cumprimentaram apenas com um 'oi' e Renato, forando espao, sentou-se comigo na mesma cadeira.
        A Beatriz veio se despedir da gente. Amanh ela estar voltando para So Paulo.
        Ele no falou nada e eu, para quebrar o silncio, disse:
        Aonde voc foi, Renato?
        Fui comprar um garrafa de tequila. Lembra-se do ltimo acampamento?
        Lgico que eu me lembro. Mas e o limo e o sal?
        O Ronaldo j me arrumou.
        Para que a Beatriz no se sentisse mais deslocada do que j estava, eu perguntei:
        Voc j tomou tequila com limo e sal?
        No, Marcus.  gostoso?
        Demais, Beatriz! E voc no vai embora sem saber o gosto que tem.
        Renato no gostou muito da minha sugesto. Porm, abrimos a garrafa e ns trs comeamos a beber.
        Msica, doses de tequila, cerveja e castanhas de caju foram tornando o ambiente mais leve. Literalmente altos, falvamos muita besteira e ramos demais. 
O lance todo comeou quando o Renato foi ao quarto buscar mais cervejas e pediu para que Beatriz o acompanhasse. Continuei na varanda, e como demoravam a voltar, 
resolvi ir at l. Quando entrei no quarto, Renato - sem camiseta - estava encostado no frigobar sendo acariciado e beijado no peito por ela. Com uma expresso muito 
sria no rosto, ele olhou para mim de um jeito que nunca tinha olhado antes e disse:
        Eu estava esperando voc, Marcus.
        No entendi direito o que ele quis dizer com isso, mas fui me aproximando deles. Para Beatriz, acho que pouco importava o que estava acontecendo, pois ela 
continuou a fazer carinhos nele, mesmo quando eu a abracei por trs. Esse 'sanduche' que fizemos com ela durou um bom tempo e quando fomos os trs para a cama, 
s Renato e eu estvamos de short.  Pelas minhas mos, Beatriz j estava completamente nua.
        Na cama, me lambuzei como um menino. Pela primeira vez curti estar transando com uma garota. Naquela cama no existiam masculino e feminino. Existiam, sim, 
trs pessoas se amando do jeito que a imaginao de cada uma podia. Eu estava abraado ao Renato e nos beijvamos, quando ela comeou a brincar comigo. Primeiro 
foi a sua lngua que deslizava suavemente pela minha bunda. Eu podia sentir, a cada toque, o seu enorme prazer me fazer isso. Interrompendo por alguns momentos o 
meu beijo com Renato, ela colocou os seus dedos na minha boca e me fez chup-los at ficarem bem molhados com a minha saliva. J imaginava o que ela iria fazer com 
eles. E ela fez. Lentamente ela foi enfiando um dedo dentro de mim. Ningum nunca tinha feito isso comigo, ainda mais uma mulher. Com teso e um pouco de dor continuei 
beijando Renato da forma mais profunda que conhecia. Beatriz no parou a e tentava colocar dois dedos dentro de mim, mas a dor que eu comeava a sentir era grande 
demais, e forcei uma mudana de posio, l deitado sobre ela, fui lentamente sentindo-a por dentro. Centmetro a centmetro eu conquistava aquele reguinho - j 
todo molhado e quase sem plos. Eu cavalgava sobre ela como um cavalo de raa, quando Renato deitou seu corpo sobre o meu. Desta vez eu era o recheio do sanduche. 
Eu a beijava e Renato dava pequenas mordidas no meu pescoo quando juntos gozamos os trs.
        Na manh seguinte, acordei por volta das dez horas. Eu estava com um gosto horrvel na boca. Na cama comigo estava apenas Renato. Me levantei sem fazer barulho, 
fui ao banheiro, enquanto mijava, senti um abrao por trs.
        Bom dia, gatinho.
        Bom dia, Beatriz. Onde voc estava?
        Na varanda admirando o dia.
        Eu estava nu e ela apenas de calcinha de suti. Me beijando o pescoo, ela disse:
        Vamos tomar banho?
Antes de responder pensei no que Renato acharia disso, mas entre ns ele era o que mais tinha bebido e com certeza no acordaria antes do meio-dia.
        Vamos, Beatriz. V abrindo o chuveiro enquanto eu escovo os dentes.
Venha escovar aqui no boxe, Marcus.
        Entrei no chuveiro escovando os dentes e, sem que eu pedisse nada, ela comeou a me ensaboar.
        Ontem voc quase me matou, Marcus.
        De teso?
        Tambm, mas eu estou falando de dor. O seu  muito grande e, alm de tudo  grosso.
        Confesso que me senti orgulhoso, mas no demonstrando importncia disse:
        No  to grosso assim.
        Comecei a ficar excitado ao sentir as suas mos ensaboadas a correr pelo meu corpo. Ela no sentia vergonha nenhuma. Mesmo sem tequila na cabea, ela passava 
a mo na minha bunda e no meu pau como se estivesse passando a mo no meu brao. Sem que eu esperasse, ela se abaixou e comeou a me chupar.
        Beatriz, v devagar que ele est muito sensvel, para no dizer dolorido.
        No demorou muito para eu gozasse, pois enquanto me chupava, um dos seus dedos 0 bem ensaboado - tentava me penetrar.
        Gozei com tudo na sua boca. E, ao contrrio do Renato, ela cuspiu tudo.
        Terminamos o banho e pedimos o caf da manh no quarto. Beatriz e eu ficamos no corredor esperando a moa trazer o caf. Ns no queramos que a campainha 
tocasse, pois poderia acordar o Renato.
        Fomos tomar o caf na varanda. Pensei como a vida nos traz surpresas. Nunca iria me imaginar tomando caf da manh numa pousada, no ltimo dia do ano, com 
a Beatriz.
        Posso perguntar uma coisa pessoal, Marcus?
        Pode.
        Tem certeza?
        Claro que tenho, pode perguntar, Beatriz.
        Entre vocs, voc  o homem?
        Fiquei visivelmente envergonhado. Ela continuou:
        Voc disse que eu podia perguntar, Marcus. Se voc quiser, no precisa responder.
        Entre mim e o Renato no existe essa diviso de homem e mulher. Por que voc perguntou isso?
        Ela ficou envergonhada.
         que
        Fala, Beatriz.
         que atrs, voc  virgem.
        Comecei a rir.
        Sabe o que  Beatriz, ns nunca tivemos essa necessidade. Agora se um dia pintar sei l.
        Ela acendia um cigarro quando ouvimos o barulho do chuveiro. Era o Renato.
        Vou ligar para a copa, Marcus, e pedir mais um bule com caf quente. Este j est frio. Voc no quer ir pegando mais uma cadeira no quarto?
        Pego, Beatriz.
        Quase uma hora depois, Renato saiu do banheiro.
        Bom dia!
        Ele estava apenas de cueca e nos cumprimentou com um beijo.
        Faz tempo que vocs acordaram?
Eu respondi:
        No. Acordamos quase agora.
        Colocando a sua cadeira quase de frente para a minha, ele esticou as pernas e ps os ps sobre o meu colo, instintivamente comecei a massage-los, e s no 
os beijei porque a Beatriz estava l.
        Se servindo de um suco de laranja, Renato disse a ela:
        A que horas voc pretende pegar a estrada para So Paulo, Beatriz?
        Daqui a pouco, Renato. Eu s estava esperando voc acordar para me despedir.
        Eu s estou perguntando, porque Marcus e eu temos um compromisso.
        Tentando demonstrar naturalidade e j se levantando da cadeira, Beatriz comeou a se despedir da gente na varanda mesmo. Foi uma despedida muito rpida e 
sem-graa, tanto que nem para acompanh-la at a porta do apartamento eu tive tempo.
        Ao ouvir o barulho da porta se fechando, eu disse:
        Voc foi muito grosseiro com ela, Renato.
        Eu s fiz o que precisava ser feito.
        Renato voc nem considerou o que rolou na noite de ontem, cara.
        Aproximando-se de mim, ele disse:
        Marcus, se eu no tivesse agido dessa forma, ela simplesmente no iria embora. No se esquea de que eu a conheo h muito tempo, cara.
        Voc tem razo. Alm do mais ela no faz parte da nossa vida.
         isso a, cara. Considere a noite de ontem como uma aventura a trs que j acabou. Vamos dar um giro pela praia?

Captulo 14

        Sempre gostei de andar pela praia. Pisar na areia e poder admirar o pr-do-sol me fazem muito bem. Daquela vez ento, era melhor ainda, pois ao meu lado 
- fazendo bem ao corao - caminhava a pessoa mais bonita do mundo: o meu namorado. Por vezes controlei meu impulso para no abra-lo e no resto desse desejo fiquei 
apenas com escassas aproximaes do corpo, naturais entre dois amigos.
        Tomvamos caipirinha de vodca com kiwi  mesa de um barzinho da praia, quando Renato disse:
        Olhando esse mar todo, sabe do que eu tenho vontade?
        De nadar, Renato.
        Como voc  inteligente, Marcus! A sua sensibilidade  demais cara.
        Rimos e ele continuou a falar.
        A vontade que eu tenho  de ficar aqui com voc para sempre, cara.
        Eu topo, Renato!
        Como 'Eu topo', Marcus? Acho que voc j tomou caipirinha demais.
         srio, Renato! Por voc eu largo tudo.
        Me sentindo beijado pelo seu olhar, eu disse:
        Estar aqui com voc me faz sentir uma pessoa um milho de vezes melhor. Se no fosse a nossa coragem de enfrentar todas as situaes, nossos sentimentos 
ainda estariam sufocados pela mediocridade das pessoas. Hoje, Renato, eu me sinto vivo!
        Oferecendo-lhe caipirinha, falei:
        'Coragem'- se no fosse por ela, eu ainda seria um infeliz na vida e passaria os dias me lamentando por no poder ser verdadeiro comigo mesmo.
        Antes que ele pudesse acender um cigarro, eu disse:
        Vamos ver quem chega primeiro na gua?
        Mas ns estamos de calo, Marcus.
        E da? Estamos de short.
        Perdi a corrida, mas cheguei na gua me sentindo um vencedor na vida. Num mergulho, emergi por detrs dele e, com tudo, o empurrei para dentro da gua. Entre 
abraos apertados e empurres, brincamos como dois meninos podem brincar. Se a felicidade pudesse ser medida em aura, a minha com certeza, disputando o sol, iluminaria 
toda a praia.
        Jogados na areia - lado a lado - espervamos que a respirao voltasse ao normal, quando Renato disse:
        O que desceu em voc? O Esprito Santo?
        Quase isso! Eu estou me sentindo bem pra caralho!
        Sorrindo ele disse:
        Tentar me derrubar na gua te deixa feliz, Marcus?
        Comecei a rir.
        Voc nunca vai saber como  bom estar com voc, cara!
        Sabe o que eu acho, Marcus? Aqui nesta praia deve ter algum cabo eltrico enterrado e sem querer voc pisou nele.
        Ns dois rimos muito e, tentando ser potico, com seriedade, falei:
        Eu acho que fui atingido pelo esprito de Natal.
        Mas o Natal j passou. Hoje  o ltimo dia do ano, Marcus!
        E da? Esprito  esprito.
        No conseguamos olhar um para a cara do outro, que comevamos a rir da besteira que eu tinha dito. De qualquer forma, sa da praia me sentindo um rei.
        J na pousada, havamos apostado quem chegaria primeiro ao banheiro. Estava vencendo - na frente dele consegui passar pela porta do apartamento. Correndo, 
bati com o dedinho do meu p no p da cama. A dor foi horrvel. Impulsivamente me atirei sobre a cama, e l me contorcia, enquanto ele - da porta - no parava de 
rir. Ofendido ao extremo com os risos dele, comecei a xing-lo com todos os palavres que conhecia. Renato tentava se defender:
        Marcus, me desculpe
        Mais risos.
        Marcus, me desculpe, mas a cena foi muito engraada!
         errado rir de uma pessoa que sofre Renato.
        Aproximando-se de mim, ele disse:
        Me deixe ver o estrago que voc fez.
        Tentando segurar o riso, Renato falou:
        No foi nada, Marcus.  s um cortinho.
        Quando o vi se aproximar com um anti-sptico em spray e um Band-Aid, disse:
        Voc no vai espirrar isso no meu dedo.
        Mas  preciso, Marcus. O seu p est todo sujo de areia, cara.
        Isso deve arder Renato.
        Deixe de ser covarde, Marcus.
        No voc no vai pr.
        De banho tomado e com o anti-sptico no dedo, fomos para a varanda descansar. Com as cadeiras inclinadas e bebendo cerveja, ns estvamos conversando quando 
o telefone tocou. Renato atendeu:
        Al! Oi, dona Ana, aqui  o Renato. Tudo bem com a senhora?
No sei o que tanto minha me falava pois eles ficaram ao telefone por quase cinco minutos. Renato dizia h, h e pode deixar.
        Um abrao para a senhora tambm. Vou passar a ligao para o Marcus. Um beijo.
        Oi, me!  o Marcus.
        Pelo tom de sua voz dava para perceber que l em Jundia estava tudo bem. Ela disse que meus avs aceitaram a minha ausncia numa boa e que meu av quebraria 
- na passagem de ano - cinco pratos em meu nome. Sugeri a ela que fossem quebrados cem. Comeamos a rir. Realmente minha me estava com um bom astral, tanto que, 
aps eu Ter desejado uma tima passagem de ano, fui surpreendido por ela:
        Um beijo para voc tambm, meu filho. E nunca, nunca se esquea de que a mame te ama acima de tudo!
        Eu
        Marcus? Voc ainda est a? Marcus?
        Eu tambm te amo muito me.
        Apesar de nunca ter tido dvida desse amor, foi a primeira vez em que ouvi minha me dizer que me amava. E isso foi o que me deixou muito emocionado. Quando 
desliguei o telefone, Renato estava trocando o meu band-aid que havia se molhado com o banho e antes de colocar o novo curativo, ele beijou vrias vezes o meu dedo.
        Por que voc no falou com o seu pai, Marcus?
        Ele havia sado com meu av. Foram buscar mais vinho.
        Renato, o que tanto minha me te falou?
        Por qu? Voc est com cimes?
        Lgico que no.  que voc s respondia: h, h e pode deixar.
        Abrindo mais uma latinha de cerveja e debruando-se sobre mim, ele disse:
      Ela pediu para que eu cuidasse bem de voc.
        Srio? O que ela pediu a voc?
        A cada situao sugerida pela minha me, ele me dava um beijo:
        Entre outras coisas, para que voc no beba demais No pegue friagem No ande descalo em cho gelado E que eu no o deixe dormir sem camiseta, j que 
voc se descobre muito  noite
        A melhor coisa do mundo era poder amar e ser amado por algum. Sentir isso era como ganhar um presente de Deus a cada minuto. Como fazia bem ao corao poder 
dividir com o Renato desde as coisas mais importantes at as mais simples da vida. Adormeci na cadeira da varanda com o gosto do seu beijo na boca.
        Com beijos no pescoo e no rosto, Renato tentava me acordar. A princpio, como num sonho, sua voz me chamando parecia bem distante. Ainda sem abrir os olhos, 
tentei me espreguiar e desisti quando senti a sua boca debaixo do meu brao:
        A no, Renato. Eu tenho ccegas
        Ento acorde, alemozinho, j so quase onze horas da noite.
        Dormi tanto assim?
        Ele havia tomado banho e j estava vestido - todo de branco - para a passagem de ano.
        Eu j separei a sua roupa, Marcus. Agora s falta o banho.
        Renato foi comigo at o banheiro e abriu o chuveiro - regulando a temperatura da gua - para mim.
        Pronto, Marcus! Enquanto voc toma banho, vou para o quarto esperar a nossa ceia chegar.
        Quando entrei na varanda j estava tudo pronto. O pessoal da pousada havia caprichado na mesa. O charme todo ficava com a toalha na cor vinho e o carrinho 
todo em madeira, que - alm de algumas frutas - tinha na parte superior uma garrafa de champanhe importado, num balde de gelo, de prata.
        Gostou, Marcus?
        Muito bonito. Depois precisamos agradecer ao Ronaldo.
        Voc no acha que pediu comida demais, Marcus?
        Com a fome que estou, acho que no.
        Comecei a rir.
        Voc tem razo, Renato. Mas esse exagero  por conta da pousada. Tudo bem que eu pedi vrios pratos, mas tudo em pequena quantidade.
        Era mentira. Sem me preocupar com quantidade, eu havia pedido por um pedao de pernil, arroz branco preparado com uva passa, pimento com alixe - um dos 
meus pratos prediletos -, salada completa e muitas frutas. Para beber, quarto garrafas de champanhe importado.
        S veio uma garrafa de champanhe, Renato?
        No, vieram quarto. As outras esto no frigobar.
        Renato abria o champanhe quando, como um flash, minha memria foi buscar a imagem do meu segundo av, j falecido; o vov Dulio. Apesar da minha pouca idade 
na poca - ele partiu quando eu tinha doze anos -, vov foi uma das melhores pessoas que conheci na vida. Foi com o seu incentivo - ele foi o meu primeiro torcedor 
- que eu aprendi a nadar e a jogar tnis, entre tantas outras coisas. O vov dizia que a vida era curta demais e por isso era importante sempre Ter um objetivo, 
fosse ele qual fosse. Na poca, eu no entendia direito o significado disso, mas uma frase dele nunca ficou esquecida: A vida  to rpida como um relmpago, aproveite-a.
        Minhas esperanas foram interrompidas com o Renato me oferecendo uma taa de champanhe.
        Um brinde ao loirinho mais bonito e gostoso do planeta!
        Com as suas mos na minha cintura e ao som de Surfer girl, comeamos a danar. Ns nunca havamos feito isso antes e meu corao, em resposta ao tamanho 
da emoo que eu sentia, batia cada vez mais forte. Fogos incendiavam o cu e seus beijos me incendiavam a alma. O novo ano chegou, e com ele veio um par de alianas 
muito bem transado. Danando ao som de msicas do passado, fui sendo despido lentamente, at ficar completamente nu. Suas mos corriam pelo meu corpo e me apertavam 
cada vez mais, numa dana quase parada. Banhado com taas de champanhe derramadas no ombro, me deixei conduzir pelos seus desejos. Cada parte do meu corpo pde sentir 
o calor da sua lngua em contraste com o frio da bebida. De costas para ele e sentado no seu colo, eu levava pequenas mordidas no pescoo enquanto, com a sua mo 
esquerda, ele me masturbava. Gozei com tudo e senti o gosto do meu prprio esperma, que pelos seus dedos foi levado  minha boca.
        Voc  muito louco, sabia?
        S eu, Marcus?
        Sorrimos e nos beijamos.
        E essa comida toda, Marcus. Vamos encarar?
        Voc no quer que eu faa voc gozar primeiro?
        Voc j fez, Marcus.
        Quando?
        Danando, cara.
        Srio, Renato?
        Srio. Olha a minha cala toda melada.
        Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele insistiu:
        E ento, Marcus? Vamos encarar essa comida fria?
        No precisa falar duas vezes.
        Tudo foi perfeito naquela coisa, at as imperfeies. Meu corao hesitava em pensar que logo teramos de voltar a So Paulo e, passando por cima de tudo 
isso, me fazia acreditar que aqueles momentos seriam eternos. A aliana de prata na minha mo direita, com o nome dele gravado, representava mais do que um compromisso: 
era a realizao de um sonho.
        Renato, porque de prata?
         diferente  jovem  atraente como algum que conheo

Captulo 15

        A viagem de volta foi muito cansativa. Pegamos um congestionamento que atrasou em duas horas a nossa chegada a So Paulo. Pelo adiantado da hora, Renato 
me deixou em casa e nem entrou para cumprimentar os meus pais. Estava abrindo o porto de casa, quando eles saram:
        Filho!
        Oi, mo; oi, pai.
        Nos abravamos quando meu pai perguntou:
        E o Renato? Por que no entrou?
         tarde, pai. Amanh, quando ele trouxer o carro, vocs se cumprimentam.
        Natural de quem chega cansado de uma viagem, me joguei no sof enquanto meu pai recebia a pizza que j haviam pedido. Estvamos to descontrados que minha 
me nem reclamou quando ele sugeriu que comssemos na sala mesmo. J equilibrando o prato sobre as pernas, meu pai falou:
        E a, filho? Fale da viagem.
        Foi tima, pai.
        Sem Ter como detalhar os meus melhores momentos - iria choc-los - acabei por transferir a conversa para o lado deles. Minha me, desconsiderando que nada 
era novo para mim, comeava a falar com grande entusiasmo at perceber a aliana de prata na meu dedo.
        Voc est usando anel, filho?
         uma aliana, me. Ela simboliza um compromisso.
        Tentando quebrar o silncio que veio a seguir, falei:
        Tudo bem, pai? Tudo bem, me?
        Tomando a iniciativa, meu pai respondeu:
        Tudo bem, filho.  que sua me e eu ficamos um pouco sem-graa. Esse
        Interrompendo-o, minha me perguntou:
        Esse compromisso representa exatamente o qu, Marcus? Um noivado?
        H, h.
        Incrivelmente calmo, meu pai disse:
        Independentemente de qualquer outra coisa, voc no acha que ainda  muito cedo para pensar nisso, Marcus?
        Acho que no pai. Em dois meses estarei fazendo dezessete anos e 
        Sentando-se ao meu lado e bem tranqila, minha me nem esperou que eu terminasse de falar e disse:
        Voc est pensando em no fazer faculdade, filho?
        Lgico que no, me. Os meus planos para o futuro no diminuram, s cresceram.
        Olhares interrogativos me fizeram explicar melhor:
        Apesar de essa conversa ter comeado sem querer, eu iria falar com vocs sobre os meus planos para o futuro. Renato tambm j deve estar falando com os pais 
dele. Foi por isso que ele no entrou, pai.
        Demonstrando preocupao, meu pai perguntou:
        O que vocs decidiram de to urgente, Marcus?
        No, no  nada urgente, pai. O que ns decidimos nessa viagem deve acontecer s daqui a um ano.
        Antecipando-se a mim, minha me disse:
        Vocs pretendem morar juntos?
        Terminando o colegial, sim. Mas no se preocupem, pois tudo ser feito com muita discrio. Para parentes e amigos, seremos apenas dois estudantes - fazendo 
faculdade - que moram juntos.
        Me servi de um pouco de Coca-Cola antes de continuar a falar:
        O que eu gostaria de saber  se posso contar com o apoio de vocs. Ns faramos a faculdade  noite e trabalharamos durante o dia. Mas, mesmo assim, acredito 
que os salrios no seriam suficientes para vivermos bem.
        Depois de um breve silncio, meu pai disse:
        Voc sabe que tudo isso  muito difcil para sua me e para mim, mas com certeza ns nunca daramos as costas para voc, meu filho.
        Obrigado, pai.
        Na verdade, o objetivo daquela conversa no era o de pedir apoio e sim prepar-los para uma situao que acontecia antes do prximo Natal. Acredito que s 
no falamos mais, porque na cabea dos meus pais um ano  muito tempo.
        Mais um pedao de calabresa, filho?
        Quero sim, me.
        No dia seguinte, acordei com a campainha tocando insistentemente. Imaginando ser Renato, desci rapidamente para atender a porta. O olho mgico mostrou-me 
Beatriz.
        Apenas com um palmo da porta aberta e com o meu corpo por detrs dela, a atendi:
        No esperava sua visita to cedo. Tudo bem?
        Tudo bem, gatinho. Posso entrar?
        Claro que pode, mas me d alguns minutos para colocar um short. Eu estou apenas de cueca.
        Por mim nem precisa, Marcus.
        Fiz Beatriz esperar na sala, enquanto subi para lavar o rosto, escovar os dentes e colocar um short.
        Bom dia, Beatriz.
        Ganhei um beijo no rosto.
        Voc me acompanha no caf da manh?
        Fomos para a cozinha. O relgio da parede marcava dez horas em ponto e por um bilhete deixado na mesa, meu pai estava na editora e minha me fazendo compras 
no mercado.
        Eu no esperava voc to rapidamente, Beatriz, est tudo bem mesmo?
        Sim e no, Marcus. Eu gostaria de falar sobre o que aconteceu na pousada.
        Ento fale, o que est incomodando voc?
        Sabe o que , Marcus, eu no gostaria que voc pensasse algo errado de mim. Nunca havia feito o que fiz naquela noite. Foi a primeira vez que estive com 
dois homens e, voc sabe, sou apaixonada pelo Renato. Eu
Ela no parava de se justificar e confesso que mesmo fugindo prestar ateno, eu estava mais preocupado com os meus pensamentos. Apesar de ainda me sentir atrado 
por ela, com certeza mais nada poderia rolar entre a gente.
        Servindo-lhe uma xcara de caf, voltamos para a sala e, sentados no sof maior, fiz com que ela parasse de se explicar:
        Voc est preocupada  toa. Se eu tivesse que pensar algo errado a seu respeito, ento o que voc pensaria sobre mim?
        Sabe o que , Marcus, eu me sinto muito sozinha. Voc ainda pode dividir com o Renato todos os seus sonhos e sentimentos. E eu?
        Ela comeou a chorar.
        Beatriz, pra com isso.
        Abraado por ela, e sem saber o que fazer, comecei a passar a mo nos seus cabelos.
        Eu estou confusa, Marcus.
        Chorar no vai adiantar nada, Beatriz. Vamos conversar.
        Naquela noite, Marcus com a desculpa de pegarmos mais cervejas no frigobar, o Renato me ofereceu a voc e no dia seguinte praticamente me me expulsou 
do apartamento.
        Suas palavras me atingiram como um raio. Com certeza toda a culpa era minha. Enxugando as lgrimas do seu rosto e olhando-a de frente, eu disse:
        Beatriz, eu te peo desculpas. Tudo o que aconteceu foi minha culpa.
        Voc no teve culpa de nada, Marcus.
        Tive sim. Naquela noite desejei transar com voc e o Renato percebeu isso. Voc me perdoa por eu Ter passado por cima dos seus sentimentos?
        Voc no precisa do meu perdo.
        Um beijo roubado.
        Voc  a parte boa de toda essa histria, Marcus.
        Confuso, me deixei levar por um beijo carregado de emoes.
        Eu quero voc, Marcus.
        Beatriz eu no posso
        Eu quero sentir voc, Marcus
        No no, Beatriz. Eu eu no posso
        Forando--me a deitar no sof e jogando o seu corpo sobre o meu num desejo quase incontrolvel, ela me dava pequenas e curtas mordidas no peito.
        Beatriz pare. Eu no posso.
        Eu quero sentir voc s mais uma vez, Marcus.
        Pelas suas mos, meu short e cueca foram puxados at os joelhos e num movimento rpido e brusco, Beatriz sentado-se sobre mim, fez-se penetrada. Sem calcinha, 
mas ainda de vestido, ela mexia seu corpo de um jeito to especial, que me fez gozar em pouco tempo. Como a demonstrar vergonha por Ter forado tudo aquilo, ela 
me abraou e disse:
        Me desculpe, Marcus. Eu no tinha o direito.
        Esquea, Beatriz. Agora j fizemos.
        Voc no gostou de estar comigo, Marcus?
        Gostei. S que a gente no deve mais fazer isso.
        Levantando-se do sof e vestindo a calcinha, ela disse:
        Por qu, Marcus? Ns trs juntos viveramos muito bem.
        Colocando o short, eu pensava numa maneira suave de dizer a ela que no mximo poderamos ser amigos, quando ouvimos o barulho da porta se abrindo.
        Beatriz, que surpresa boa!
        Oi, dona Ana, tudo bem com a senhora?
        Tudo bem, e com voc, filha?
        Tambm est tudo bem.
        Por que voc no me falou que a Beatriz vinha almoar com a gente, Marcus? Eu teria preparado algo especial.
        Antes que eu pudesse responder, Beatriz disse:
        No vim para almoar, dona Ana.
        Ns fazemos questo de que voc almoce com a gente, no , Marcus?
        , me.
        Fui para o banho enquanto Beatriz auxiliava minha me na cozinha. No chuveiro, cheguei  concluso de que seria melhor no contar nada ao Renato do que havia 
acontecido entre mim e a Beatriz.
        Estvamos almoando quando Renato chegou. Respirei fundo antes de abrir a porta:
        Oi, Renato, tudo bem?
        Nos cumprimentamos com um rpido beijo na boca.
        Sentiu saudades, Marcus?
        Muitas, cara. E voc?
        Outro beijo.
        Ns estamos almoando. Voc quer almoar com a gente, Renato?
        Eu j almocei, mas fico com vocs na cozinha.
        Mais uma coisa, Renato. Tem uma amiga nossa almoando com a gente.
        Quem est a?
        Beatriz.
        O que ela veio fazer aqui?
        Sei l, apareceu. Tudo bem?
        Sem me responder, Renato foi at a cozinha cumpriment-las e, ao contrrio do que havia dito, ficou na sala assistindo  TV com cara de poucos amigos.
        Voc quer mais polpeta, Beatriz?
        No, dona Ana, obrigada. Eu estou de regime.
        Com este corpo maravilhoso, voc no precisa de regime. No  Marcus?
        Hum, hum.
Contrariando a vontade de minha me, Beatriz foi embora to logo o almoo terminou. Renato e eu fomos para o barraco nos fundos da minha casa para conversar, enquanto 
minha me arrumava a cozinha.
        Eu no estou gostando dessa histria, Marcus.
        Mas que culpa eu tenho, Renato?
        Desse um gelo na garota. Mas no, ainda a convida para almoar.
        Eu no a convidei, Renato! Foi minha me.
        Voc estava muito gentil com a Beatriz. Ela vem te visitar, bater papo, almoar e sei l mais o qu!
        Comecei a rir.
        Voc est rindo do qu, cara?
        Estou rindo do seu cime, Renato. Acho legal.
        Deixa de ser criana, Marcus, eu no estou com cime nenhum.
        Est sim, eu s quero descobrir se  de mim ou da Beatriz.
        Nervoso, ele me prensou contra a parede e disse:
        Voc est a fim de levar uma porrada?
        Respondi com um beijo. Ser prensado na parede por ele me deixava muito excitado. O beijo foi aceito e estvamos dando o maior malho quando - da porta da 
cozinha - minha me me chamou:
        Marcus? Marcus?
        Excitado demais para sair do barraco, pela janela mesmo respondi:
        Fala, me.
        Eu vou subir para descansar um pouco. Se vocs tiverem com sede, tem suco de laranja na geladeira.
        T legal, me.
        Outra coisa, Marcus, caso a Ldia telefone, diga a ela que  noite eu ligo.
        T ok, me.
        Eu falei a voc sobre o jantar beneficente que estamos organizando, Marcus?
        Estava difcil prestar ateno no que minha me dizia, pois enquanto ns conversvamos, Renato, agachado  minha frente, me chupava e se masturbava ao mesmo 
tempo.
        Depois a senhora me fala, me.
        Voc est passando bem, filho? Voc est suando!
         o calor, me.
        Por que vocs no vm para a sala?
        Daqui a pouco ns iremos.
        Ah, e no se esquea de devolver as fitas de vdeo na locadora, Marcus.
        Senti Renato esporrando na minha perna.
        Pode deixar, me.
        Quando fechei a janela, ele estava deitado no cho curtindo a sensao de aps gozo.
        Foi demais, Marcus!
        Eu que o diga.
        Me fazendo deitar ao seu lado, ele disse:
        Voc quer ficar com a Beatriz, Marcus?
        No! Claro que no!  Eu amo voc, Renato.
        Ento no deixe que ela interfira no nosso relacionamento.
        Nunca mais, Renato. Nunca mais.
        Muitos, muitos beijos fizeram com que a visita da Beatriz fosse um captulo esquecido.
        Agora eu vou fazer voc gozar, alemozinho.
        Eu no posso, Renato.
        Por qu?
       que ainda no faz duas horas que almocei. Pode dar congesto.
      De novo com esse papo, Marcus!
       verdade, cara. Para que o estmago possa fazer a digesto dos alimentos, ele necessita de muito mais sangue do que o normal,  por isso
      Pra, Marcus!
       srio, Renato. Deixa eu acabar de explicar.
      Passamos um bom tempo discutindo sobre sexo aps as refeies.

Captulo 16

              Em poucos meses, meus pais puderam finalmente perceber que o filho deles continuava sendo o mesmo garoto de sempre; que a minha nova opo sexual no 
havia me transformado em nenhum Frankenstein. Mesmo com toda a limitao que o meu mundo continha - vrias foram as vezes em que contornamos situaes um tanto quanto 
delicadas - , felicidade era um estado de esprito quase constante no meu dia-a-dia.
      Uma dessas situaes aconteceu no meu aniversrio de dezessete anos quando, a pedido de meus avs, foi feita uma grande festa na casa deles em Jundia. Por 
tradio de famlia - meu av acreditava nisso -, uma boa comemorao tinha que durar no mnimo trs dias. O que mais chamava a ateno neste tipo de festa  que, 
a certas horas da noite, os convidados - exceto parentes - iam embora para suas casas e voltavam no dia seguinte para prosseguir com a festa, e assim sucessivamente 
at acabar.
      Por um problema na editora, meu pai iria se atrasar e s poderamos seguir para Jundia s nove horas da noite. Eu curtia um CD do Caetano Veloso e minha me 
arrumava a cozinha quando a campainha tocou:        
      Deve ser o Renato. Eu atendo, me!
      Ele entrou rindo. Perguntei:
      O que foi?
      Voc no vai acreditar no que aconteceu. Parece at mentira.
      Respirou fundo:
      Lembra-se do meu tio Pedro?
      Tio Pedro?
      Aquele que tem o cotovelo alongado por causa da 'gota'.
      Ah, j sei quem .
      Ele est internado para tratamento. Os mdicos dizem que esse tipo de gota  rara e querem estudar melhor.
      E?
      Pelos remdios fortes que est tomando, s vezes ele no diz coisa com coisa. Para voc Ter uma idia, outro dia pediu  enfermeira que fosse buscar a carruagem 
que havia comprado na noite anterior.
      E?
      Pare de falar 'e', Marcus.
       que at agora no achei nada engraado.
      Mas no  mesmo. Posso continuar?
      Desculpe!
      Na Segunda-feira, trs tios foram visit-lo. Eles pertencem  parte pr-histrica da famlia. O tio Alfredo com quase noventa anos; o tio Paulo com seus oitenta 
e tantos e a tia Carlota, que  a mais nova deles, beirando a casa dos oitenta
      Renato comeou a rir.
      Conta logo!
      Da porta da cozinha, minha me tambm ouvia a histria.
      Os trs entraram no quarto e quando se aproximaram da cama, o tio Pedro comeou a gritar: 'Fujam! Fujam! Tem um ladro escondido no quarto. Fujam!'
      Mais risos.
      Conta logo, Renato!
      Voc no vai acreditar no que os trs fizeram! Pensando ser verdade, eles dispararam corredor afora. Minha tia corria com os braos erguidos e gritava por 
socorro. Quando a enfermeira os viu sarem correndo do quarto de meu tio, perguntou o que havia acontecido. Minha tia, ainda aos gritos, dizia: 'Tem ladro no quarto! 
Valei-me Nossa Senhora!'
      Camos na risada. Minha me ria tanto que at se contorcia.
      Marcus! A enfermeira at sentou no cho de tanto rir.
      Mais risos.
      E tem mais, Marcus! Passada a correria, os trs tiveram que ser medicados. Tio Alfredo, o mais velho teve at que ficar na maca e saiu do hospital numa cadeira 
de rodas de tanto que as suas pernas tremiam.
      Mais risos.
      Imagine s o que a enfermeira deve estar pensando da nossa famlia.
      Enquanto meu pai no vinha, ficamos os trs durante quase duas horas relembrando e contando histrias engraadas. No fosse Renato ser homem e meu noive, seramos 
uma famlia perfeita. Por vezes, tive a ntida impresso de que, de alguma forma, a cena de ns trs conversando na sala j havia acontecido em outra poca. Isso 
 muito louco.
      Samos de casa s nove horas em ponto e nem bem entramos na via Anhangera, meu pai disse:
      No esqueam que, para os outros, vocs so apenas amigos.
      Conversar no carro  bom por isso. Meus pais no banco da frente e Renato e eu no de trs no nos sentimos envergonhados, j que ningum conseguia se olhar 
de frente.
      Pode deixar, pai. Ns no daremos nenhum fora.
      Renato continuou por mim:
       isso mesmo, senhor Giorgio. Pode ficar tranqilo.
      Na sada da via Anhangera,  minha me comentou que meu av j devia estar na calada nos esperando. Dito e feito: quando avistamos a casa, l estava o senhor 
Francesco.
      Meu pai ainda manobrava o carro para estacionar e meu av j reclamava:
      Como vocs demoraram! A festa comeou s sete horas.
      Minha me se explicando:
      Pai, Sexta-feira  um dia complicado para o Giorgio.  dia de fechamento de revista.
      Mas ele no  o diretor-geral?
      Por isso mesmo, pai.
      Virando-se para mim, e at mesmo antes de me dar os parabns, meu av disse:
      No trouxe a namorada, Marcus?
      Juro por Deus que tive vontade de responder a ele: E o senhor acha que Renato  o qu? Mas me contive e, abraando-o, disse:
      Os pais dela no a deixaram vir, v.
      Isso prova que ela  uma boa moa, no , Ana?
       sim, pai.
      Perguntar como essa j no me incomodavam mais, porm, para meus pais isso no era verdade: eles sempre coravam.
      A contar da hora em que desci do carro, s voltei a falar com o Renato muito tempo depois. A casa estava cheia de gente e, alm de meu av no desgrudar de 
mim, apresentou-me a todos os seus amigos. O pior de tudo  que cada um tinha uma histria diferente para contar.
      Quando consegui me livrar de todos, apanhei dois copos de ponche e sa  procura de Renato. Ele estava sozinho no canto de uma das salas e eu, j meio alto 
dos copos de vinho que havia tomado, no resisti e brinquei:
      Voc quer um copo de ponche, boa moa?
      Eu no posso, garoto, meu pai no deixa. Sou de famlia.
      Risos.
      E que tal um beijo, boa moa?
      Nem pensar garoto. Eu tenho nojo.
      Muitos, muitos risos.
      Voc est demais, Renato.
      Demais em qu?
      Em tudo, cara. Em tudo.
      Marcus? Renato?
      Oi, me.
      Vocs no acham que esto bebendo demais?
      Claro que no me, porque a senhora diz isso?
      Vocs no param de rir.
       felicidade, me.
      Sorrindo, ela disse:
      Seu av est procurando voc, Marcus.
      Mais risos.
      A quem ele vai me apresentar agora, me?
      No  isso, Marcus. Seu av quer voc na outra sala para cantar o Parabns a voc.
      Mas, me, o v est louco, eu vou fazer dezessete anos e no sete.
      Marcus!
      Aps reunir as pessoas, meu av comandou a msica de parabns, como se eu fosse uma criana, com direito a 'pic' e tudo mais. O bolo era enorme e minha av 
tinha feito o meu predileto, que era de chocolate com recheio de nozes e leite condensado.
      Passando a faca para as minhas mos, minha av disse:
      Agora o meu guaglione vai oferecer o primeiro pedao do bolo.
      Vov estava superentusiasmada, pois h muito tempo no me chamava de guaglione.
      Parti o primeiro pedao do bolo e, com ele j no pratinho, pedi silncio a todos na sala:
      Eu precisaria de vrios primeiros pedaos de bolo para oferecer s pessoas importantes na minha vida, mas como eu tenho que escolher apenas uma Eu
      Oferece logo!
      O primeiro pedao de bolo vai para
      A Ana desmaiou! A Ana desmaiou!
      Minha me havia desmaiado. A correria foi geral para socorr-la, mas de tanto que esfregaram lcool em seu nariz logo ela recobrou os sentidos. Com dificuldade 
- havia uma roda de pessoas  sua volta - consegui me aproximar do sof onde ela estava:
      Me! O que aconteceu?
      Vov respondeu por ela:
      No  nada, Marcus. Sua me deve Ter comido sardela demais. Depois ela fala com voc. Agora seu pai e eu a levaremos para descansar no quarto. Vamos, Giorgio!
      O que aconteceu com a sua me, Marcus?
      Ela desmaiou. Renato, mas est melhor.
      A festa continuou normalmente e acabei no oferecendo o primeiro pedao do bolo a ningum. Inconformado por no acompanhar minha me at o quarto, resolvi 
subir. Com algumas batidas suaves na porta, a chamei:
      Me? Me? Posso entrar?
      Pode, filho.
      Meu pai estava ao seu lado.
      A senhora est melhor?
      Estou, meu filho.
      Foi a sardella que fez mal  senhora?
      Meu pai respondeu por ela:
      No foi a sardella, Marcus. Posso fazer uma pergunta a voc?
      Claro, pai, o que ?
      Para quem voc ia oferecer o bolo?
      No estou entendendo, pai!
      Responda, filho. Para quem voc ia oferecer o bolo?
      Eu ia oferecer ao senhor. Por qu?
      Eles comearam a rir.
      Do que vocs esto rindo? No estou entendendo!
      Novamente meu pai tomou a frente.
      Sabe como , filho, voc fez tanto suspense para oferecer o primeiro pedao de bolo, que sua me - sabendo que voc havia bebido um pouco demais - imaginou 
que o primeiro pedao iria para o Renato.
      Me! A senhora desmaiou por causa disso?
      Puxando-0me para um abrao, meu pai disse:
      Sua mo no suportou a presso dessa possibilidade e desmaiou. Isso  mais comum do que voc pensa, Marcus.
      Me, eu jamais colocaria a senhora e o papai numa situao como essa!
      Nos abraamos os trs.
      A senhora me desculpa pelo suspense que criei, me?
      No pense mais nisso, meu filho. Eu  que fui muito boba em pensar que voc pudesse fazer isso na frente de todos.
      Beijei-a.
      Agora  melhor voc voltar para a festa, filho.
      Vocs no vo descer?
      Seu pai ainda vai.
      Voltando  festa, encontrei Renato num dos jardins externos da casa. Sentado no banco prximo s roseiras da minha av, parecia admirar o cu, quando em silncio 
me aproximei:
      No que voc est pensando?
        Marcus! Nem o vi chegar. A dona Ana est melhor?
        Sentei-me ao seu lado.
        Ela est bem. E voc por que est sozinho?
        A sua famlia  legal, mas eles gritam muito.
        Rimos.
        Renato? Que tal um delicioso pedao de bolo com muito chocolate?
        Voc ainda no comeu?
        No. Voc pegaria para mim?
        Pego, Marcus.
        Ponche tambm?
        Pego, Marcus!
        A felicidade que sentia era to intensa, que s vezes me deixava assustado. Sempre ouvia meus pais se referirem  felicidade como algo distante e sempre, 
sempre como alguma coisa do passado.
        Pronto, Marcus! Bolo de chocolate e ponche.
        Peguei apenas o copo.
        O bolo quero que voc me d na boca, Renato.
         perigoso, Marcus. Algum pode nos ver.
        No precisa se preocupar, ningum vem aqui.
        Naquele momento, uma certeza me veio  cabea: Deus jamais condenaria um amor to verdadeiro como o meu. Um sentimento puro como este, desprovido de qualquer 
preconceito, egosmo, inveja, nojo ou seja l o que mais no pode ser pecado. Deus teria que ser insensvel para me condenar ao inferno.
        Depois de comer o meu bolo predileto do melhor jeito possvel, subimos ao quarto para descansar. Renato nem quis tomar banho e, acomodando-se no colchonete, 
adormeceu quase que imediatamente. No sei se havia algo estratgico no quarto preparado pela minha me, mas algum dos trs colchonetes serem bem distantes entre 
si, no meio dormia o meu primo Daniel.
        Precisando muito de um banho, peguei meu pijama e fui para o banheiro. J me enxugava quando Daniel entrou.
        Oi, Marcus.
        Oi, Daniel. Ainda  muito cedo para levantar.
        Eu ainda no dormi.
        Achei estranha a resposta, pois quando eu e Renato entramos no quarto, ele estava dormindo.
        Posso te fazer uma pergunta, Marcus?
        Pode. O que ?
        O que rola entre voc e o Renato?
        No entendi, Daniel.
        Eu gostaria de saber o que rola entre vocs
        Imaginei que Daniel desconfiava de alguma coisa, mas me fiz de morto.
        Ns somo amigos, por qu?
        Amigos no fazem o que vocs fizeram, Marcus.
        Percebi que era srio. Respirei fundo e parei de me enxugar.
        No entendi, Daniel.
         muito estranho um homem ficar dando 'bolinho' na boca de outro homem. Voc no acha?
        Fiquei alguns segundos em silncio e, antes de dizer alguma coisa, fechei a porta do banheiro:
        Olha, Daniel, esse  um assunto muito srio e pessoal.
         o que estou pensando, no ?
        Enrolando a toalha na cintura, e sem olhar nos seus olhos, disse:
        J faz algum tempo que eu gosto do Renato, s que ningum sabe de nada e isso deve continuar assim.
        Silncio.
        E tem mais, Daniel, acho que a gente pode falar sobre isso mais tarde, ok?
        Ok, primo!
        Demorei mais de meia hora para voltar ao quarto quando entrei. Daniel dormia ou fingia estar. Ele representava um problema a ser resolvido com o amanhecer 
do dia.

Captulo 17

        Descemos para o caf da manh s onze horas. Quase todos os parentes ainda estavam  mesa, mas tomando caf s meus pais e Daniel. Entre queijos, salames 
e po italiano, a mesa da cozinha sempre foi e sempre ser o lugar escolhido pela minha famlia para colocar todos os assuntos em dia. Sentado  minha frente e demonstrando 
certa impacincia, Daniel me olhava de um jeito to diferente que era impossvel imaginar o que se passava pela sua cabea. Minha me me servia um copo de leite 
quente com acar, quando meu av perguntou:
        Qual o nome da sua namorada, Marcus?
        Nome de quem, v?
        Da sua namorada?
        Disse o primeiro que me veio  cabea.
        Beatriz, v.
        Por debaixo da mesa, levei um chute do Renato.
        Beatriz do qu, Marcus?
        Eu no sei, v.
        Ele ficou nervoso.
        Como  que no sabe! Voc nome uma menino e no sabe o sobrenome da famlia?
        Antes que pudesse responder, minha av entrou na conversa.
         lgico que no sabe, Francesco. A juventude de hoje  diferente. No seja antiquado!
        Pensando, ele ficou quieto por alguns minutos e perguntou:
        Ela  virgem, Marcus?
        Nem esforo de segurar uma gargalhada, me engasguei com um pedao de po. Enquanto me davam exagerados tapas nas costas para que o po descesse, vov j 
discutia com o meu av.
        Isso  pergunta que se faa. Francesco?
        Voc no me chamou de antiquado, Luiza? Ento fiz uma pergunta moderna e ele ainda no me respondeu.
         lgico que no respondeu. Voc viu que o menino est engasgado? Ele ficou chocado com a sua pergunta. Acho que o vinho subiu  cabea, Francesco. Onde 
j se viu fazer uma pergunta dessas a uma criana.
        Ele j  um homem, Luza. Ele fez aniversrio ontem.
        Ele ainda  uma criana!
        No , Luza!
        Pra de falar besteira, Francesco!
        Quando disfaradamente sa da cozinha - levando um sanduche de queijo provolone -, eles ainda discutiam; s que agora todos participavam do assunto.
        Fui para a varanda da frente da casa e em poucos minutos Renato chegou.
        Eu  trouxe o seu leite.
        Passando o copo para as minhas mos, ele disse:
        Tinha que ser Beatriz!
        Desculpe, Renato, mas foi o primeiro nome que me veio  cabea. Voc est muito chateado?
        No  isso, Marcus.  que
        Cortei suas palavras.
        J sei. Essa garota no deve participar em nada da nossa vida.
         isso mesmo. Esquea que ela existe.
        Renato, ns temos que definir um nove de garota para ocasies como esta. Que tal Renata?
        Em silncio, ele apenas me olhava.
        Deixa para l, Renato. No precisa responder. Voc quer um teco do meu lanche?
        Sorriso no seu rosto.
        Eu no consigo ficar bravo com voc, alemozinho.
        S no nos beijamos, porque poderamos ser vistos por algum, mas trocamos olhares bem pessoais.
        Vou comprar cigarros, Marcus. Voc vem comigo?
        Vou, deixe apenas eu acabar de tomar o leite.
        Mudei de idia quando Daniel entrou na varanda. Ns tnhamos um assunto pendente que no podia esperar.
        Se voc quiser ir comprar cigarros, Renato, tudo bem.
        Mesmo sem comentar nada com ele sobre a conversa que tive com o meu primo na noite passada. Renato logo percebeu que alguma coisa havia aconte4cido e, entendendo 
o meu toque, foi sozinho comprar cigarros.
        E a, Daniel, vamos conversar?
        Bastou um sim, para que eu conduzisse at o jardim das roseiras. Sentados no mesmo banco da noite anterior, ele perguntou:
        Seus pais nunca desconfiaram de nada?
        Nem imaginam, Daniel.
        Silncio.
        Falei alguma coisa que no devia, Marcus?
        No  isso. Na verdade eu gostaria de conduzir essa conversa de um outro jeito.
        Me desculpe, Marcus.
        Apesar de ter passado boa parte da minha infncia brincando com o Daniel, no fundo ele ser um total desconhecido para mim.
        J se apaixonou por algum, Daniel?
        Por qu?
        Responda.
        Paixo, paixo, acho que no, mas gosto muito de uma garota, Marcus. O nome dela  Iara.
        Vocs esto namorando?
        Mais ou menos, a gente sai de vez em quando. Mas o que isso tem a ver com o nosso assunto?
        Pedi a ele pacincia e continuei a perguntar:
        Voc j transou com a Iara?
        J.
        E o que vocs fazem na cama?
        Nervoso, ele disse:
        E isso  pergunta que se faa? Esse assunto no diz respeito a voc, cara.
        No precisa ficar puto da vida comigo, Daniel. Era justamente neste ponto que eu queria chegar.
        Visivelmente sem-graa, ele havia entendido o recado.
        Como voc mesmo pde perceber, Daniel, no  muito legal ficar comentando certas coisas.  tudo muito pessoal Boa parte do que voc precisa saber eu j contei.
        Meu instinto estava correto. Para quem esperava ouvir muito mais do que ouviu, aquilo era uma frustrao.
        Como primos e amigo eu peo a voc, Daniel, que respeite a minha opo de vida, no comentando nada com ningum.
        Tudo bem. Da minha boca ningum nunca vai saber nada.
       isso a, cara.
      Antes de voltar  varanda, ele fez mais uma tentativa:
      Posso perguntar s uma coisa, Marcus?
      O que ?
      De maneira alguma eu quero que voc fique ofendido com a minha pergunta, mas estar com um cara - e eu no estou falando do Renato - no d a voc um certo 
um certo nojo?
      Percebendo que eu no havia gostado nem um pouco da pergunta, ele disse:
      No fique ofendido, Marcus. Eu s estava dizendo isso, porque mulher  mulher. No tem plos no corpo, est sempre perfumada, sem falar do jeito feminino de 
fazer as coisa. Voc no acha?
      Acho Daniel. Mas acho que o homem tem a sua beleza. E tem mais, cara, eu nunca tive outra pessoa alm do Renato.
      Ele j sabe que eu sei?
      No.
      Voc vai contar a ele?
      No.
      Sem dar tempo a uma nova pergunta, fui me levantando.
      Vamos voltar para a varanda, Daniel?
      Ok.
      Frustrado ou no, ele teve que conter sua curiosidade.
       isso a, Daniel!
      Falou, primo.
      Ele voltou para a cozinha e como Renato ainda no havia chegado, decidi encontr-lo no caminho. Estava a dois quarteires da casa quando avistei meu namorando 
bebendo um cafezinho no balco da padaria.
      Quer um gole, Marcus?
      No, Renato, obrigado.
      Falou com o seu primo?
      H, h.
      E.
      Tudo certo.
      Ele no sabia o motivo da conversa, mas esperou que sassemos da padaria para perguntar.
      E a, Marcus? O que rolou?
      Ele nos viu conversando ontem  noite no jardim da casa.
      Ento ele viu o lance do bolo!
      Viu.
      Que droga! E agora?
      Fique frio a que est tudo bem. Eu contei a ele que ns estamos namorando, e s.
      E voc acha pouco?
      Comecei a rir.
      Esconder a minha opo sexual depois do que ele viu e provavelmente ouviu, no iria adiantar nada. No esquea, Renato, que alm do lance do bolo, por vrias 
vezes eu o alisei sobre o jeans.
      E agora, Marcus?
      Ele pensa que meus pais no sabem de nada.
      Fiz cabaninha com as mos para que ele pudesse acender o cigarro.
      E tem mais, Renato. Disse a ele que no contaria nada a voc sobre a descoberta dele. Portanto, faa de conta de que no sabe que ele sabe.
      Voc acha que ns podemos confiar nele?
      Claro. O que ele ganharia contando aos outros sobre a minha vida.
      Acho que nada.
       s voc fazer de conta que no sabe de nada, que vai ficar tudo bem, cara.
      O fim-de-semana seguiu sem maiores problemas. A nica coisa diferente, mas que ningum percebeu, foi a atitude do Daniel para comigo. Ele continuava educado 
como sempre, mas toda vez que me olhava, fazia-o de cima para baixo, como a demonstrar uma certa superioridade que s existia na cabea dele. Esse estranho olhar 
se completava com uma atitude fsica mais ridcula ainda, que era a de coar o pau sobre o jeans, gesto esse que com certeza no fazia parte do seu dia-a-dia. No 
sei exatamente aonde Daniel queria chegar com isso, mas uma coisa ficou clara para mim: a mensagem que ele me passava era algo como 'sou homem, sou macho' ou coisa 
do tipo. Acho que at um smio fazia esse papel muito melhor.
      De volta a So Paulo - samos de Jundia no Domingo  tarde -, pudemos finalmente nos sentir mais relaxados. Cansados da viagem, meus pais foram dormir cedo, 
deixando a sala toda para ns. Assistindo a um filme, Renato acariciava meus cabelos enquanto eu, confortavelmente deitado no sof, mantinha o seu colo como travesseiro.
      Que sossego, hein, Marcus?
      H, h.
      A sua famlia  legal, mas eles fazem muito barulho.
      Meu av adora uma baguna, Renato.
      Rimos.
      Ainda com a cabea no seu colo, comecei a ser beijado por ele. Primeiro sua lngua deslizou pelo contorno dos meus lbios para s depois se juntar  minha, 
num beijo lento, mido e quente. Sensvel quele momento frtil, meu corpo pedia mais. Tentei me levantar para faz-lo deitar, mas no consegui:
      No tenho pressa alemozinho. O mundo  todo nosso.
      Eu nem te dei o meu presente ainda.
      Beijos.
      Fiz algo diferente, alemozinho.
      Beijos.
      Eu queria algo que durasse para sempre.
      Beijos.
      E consegui. S que o meu presente voc no poder levar.
      Beijos.
      Quando ele arregaou a manga da camiseta branca at a altura dos ombros, pude ver como ficara bonita a tatuagem de um 'M' no seu brao direito.

Captulo 18

        Sem que pudssemos perceber, aos poucos o nosso dia-a-dia foi se transformando.  interessante como as coisas mudam quando se faz algo escondido da sociedade. 
Uma das perdas que mais senti foi o contato com a turma do colgio. J no tnhamos como participar com eles do agito normal, uma vez que os objetivos eram diferentes. 
Todos os programas da turma tinham como resultado conseguir mulher. As nicas participaes que ainda mantnhamos era a de estar com nossos amigos nos intervalos 
das aulas e, pelo menos duas vezes por semana - aps o colgio -, irmos a uma lanchonete agitar um pouco. Alis, falando em lanchonete, uma vez dei um tremendo fora. 
Devamos ser quinze pessoas mias ou menos e, querendo experimentar o lanche do Renato, segurei o seu punho e trouxe pela sua mo o lanche at a minha boca. O pessoal 
no perdoou. Tivemos que ouvir desde bicha! at voc quer o meu lanche na boquinha tambm, Marcus? Por sorte todos acharam que se tratava de uma brincadeira e em 
pouco tempo tudo estava esquecido. Depois deste fora, nossos cuidados foram redobrados. No deixvamos transparecer a real importncia que um tinha para o outro. 
Disfarvamos to bem no colgio, que vrias foram as vezes em que o nosso contato no passava de um tudo bem?
        Geralmente voltvamos para casa a p e, a sim, conversvamos bastante. O assunto principal era o nosso futuro ou, especificamente falando, como seria a 
nossa vida quando pudssemos estar morando juntos. Vez ou outra Renato vinha para aula com o carro de Carlos e nesses dias era possvel namorarmos um pouco. Estacionando 
o carro numa rua de pouco movimento - era sempre a mesma -, podamos nos beijar, abraar e acariciar um ao outro sem maiores problemas. Pelo perigo de assalto que 
corramos, tudo, tudo era muito rpido.
        Outro momento absolutamente simples, mas muito gostoso, era quando estudvamos em casa. Sobre a grande mesa retangular de madeira - mais parecia uma mesa 
de fazenda -, nossos livros se espalhavam sem qualquer harmonia, enquanto, em perfeita sintonia e apenas de meias - quase sempre brancas - nossos ps se encostavam 
e se acariciavam de um jeito to especial, como s duas pessoas apaixonadas saberiam fazer.
        Pela primeira vez como namorados havamos combinado de ir ao cinema. Tudo estava esquematizado para o Sbado. Sentaramos nas poltronas do fundo, com direito 
a pipocas e amassos como qualquer casal. Minha ansiedade por este programa era to grande, que chegue do colgio muito contente na Sexta-feira. Minha me estava 
no quintal estendendo roupa no varal. Com passos silenciosos me aproximei dela e por trs a abracei.
        Cheguei, me!
        Qualquer hora voc me mata, filho.
        No precisa se preocupar, me. Ningum morre de susto.
      E l no colgio? Foi tudo bem?
      Respondi que sim j me dirigindo  cozinha.
      Beatriz ligou, filho.
      Me servindo um copo de suco de laranja, com um pouco de limo, perguntei:
       O que ela queria, me?
      O telefone tocou.
      Ela quer falar com voc. Alis deve ser ela no telefone. Voc atende?
      Atendo.
      Antes de ir para a sala, rapidamente peguei um toucinho com mantecal.
      Al? Oi, Beatriz, tudo bem? Lgico que reconheo a sua voz.
      Pensei comigo: no s reconheo a voz, como o corpo todo de olhos fechados.
      Hoje, Beatriz?  to importante assim? T legal, oito horas. Um beijo.
      Minha me entrou na sala.
      O que ela queria, Marcus?
      No sei. Ela quer falar pessoalmente e vir me buscar s oito da noite.
      Risos.
      Do que a senhora est rindo?
       que no meu tempo era o rapaz que ia buscar a moa.
      No tem nada a ver. Ela s vir porque est de carro.
      Subi para tomar banho e no chuveiro pensei no que poderia ser to importante. Cheguei  concluso de que ela s podia estar a fim de uma nica coisa: transar.
      Desci para o jantar e minha me j estava  mesa:
      E o papai?
      Ele vai se atrasar um pouco.
      Como de costume, entes do prato principal me servi de uma salada. No houve tempo para comer mais nada, pois logo a buzina tocou.
      Tchau, me.
      Mas voc no comeu nada, filho!
      No d tempo. Depois eu como alguma coisa.
      Pea para Beatriz entrar, Marcus.
      No d, me. J est muito tarde. Outra coisa, se o Renato ligar, diga que sa, mas a senhora no sabe com quem. Tudo bem?
      Tudo bem, filho.
      Beatriz estava em p encostada no carro.
      Tudo bem, Marcus?
      Tudo bem, Beatriz. E com voc?
      Estou indo.
      Achei estranha a sua resposta, mas nos cumprimentamos com um leve beijo nos lbios e entramos no carro.
      Voc sugere algum lugar, Marcus?
      S no sugeri que fssemos transar, porque no seria honesto com o Renato. Apesar de ser completamente apaixonado por ele, aquela garota mexia comigo de uma 
forma muito estranha.
      Eu conheo um barzinho bem tranqilo. Fica prximo  rua Henrique Schaumann. Vamos at l?
      A caminho do bar, por mais que tentasse, no trocamos uma palavra sequer. Disfarando um certo nervosismo, ela simplesmente no respondia a nenhuma das minhas 
perguntas.
       mesa  que pude perceber como suas mos estavam frias.
      Voc est com algum problema, Beatriz?
      Acho que ns estamos.
      Ns?
      Estou grvida, Marcus.
      Senti que o cho havia desaparecido e, antes que pudesse pensar em alguma coisa, o garom chegou:
      Boa noite. O que vocs vo querer?
      Ela pediu um suco de frutas e eu, ainda em estado de choque, nada respondi. Ele insistiu:
      O senhor vai querer alguma coisa?
      Eu? Ah sim uma cerveja, por favor.
      Um frio tomou conta do meu corpo.
      Voc tem certeza de que est grvida?
      Tenho. Estou de trs meses. E voc  o pai.
      MasMas no  possvel, Beatriz. E as plulas?
      Falharam.
      Silncio enquanto o garom nos servia.
      Voc est chateado comigo, Marcus?
      No, no  isso. Na verdade no sei nem o que pensar.
      Voc gosta de mim?
      Claro que gosto. Mas voc sabe, eu amo o Renato. Ns estamos noivos. Meu Deus! O que ele vai pensar de tudo isso?
      No me deixe sozinha nessa hora, Marcus.
      Beatriz, no chore.
      Meu pai me expulsou de casa, Marcus. Estou na rua desde s onze horas da manh. Estou cansada e precisando de um banho para relaxar.
      No precisa chorar. Beatriz. Jamais te deixaria na mo.
      Todos  nossa volta nos olhavam.
      Garom! Garom! A conta, por favor!
      Desculpe por fazer voc passar por isso, Marcus.
      Voc no tem culpa nenhuma.
      Chorando, ela apertava a minha mo direita.
      Voc precisa descansar, Beatriz. Vamos para a minha casa.
      Mas e os seus pais?
      No se preocupe com isso.
      Ela tremia tanto que eu mesmo tive que dirigir o carro. Cansada, Beatriz adormeceu e eu, ao volante daquele Fusca velho, me sentia confuso tentando encontrar 
uma maneira suave de contar tudo ao Renato. Nervoso com o trnsito absurdo de So Paulo, acabei por acender um cigarro. Foi pior. Engasguei fortemente na terceira 
tragada. Acho que puxei demais. Nunca deveria t-lo pegado no porta-luvas.
      Sete voltas no quarteiro de casa foram suficientes para que eu me acalmasse. Estacionei o carro.
      Beatriz! Beatriz!
      Desculpe, Marcus. Acho que adormeci. Ns j chegamos?
      J. Vamos descer?
      No sei se estou preparada para encarar seus pais.
      No se preocupe com isso. Estarei ao seu lado o tempo todo.
      Nos abraamos.
      Essa mala no banco de trs  sua?
      Ʌ quando meu pai me expulsou de casa, ele tambm jogou
      No fale mais nada, Beatriz.
      Novamente nos abraamos.
      No chore mais. Tudo vai dar certo.
      Quando meus pais me viram entrar abraado a ela e carregando uma enorme mala, nada entenderam. Tudo foi muito rpido. Como um raio, atravessamos a sala em 
direo  escada, e de l pedi a meu pai que fizesse o favor de fechar a porta.
      J no segundo andar, levei Beatriz at o banheiro do corredor.
      No fique nervosa. Tudo vai dar certo.
      Estou morrendo de vergonha, Marcus.
      No precisa ficar com vergonha. Tome o seu banho sem pressa e depois v ao meu quarto. Pode sair de toalha mesmo, que ningum vai subir aqui.
      Mas e os seus pais?
      Vou descer para falar com eles. Depois eu subo.
      Eles continuavam sentados, s que um do lado do outro, com os olhos arregalados. Fui at a cozinha, peguei uma cerveja, me sentei no sof menor, tirei o tnis 
e disse:
      Tudo bem?
      Meu pai respondeu:
      Ns  que perguntamos. Est tudo bem?
      Por enquanto, sim.
      Levantando-se, meu pai disse:
      O que est acontecendo, Marcus?
      A Beatriz est grvida de trs meses, pai.
      Grvida?
      H, h. E eu sou o pai.
      Podia-se perceber a expresso de felicidade no seu rosto. Acho que se pudesse, ele soltaria mil rojes.
      Filho! Acho que a gente precisa conversar. Voc no acha?
      Com certeza, pai. Mas primeiro preciso saber como ela est. Beatriz foi expulsa de casa e, at que tudo se resolva, ela ter que ficar aqui com a gente. Vocs 
concordam?
      Claro, filho! Ela pode ficar aqui o tempo que quiser. No , Ana?
      Sem dvida, Giorgio. Ser que ela no quer comer alguma coisa, Marcus?
      No sei, me. Alm de cansada, ela est muito envergonhada.
      Ento suba para ver do que ela precisa, filho! Sua me e eu ficaremos aqui embaixo at voc voltar.
      Meu pai estava to excitado com a situao, que se pudesse ele mesmo teria subido.
      T ok, pai. Daqui a pouco eu deso.
      Antes de entrar no quarto, bati suavemente  porta.
      Beatriz?
      Pode entrar, Marcus.
      De frente para o espelho, ela tentava colocar o suti.
      Voc me ajuda com o fecho?
      H, h.
      Nossos corpos estavam to prximos um do outro, que acabei abraando-a por trs.
      Obrigada por no me deixar sozinha neste momento, Marcus.
      Difcil dizer qual de ns se sentia mais inseguro.
      No  melhor voc tentar dormir um pouco, Beatriz?
      Voc fica comigo?
      At voc adormecer, sim.
      Deitados lado a lado, ficamos em completo silncio e, tentando esquecer a realidade, adormeci.
      Acordei num sobressalto e mesmo com o meu corpo suado, tive a impresso de Ter dormido por segundos. Sem fazer barulho, sa do quarto levando um travesseiro 
e um cobertor.
      Sentados, meus pais dormiam no sof. Desliguei a TV e mesmo com d de acord-los, tive que faz-lo.
      Pai! Pai!
      Marcus! Acho que adormeci. Que horas so?
      Olhando para o relgio de parede, pude perceber o tempo que os havia feito esperar.
      So duas horas da manh, pai.
      Sorrindo, ele disse:
      Voc demorou a descer, filho. Est tudo bem?
      H, h. A Beatriz j est dormindo.
      Sua me e eu estamos meio confusos com tudo isso.
      , pai.
      Sem pressa, Marcus! Quando voc se sentir  vontade para falar, seu pai estar aqui para ouvi-lo.
      Nos abraamos.
      Pai! Eu preciso de um favor seu.
      Fala?
      Eu preciso que amanh a mame no esteja em casa entre meio-dia e duas horas da tarde.
      Olhar interrogativo.
       que nesse horrio o Renato vai estar aqui. Ns havamos combinado de sair. S que ele no sabe nada do que est acontecendo.
      Silncio.
      E conversar na rua, pai,  complicado.
      Acabo de decidir uma coisa, Marcus. Amanh, sua me e eu passaremos o dia em Jundia. Seus avs vo gostar. Sairemos de manh e s voltaremos  noite.
      Valeu, pai.
      Bem, Marcus,  melhor acordar a sua me. Ns j podemos subir? OU como vocs dizem: t limpo?
      Risos.
       isso a, pai.
      Pelo jeito, voc est pensando em dormir no sof.
      H, h.
      Venha para o nosso quarto, filho.  s colocar o colchonete ao lado da cama.
      Se o senhor no se importar, gostaria de ficar aqui na sala mesmo e sem colchonete.
      Entendo.
      Mais uma vez nos abraamos.
      Outra coisa, filho. Caso amanh voc precise de mim para alguma coisa,  s ligar para os seus avs, que estarei aqui em menos de uma hora.
      Obrigado, pai.

Captulo 19

      Na manh seguinte, acordei com o sol me queimando o rosto. A cortina mal fechada da sala deixava uma maldita fresta por onde entrava uma claridade enorme. 
Era tanta luz, que por pouco no imaginei um ovni estacionado na frente de casa. Apenas com o movimento dos olhos verifiquei o horrio no cuco. Os ponteiros marcavam 
nove horas. Muito cedo para quem havia conseguido dormir l pelas trs horas da manh. Completamente imvel sobre o sof, decidi que nem a maldita fresta na cortina 
me faria me levantar. Protegido pelo cobertor, me livrei de boa parte da luz, soluo que s no foi perfeita por causa do calor. Mesmo que Beatriz descesse naquele 
momento, eu fingiria estar dormindo.
      Por instantes pensei na loucura que estava acontecendo comigo: uma garota grvida dormindo no meu quarto: o meu noivo para chegar e um primo que havia descoberto 
a minha bissexualidade.
      Estava cada vez mais insuportvel ficar com a cabea coberta. O calor era demais. Resolvi levantar e tomar um banho, mas antes fechei aquela droga de cortina.
       assim que voc deveria estar! T vendo? T vendo? Filha da puta!
      De verdade mesmo, s acordei embaixo do chuveiro e, com uma toalha enrolada na cintura, fui ao meu quarto para me trocar. A porta estava aberta e Beatriz - 
j vestida - mexia na mala. Ela estava com uma roupa do tipo 'macaquinho'. Alis, por que ser que tem esse nome? Deixa pra l.
      Bom dia, Beatriz.
      Bom dia, gatinho.
      Ganhei um abrao gostoso.
      Voc est bem melhor agora, Beatriz.
       que ontem eu estava muito cansada.
      Entendo.
      Eu procurava uma cueca quando Beatriz, por trs, me abraou, no sem antes fazer com que minha toalha casse.
      Ns no podemos, Beatriz.
       difcil resistir a voc, Marcus. Sua pele  to macia.
      Pare, por favor.
      Abaixando-se, ela comeou a passar a lngua sobre a minha bunda e coxas. Enquanto sua mo direita comeava lentamente a bater uma punheta para mim, a esquerda 
fazia com que a sua lngua fosse cada vez mais fundo. Ela at gemia. Foi demais! De p, esporrei com tudo. Pior, gozei sobre a gaveta aberta do guarda-roupa.
      Voc me deixa louca, sabia?
      Ela continuava abaixada atrs de mim, s que em vez de beijos, seus lbios davam leves mordidas.
      Gostou, gatinho?
      Gostei, s que no podamos ter feito isso.
      Ignorando minhas palavras - dava at a impresso que nunca foram ditas -, Beatriz, ainda por trs, me abraou.
      Eu gosto muito de voc, Marcus.
      Naquele momento, o remorso j se fazia presente. Por que ser que no consigo resistir aos carinhos dessa garota?
      O caf j est na mesa, Beatriz. Se voc quiser ir descendo, tudo bem. Estamos sozinhos.
      Eu sei. Ouvi seus pais conversando hoje cedo. Eles s devem voltar no fim da tarde. Voc acha que se eles estivessem aqui, eu estaria com a porta aberta?
      Acho que no.
      Nos beijamos e descemos juntos para a cozinha.
      Em casa eu no tenho essa mordomia toda, Marcus.
      Sorri e, puxando a cadeira para ela sentar, falei:
      Na garrafa trmica azul tem caf amargo, na bege, caf com acar e na branca, leite fervido.
      Antes de me sentar, fui at a geladeira pegar a jarra com suco de laranja.
      Posso pedir uma coisa, Marcus?
      Disse que sim apenas com o movimento da cabea.
      Eu gostaria que voc comeasse a me chamar de Bia.
      Bia?
      H, h.
      Quem te chama assim, Beatriz?
      De vez em quando, o Renato. Tudo bem?
      Tudo bem, Bia.
      Rimos.
      Vou fazer um sanduche de queijo quente. Voc quer um, Bia?
      Novamente rimos.
      Quero.
      Sexualmente, a Beatriz me dava muito teso. Aquele jeito de menina que ela tinha me agradava muito. Quem visse to comportadamente tomando caf, no imaginaria 
do que aquela garota  capaz de fazer na cama.
      Seus pais falaram alguma coisa, Marcus?
      Ainda no pude conversar direito, mas deu para saber que eles esto muito contentes com tudo isso.
      Contentes?
      . Entre um filho bissexual e um heterossexual, eles preferem o segundo.
      Ela quase derrubou a xcara na mesa.
      Eles sabem de alguma coisa?
      Sabem de tudo. Eu contei a eles.
      Inclusive do Renato?
      H, h.
      E eles aceitaram tudo isso numa boa?
      No foi to simples assim, Beatriz, mas aceitaram.
      E o seu Jlio e a dona Ins?
      Tambm sabem.
      Ela estava completamente chocada, tanto que nem conseguia falar direito.
      Nossa! No sei nem o que pensar, Marcus! Tudo isso  to incrvel!
      Troque a palavra 'incrvel' por 'difcil'.
      Eu no teria a coragem que vocs tiveram.
      Entre viver e morrer, ns optamos por viver, Beatriz.
      Como assim, Marcus?
      Viver uma vida mentirosa s para agradar aos outros  estar morto em vida, voc no acha?
      No sei por qu, mas me lembrei de quando transamos os trs na pousada. Ela  toda raspadinha na frente, quase no tem plos.  uma gracinha. D para ver o 
pau entrando direitinho.
      Posso perguntar uma coisa, Marcus?
      O que ?
      Eu gostaria que voc fosse muito sincero na sua resposta.
      Fale, Beatriz, o que ?
      Bia, Marcus.
      Desculpe,  que ainda no me acostumei.
      O que voc sente por mim, Marcus?
      Eu gosto de estar com voc
      Me servi de um pouco de suco antes de continuar a falar. Seu olhar acompanhava cada movimento meu.
      No sei direito o que sinto por voc, Beatriz, mas sei que sem o Renato, eu no vivo.
      Ela comeou a chorar.
      Desculpe, Beatriz. Eu no pretendia te ofender.
      Voc no gosta nem um pouquinho de mim, Marcus?
      Gosto, Beatriz, mas  diferente.
      Ela continuava a chorar e eu, sem saber o que fazer, me levantei da mesa e, encostado no gabinete da pia, tentava pensar em alguma coisa, quando ela disse:
      Eu viveria com vocs dois.
      Confesso que tambm j havia pensado nisso, mas seria muito complicado. O Renato no aceitaria essa relao a trs, nunca! Mesmo eu tinha dvidas se isso seria 
bom ou ruim para ns.
       melhor voc tentar se acalmar, Beatriz. Tome um pouco de suco
      Eu no quero, Marcus.
      Tome. Vai te fazer bem.
      Derrubei o copo de suco da mesa.
      Droga!
      Me abrace, Marcus.
      Abraando a ela, eu no conseguia deixar de pensar que Renato poderia chegar a qualquer momento. Conversvamos, quando a campainha tocou:
      Beatriz! Deve ser o Renato!
      E agora, Marcus? Eu ainda no estou preparada para falar com ele. Me sinto insegura.
      Eu sei disso. Por isso mesmo, acho melhor voc subir e esperar l em cima.
      Respirei fundo antes de abrir a porta:
      Voc deve ser o Marcus!
      Sem cerimnia, o rapaz foi entrando. Ele devia Ter a minha idade.
      Onde est a minha irm? E no minta para mim! O carro dela est estacionado na porta.
      Eu nem sabia que a Beatriz tinha um irmo.
      Sua irm est descansando l em cima. O que voc quer com ela?
      Como o que eu quero com ela?  minha irm, cara!
      Sozinho, ele foi subindo as escadas.
      Beatriz? Beatriz? Beatriz?
      Voc no pode ir entrando na casa dos outros desse jeito, cara!
      Por qu? Voc vai me impedir?
      Se voc no parar, vou!
      Ento venha! Estou louco de vontade de encher a sua cara de porrada!
      Beatriz apareceu na escada.
      Leonardo!
      Como se no existissem degraus, ele a puxava fortemente pelo brao.
      Vamos para casa, Beatriz!
      Pra com isso, cara!
      Tentando impedi-lo, levei um soco na boca. Nervoso, me levantei e revidei em seguida. Estvamos a ponto de resolver o problema no brao, quando Beatriz, entre 
ns, comeou a gritar:
      Parem! Parem! Parem!
      Parei, mas ele no. Pego de surpresa, e pelas costas, tive o pescoo preso pelo seu brao. Foi to forte a chave de brao, que camos os dois no cho. Beatriz 
aos gritos tentava faz-lo parar, mas ele continuava a apertar. S me livrei quando, com o cotovelo, acertei seu estmago. O cara parou! Beatriz, com medo de que 
a briga recomeasse, Abraou-se a ele. Chorando, ela disse:
      Vocs no podem brigar. Vamos embora Leonardo.
      No outro canto da sala, no agentei e falei:
      Se voc no quiser ir, no precisa, Beatriz!
      Nervoso, ele gritou:
      Est vendo como ele provoca? S porque  rico, acha que tem direito de azarar a irm dos outros! Mas comigo no! Ela  de famlia! Tem pai, tem me! No  
sozinha, viu?
      Eu no estou querendo provocar voc! S acho que voc tem que respeitar um pouco mais a sua irm!
      Quem  o irmo? Sou eu ou  voc?
       voc!
      Beatriz interveio:
      No comecem tudo de novo! Vamos embora, Leonardo!
      O cara era um completo revoltado e, como diria o meu av Dulio: com um carcamano, no adianta conversar. A pedido de Beatriz, peguei a mala e as chaves do 
Fusca no quarto.
      Mais tarde eu ligo, Marcus.
      Falou, Beatriz.
      Me senti bem mais leve depois que saram e, antes de colocar ordem na casa, me servi de uma dose de usque com gelo e subi para um banho. Meu pescoo incomodava 
demais e um pequeno corte na gengiva doa muito, mas, acima de tudo, o que precisava mesmo era relaxar. No chuveiro, enquanto a gua quente caa sobre os meus ombros, 
de olhos fechados eu tentava imaginar a forma mais suave possvel de contar toda a confuso da gravidez para o Renato. Com  certeza ele ia ficar puto da vida comigo, 
mas nada que duas pessoas apaixonadas no pudessem resolver. Iria esper-lo do jeito que ele mais gostava de me ver: de short, sem camiseta e descalo.

Captulo 20

              Estava me servindo de mais uma dose de usque, quando a campainha tocou. Atendi a porta com o copo na mo:
      Oi, Renato!
      Seus olhos estava vermelhos e seu olhar estranho. Sem nada dizer, evitou meu beijo e foi entrando. Fechei a porta devagar. Meu noivo no estava bem e com certeza 
j devia saber de alguma coisa. Quem ser que contou?
      Sentado no sof, com os cotovelos, ele mantinha as mos no rosto quando me aproximei. Ajoelhado  sua frente - eu usava apenas um curto e apertado short jeans 
- tentei entrar no assunto:
      Vamos conversar?
      Sem resposta.
      Voc tem razo de estar chateado comigo. Fui muito moleque.
      Suas mos continuavam a esconder o rosto e as minhas deslizavam suavemente pelas suas pernas.
      No sei o que te contaram, mas sei que te amo, cara.
      Silncio.
      Que tal me perdoar com um beijo?
      Para voc tudo no passa de brincadeira, no , Marcus?
      Comecei a beijar suas mos.
      Uma puta faria melhor que isso, Marcus! Talvez voc devesse aprender mais com a Beatriz.
      Voc est me ofendendo, Renato.
      Eu? Voc tem certeza de que sou eu?
      Sei que voc est chateado comigo, mas
      'Mas' o qu? Voc me trai com aquela putinha e quer que eu fique calmo,  isso?
      Isso no  verdade!
      Ah, no?
      Levantando-se, ele fez com que eu fizesse o mesmo e, com as mos sobre os meus ombros - quase sem distncia entre ns -, ele disse:
      Olhando nos meus olhos, Marcus: voc transou com ela na pousada?
      Pensei em mentir, mas falei a verdade.
      No, mas
      Com fora, fui empurrado para trs e, por sorte, ca sobre o sof pequeno. O copo voou da minha mo, indo se espatifar na parede.
      Eu s fiz isso uma vez, Renato. Me escute, por favor!
      Tire as mos de mim, Marcus!
      Pela Segunda vez ele me jogou longe. Bati com as costas no rack e, por segundos, fiquei sem ar.
      Voc me machucou.
       pouco pelo que fez!
      Voc est muito nervoso, cara e
      'E' o qu? Qualquer um ficaria puto da vida se descobrisse que o seu noivo est transando por a!
      Eu no estou transando por a s fiz isso uma vez!
      No importa a quantidade de vezes que voc transou!  a traio que conta! Tra-i-o!
      No precisa gritar, Renato!
      Eu no estou gritando!
      Ficamos algum tempo na sala em completo silncio. Meu corao batia muito forte.
      Perdo, Renato. No pensei que isso o deixaria to chateado.
      No acredito no que estou ouvindo! Voc s pode estar louco! O que fez pensar que eu aceitaria tudo isso numa boa?
      Beatriz.
      Ele ficou mais nervoso ainda.
      Essa putinha disse isso?
      No! Ela no disse nada. Eu  que pensei que as coisas ficariam mais ou menos bem, por ser ela a terceira pessoa.
      Comecei a chorar.
      Desculpe, Renato. Eu pensei que ns trs pudssemos viver juntos. Voc, eu e Beatriz
      Foi um choque para ele.
      No  possvel, meu Deus! Voc decidiu por ns que ela faria parte da nossa vida!  isso, Marcus?
      Me aproximei dele.
      Foi meio inconsciente, mas  isso.
      Quase no terminei a frase. Levei uma porrada muito forte e novamente fui parar no cho. Minha boca comeava a sangrar.
      Estar com ela, Renato, no diminui em nada o que sinto por voc. Viver sem ela eu consigo, mas viver sem voc  impossvel. Eu amo demais voc.
      Debruado sobre o barzinho, ele comeou a chorar. Seu choro era to baixo e com tanto sentimento, que ecoava como um trovo dentro do meu peito.
      Voc no podia ter feito isso comigo, Marcus Depois de tudo que a gente passou juntos.
      Perdo, Renato.
      Por ns, eu enfrentei todo mundo voc voc no tinha o direito de esconder isso de mim. No tinha no tinha!
      Me perdoe, por favor.
      Ontem  noite os pais da Beatriz foram l em casa. Eles estavam desesperados  procura dela. Mesmo envergonhada, dona Neusa perguntou se eu conhecia o namorado 
da filha deles a nica coisa que sabiam era o nome do rapaz nem me passou pela cabea que esse Marcus fosse voc.
      Chorando, me aproximei dele.
      Desculpe por tentar trazer Beatriz para a nossa vida. Agora sei que  errado. Acabo de aprender do pior jeito.
      Voc me fez de idiota, Marcus. Me sinto humilhado. Me sinto usado.
      Tentei abra-lo. Ele no permitiu.
      Sou to bobo, que ainda fui tatuar essa droga no brao.
      Choramos.
      Por favor, Renato. Vamos esquecer tudo. Beatriz no existe mais. S eu e voc para sempre.
      No d mais, Marcus.
      Tudo  possvel, Renato. Me escute, por favor.
      No, Marcus. Fique com ela.
      No me deixe! Eu preciso de voc! Eu amo voc!
      Voc no me ama!
      Silncio.
      Voc tem que acreditar em mim, Renato!
      Tchau, Marcus.
      Ele apenas me olhava. Seus olhos estavam cheios de lgrimas. Corri para a frente da porta e l fiquei, sem conseguir dizer uma palavra sequer. Minha voz, perdida 
entre tantos pensamentos confusos, desaparecera. Deixei que ele sasse. Comecei a chorar.
      Estava com medo. Muito medo. Por que tinha feito aquilo? Ser que estava ficando louco?
      Trancado no quarto, me isolei de tudo. Chorando, adormeci.

Captulo 21

        Acordei na mais completa escurido. De bom no havia nada naquele quarto. Mergulhado num vazio enorme, fiz fora, muita fora para no chorar. Chorei. Estava 
chorando. Gostaria que minha me estivesse l para me abraar.
        Suaves batidas na porta.
        Marcus?
        Levei um susto.
        Pai!
        Eu gostaria de falar com voc, filho! Estou esperando l embaixo. Tudo bem?
        J vou descer, pai.
        Imagino a preocupao que ele devia estar sentindo.
        Pai? O senhor ainda est a?
      Fala, filho.
      Que horas so agora?
      Oito horas.
      Obrigado pai.
      Ao tentar acender a luz o abajur, quase derrubei um copo que estava sobre o criado-mudo. Com a luz acesa, pude ver o travesseiro manchado de sangue. O meu 
sangue. Pensei em ligar para o Renato, mas no seria uma boa idia. Muito mais seguro se conversssemos amanh. Com certeza ele j deveria estar arrependido do que 
fez. Renato jamais me deixaria. Ns nos amvamos. Tomei banho com essa certeza e desci para falar com meus pais. Minha me ao telefone conversava com a Ldia e meu 
pai, ao me ver, desligou a TV.
      O que foi isso no seu rosto, Marcus? Est inchado!
      No  nada, pai. Depois a gente fala.
      Ele entendeu que eu no gostaria de falar na frente da me que, mesmo ao telefone, ouviria.
      As coisas no devem Ter acontecido do jeito que voc queria, certo?
      Deu tudo errado, pai. Mas acho que amanh tudo se resolver. Tenho que acreditar nisso.
      Voc no acha importante falarmos sobre o que est acontecendo?
      No seria correto de minha parte dizer um 'no', afinal de contas eles so meus pais e, desde Sexta-feira, esperam por esta conversa.
      Acho, pai.
      Ele ficou muito contente com o meu 'sim' e, colocando a lata de cerveja sobre a mesinha da sala, disse que Beatriz havia telefonado.
      Acho, pai.
      Ele ficou muito contente com o meu 'sim' e, colocando a lata de cerveja sobre a mesinha da sala, disse que Beatriz havia telefonado.
      O que ela queria pai?
      No sei exatamente. Foi sua me quem a atendeu e, em seguida, a Ldia ligou. Mas acho que era para dizer que com ela est tudo bem.
      Esperando por um comentrio que no fiz, ele disse:
      Voc percebeu como as duas se do bem, Marcus?
      Percebi, pai. A mame gostou muito da Beatriz.
      Eu tambm. Ela parece ser uma moa muito caprichosa.
      Pega leve, pai.
      Acho que exagerei um pouco no , filho?
      H, h.
      No precisava nem conhecer a Beatriz para saber que, definitivamente, ela no era uma garota caprichosa. Bastaria conhecer o seu Fusca.
      Vamos indo, Marcus?
      Aonde, pai?
      Pensei em jantarmos fora. Conheo um restaurante bem tranqilo. L poderemos conversar  vontade. Vamos?
      Ok, pai. Mas e a mame?
      Iremos s ns dois, Marcus. Conversa de pai para filho.
      Realmente o restaurante que meu pai havia era bem tranqilo. Ficamos com a mesa mais isolada e, aps termos pedido as bebidas, para minha surpresa ele entrou 
no assunto:
      Sabe como  filho, depois do que aconteceu entre voc e a Beatriz, sua me e eu achamos que talvez voc precise de orientao.
      Sorri.
      Eu estou falando srio, Marcus. No sei exatamente sua me e eu erramos, mas de alguma forma ns no demos a educao correta para voc. Num ponto qualquer 
voc ficou psicologicamente preso dentro de um mundo pequeno e errado, que acabou fazendo com que pensamentos estranhos fossem considerados por voc como normais. 
A prova dessa limitao  que, na primeira oportunidade que surgiu  sua frente, voc acabou fazendo sexo com uma garota. E no venha me dizer que no gostou. Voc 
at a trouxe para dentro de casa. Estou mentindo?
      O senhor no est mentindo. Eu gostei de transar com a Beatriz, mas
      Eu sabia que estava certo!
      Pai, no se empolgue tanto. Fale mais baixo.
      Garom? Mais um usque, por favor!
      Seus olhos brilhavam.
      Garom? Traga dois usques. Meu filho vai beber comigo!
      Mal sabia ele que eu j havia detonado algumas doses em casa.
      Pai!
      Ainda no acabei, filho!
      Voc e a Beatriz poderiam viajar. Que tal conhecer a Europa, Marcus?
      Pai, no  por a .
      Marcus, se vocs preferirem, viajem para outro lugar. Estados Unidos, Canad, sei l, voc escolhe.
      Pai! O senhor sabe que no  disso que estou falando.
      Marcus, me escute! No foi bom fazer sexo com uma mulher?
      Foi, pai, mas
      Ento, filho! S lhe falta orientao.
      Pai! Na verdade eu sou bissexual.
      Voc no sabe!
      Como no sei, pai?
      Marcus! No dia da confuso, voc me disse que era homossexual. Agora voc me diz que  bissexual?
      Nisso ele tinha razo, mas com certeza eu no era como ele: heterossexual.
      Marcus! Fazer a coisa certa  uma questo de costume, de hbito, filho! De hbito!
      Pai, fale mais baixo.
      O brilho nos seus olhos era constrangedor.
      Filho, eu s peo uma coisa. Vamos procurar um psiclogo! Sua me conhece um muito bom que, com certeza, poder nos ajudar.
      Pai, acho que perderamos tempo falando com algum assim.
        Mas, filho, toda tentativa  vlida. D essa chance a voc mesmo!
Pai, a minha realidade  outra.
        Ele no me ouvia.
        Vamos tentar, Marcus!  importante!
        No havia como discutir.
        Tudo bem, pai. Eu aceito ir a um psiclogo, mas tem uma condio.
        Pode pedir qualquer coisa, filho. Eu aceito!
        Calma, pai. No  to fcil assim.
        Seja o que for, eu aceito.
        Era duro Ter que ofuscar o brilho nos olhos de algum com esperana, principalmente de um pai. Do meu pai.
        Pea, filho!
      Eu gostaria que o senhor conhecesse um pouco mais do meu mundo. Esta  a minha condio, pai.
      Vamos em frente!
      Pode no ser leve, pai.
      Tudo bem. Estou preparado.
      Difcil ou no, ele teria que enxergar certas coisas. Faz-lo sair dali levando consigo falsas esperanas no seria honesto de minha parte.
      Vocs querem pedir o jantar?
      Nem vi o garom se aproximar. Meu pai disse a ele que provavelmente nem jantaramos e pediu uma poro dupla de queijo provolone.
      Expectativa com a sada do garom.
      Posso comear a falar, senhor Giorgio?
      Sorrimos.
      Foi a primeira vez em que o chamei pelo nome. Me senti mais  vontade com isso.
      Disfaradamente, pai, olhe para trs e veja o casal de namorados na mesa  sua direita.
      Ele olhou.
      Olhe bem, pai.
      Olhei.
      O seu filho acha a garota um tesozinho.
      Ele concordou.
      S que o seu filho aqui, pai, tambm acha o rapaz um tesozinho.
      Ficamos vermelhos de vergonha.
      Posso continuar, pai?
      Sem me olhar nos olhos e apenas com o movimento da cabea, ele disse que sim.
      Ento, pai, o senhor tem idia de quantas vezes eu j me masturbei pensando em rapazes iguais a este?
      Ele continuava de cabea baixa.
      Sabe, pai, eu nunca me senti um sem-vergonha por isso. Esse desejo vem de dentro, pai. De dentro. No d para controlar. Pai, eu gosto da figura masculina. 
Acho bonito. Tenho teso.
      Silncio enquanto o garom nos servia.
      Pai! A Beatriz no foi a primeira garota com quem sa, mas foi a nica que fez coisas diferentes comigo. Alm daqui que o senhor considera normal, ela curte 
muito me chupar atrs brincar com os dedos e outras coisas mais.
      Ele respirou fundo.
      Voltando no tempo, pai, o senhor tem idia de como foi difcil para mim Ter que ser duas pessoas dentro de uma? De um lado, o filho prodgio do senhor Giorgio 
e da dona Ana; e de outro, um garoto que sente teso por rapazes. Pai, eu estava com treze anos quando tudo isso comeou. O senhor no pode imaginar o que foi a 
minha cabea dos treze aos quatorze anos, pai. Tudo foi muito difcil
      Chorei.
      Pai tem mais uma coisa que o senhor precisa saber.
      Silncio.
      Pai! Lembra quando me cortei fazendo pipa e fui parar em estado grave no hospital? No foi por acidente que a gilete cortou o meu pulso.
      Choramos.
      Desculpe pai
      Filho
      Choramos.
      Meu Deus! Onde eu estava quando tudo isso aconteceu? Filho, eu
      Desculpe pai.
      Ele no conseguia falar direito.
      Pai, eu sei que ningum tem o direito de tirar a prpria vida, mas naquela poca as coisas estavam muito confusas na minha cabea. O medo, a insegurana e 
a humilhao viviam comigo todos os dias. Tenho at vergonha de contar ao senhor o que me levou a fazer aquela besteira
      Filho, por favor, me conte tudo.
      Parece que problema puxa problema, pai. Se no bastasse toda a confuso que j rolava na minha cabea, ainda fui cometer um erro gravssimo no colgio.
      No colgio, filho?
      No antigo colgio, pai.
      Dei um gole no usque antes de continuar a falar. Minha boca ardeu.
      Naquele dia, pai, cheguei atrasado ao colgio e acabei sentando em qualquer carteira. Estava assistindo  aula - era de matemtica -, quando algum me passou 
a mo. Era o cara da carteira de trs. O lder da turma, o que no tinha medo de nada e o que enfrentava todo mundo. Com certeza, ele fez isso de brincadeira e eu 
muito burro
      Fale, filho.
      Eu muito burro, pai, em vez de reagir, fiquei quieto, fingindo que no era comigo. Eu tinha muito medo dele, pai da para frente, a minha vida se transformou 
num inferno.
      Comecei a chorar.
      Tudo isso  passado, filho. O importante  que agora estamos juntos.
      Ele e sua turma, pai, acabaram comigo. No me respeitavam. Todos os dias mexiam comigo na frente de todos. Isso acontecia nos corredores, na sala de aula e 
no ptio. s vezes com palavras pesadas passadas de mo
      Minha voz saa com dificuldade e suas mos apertavam a minha mo direita.
      Tambm por me recusar a dar dinheiro a eles apanhei muito, pai eram tapas no rosto empurres rasteiras cadernos rasgados livros roubados tanta coisa, 
pai tanta coisa
      Comeamos a chorar.
      Filho, eu eu
      Correndo, ele foi em direo ao banheiro. Fui atrs.
      Pai!
      Encostado na parede e com as mos no rosto, meu pai no parava de chorar.
      Me perdoe, filho me perdoe onde eu estava quando tudo isso aconteceu? Me perdoe me perdoe
      Pai o senhor no teve culpa de nada. Eu  que sou uma droga de filho.
      Nunca fomos to unidos. Abraado, chorvamos como crianas.
      Pai,  melhor voltarmos para a mesa. Imagine s o que os garons devem estar pensando da gente. Primeiro choramos  mesa e depois ficamos um tempo no banheiro.
      Eles no vo pensar nada de errado, filho. Venho muito aqui. Todos me conhecem. Agora, se pensarem algo ruim, como dizia seu av Dulio: 'Che mene frega!'
      Lavamos nossos rostos e voltamos para a mesa onde pedimos mais dois usques.
      Pai, se possvel, gostaria que o senhor no contasse nada para a  mame do que ns conversamos aqui. Tenho vergonha, pai.
      Ela  sua me, Nas se voc prefere assim, tudo bem.
      Valeu, pai.
      Marcus! Eu gostaria de saber o que aconteceu com o seu rosto. Est um pouco inchado, filho.
      Renato e eu brigamos, pai.
      Violncia fsica, filho! Isso no est certo.
      Sei que no, pai. Mas se existe um culpado nessa histria, esse culpado sou eu. No fui nada honesto com Renato.
      Filho, nada justifica uma agresso fsica!
      Pai, senhor tambm me agrediu quando lhe contei da minha opo sexual.
      E me arrependo disso at hoje.
      Renato tambm j deve estar arrependido do que fez.
      Sem detalhar muito, contei a meu pai toda a confuso que eu havia provocado, deixando bem claro que por desejo eu viveria com os dois, porm jamais sem o meu 
noivo.
      Naquela noite demorei muito a dormir e quando isso aconteceu, vrias foram as vezes em que acordei com sobressaltos. Trs coisas mexeram demais comigo: a briga 
com Renato, a conversa com o meu pai e as tristes lembranas do primeiro colgio. Maldito Vagner!

Captulo 22

        A ansiedade era grande demais e dormi to mal na noite anterior que acabei chegando atrasado ao colgio. Sem Ter como falar com Renato - pretendia fazer 
isso antes da primeira aula -, fui obrigado a esperar o intervalo. Nem bem o sinal tocou, desci ao ptio para procur-lo. Perto da lanchonete - ficvamos muito ali 
-, esperei por quase dez minutos e nada. Ansioso, fui  luta:
        Pedro? Pedro?
        Tudo bem, Marcus?
      Tudo bem, cara, e com voc?
      Vou indo.
      Voc viu o Renato por a?
      Vi. Ele est conversando com o Guilherme. Esto sentados na mureta da quadra.
      Valeu, cara!
      Por que ser que ele no me procurou? Me aproximei deles:
      Oi!
      Os dois me cumprimentaram, mas Renato o fez sem me olhar nos olhos.
      Podemos falar, Renato?
      A resposta foi quase imediata:
      Ns no temos o que falar!
       lgico que temos!
      Percebendo que havia algo errado entre a gente. Guilherme se levantou:
      Vou deix-los  vontade para conversaram.
      Fique a mesmo. Eu no tenho assunto nenhum a tratar com o Marcus!
      Completamente sem-graa, Guilherme tentou resolver o impasse.
      Conversem! Afinal de contas vocs so amigos h tanto tempo.
      Renato no concordou e j estava indo embora quando o segurei pelo brao.
      Espera, cara! Preciso falar com voc!
      Voc est surdo, Marcus? J falei que no temos assunto nenhum a tratar.
      Renato, por favor, no exagere!
      Eu estou exagerando? Voc fez o que fez e o filho da puta sou eu?
      Ns temos que conversar, cara!
      Tire suas mos de mim, Marcus!
      Guilherme assustado, apenas nos olhava.
      Renato, o que aconteceu j  passado! Me escute, por favor!
      O filho que a Beatriz carrega na barriga no  passado!
      Guilherme entrou na conversa:
      De que filho vocs esto falando?
      Gritando, Renato respondeu:
      A Beatriz est grvida do Marcus!
      No acredito! E voc dizia que no a suportava, Marcus!
      Todos  nossa volta nos olhavam.
      Renato, vamos conversar em outro lugar, por favor!
      No!
      Fiquei nervoso.
      D para gritar menos, Renato?
      No, no d!
      Voc quer dar o mesmo show que sua me deu no hospital?  isso?
      Me dando um empurro, ele disse:
      No fale da minha me, Marcus!
      Por qu? Voc vai me bater?
      No me provoque, Marcus!
      Provoco sim! Quem sabe dando umas porradas voc fica mais calmo! Ou voc no  homem para isso?
      Guilherme j o segurava.
      V embora, Marcus!
      No vou, Guilherme! Vem, Renato! Vem! Vem!
      Completamente zonzo, acordei no ambulatrio.
      Voc est melhor, filho?
      Aos poucos a viso do rosto da enfermeira foi se clareando.
      Acho que estou, dona Vera.
      O cheiro de ter era insuportvel.
      Quebrei alguma coisa?
      No. Voc est com o olho esquerdo roxo. O soco foi forte, filho.
      Pelo menos me abracei a ele.
      O que voc disse?
      Se posso me levantar.
      Ainda no. Voc acabou de acordar de um desmaio.
      O que a senhora est fazendo?
      No  nada. S vou colocar um pouco de gaze com gua gelada sobre o seu olho.
      J posso levantar?
      Ainda no.
      Bateram  porta. Era o Guilherme.
      Posso entrar?
      Pode. E v se faa o seu amigo ficar um pouco deitado. Eu j volto.
      E a, Marcus?
      Tudo bem. E o Renato?
      Ele est na diretoria. Acho que vai pegar uma suspenso de trs dias e voc tambm.
      Tirei a gaze do olho e sentei na maca.
      Por que voc tinha que provoc-lo, Marcus?
      Eu no provoquei nada. Se ele falasse comigo, nada disso teria acontecido.
      Marcus,  bvio que ele no quer ver voc nem pintado de outro. Primeiro voc transa com a namorada dele, depois voc engravida a garota e, por ltimo, ainda 
ofende a me do cara. Voc quer o qu? Que ele converse com voc numa boa?
      No  bem assim, Guilherme.
       claro que . E tem mais, o colgio inteiro j sabe que a Beatriz espera um filho seu. Imagine s com que cara o Renato vai ficar na frente de todos.
      Quando sa com a Beatriz, eles j no eram namorados.
      S que continuavam saindo. E voc sabia disso.
      Sabia mais ou menos, Guilherme.
      No fundo, Marcus, voc no respeitou o seu melhor amigo.
      Dona Vera entrou na sala.
      Pode entrar, Ana.
      Sujou.
      Me! O que a senhora est fazendo aqui?
      O diretor telefonou para casa.
      Me, este  o Guilherme.
      Muito prazer.
      Ela estava super sem-graa.
      Olha o estado do seu olho, filho. Voc sabe que no deve brigar, ainda mais no colgio. At parece que seu pai e eu no lhe demos educao.
      Ana, leve estas gazes e no esquea que as compressas devem ser feitas com gua gelada.
      No vou esquecer, Vera. Muito obrigada por tudo.
      Voc no precisa agradecer. Estou aqui para emergncias como esta.
      Mesmo assim, obrigada. Vamos indo, filho.
      O Fiat estava estacionado bem em frete ao porto principal. Esperei entrarmos no carro - dona Vera nos acompanhou at a sada - para dizer a minha me que 
no precisava ter vindo me buscar, ainda mais porque no fica bem fazer isso com um cara da minha idade. Bastou dizer isso, para que ela, muito nervosa, comeasse 
a falar:
      Nunca mais faa isso, Marcus!
      Me, aconteceu.
       fcil para voc dizer 'aconteceu', s que quem passou vergonha na frente do diretor fui eu.
      Colocando os culos escuros, me desculpei:
      Essa histria de briga tem que parar! OU voc pensa que no Domingo no percebi que seu rosto estava inchado? S no falei nada porque seu pai pediu e garantiu 
que estava tudo bem. Hoje, o diretor foi categrico em afirmar que foi voc quem provocou tudo.
      Fiquei quieto. No tinha o que falar.
      Marcus, voc e a Beatriz fazem um casal to bonito, filho! A beatriz, alm de bonita  to educada, filho.
      Tinha certeza de que eu s gostasse de mulher, ela acharia Beatriz uma merda.
      Me, eu gosto muito da Beatriz, mas amo o Renato.
      Marcus!
      Me desculpe, me.
      Ficou nervosa.
      No sei o que tanto voc e seu pai conversaram! No resolveram nada! Alis, seu pai  outro, fala, fala e fala e fica tudo por isso mesmo!
      Mo, as coisas no so to simples quanto a senhora pensa.
      Deixe estar!
      Me, o farol!
      Batemos o carro.
      Viu o que voc fez, Marcus?
      Eu, me? A senhora  quem est dirigindo.
      Mas voc me deixou nervosa! Se no fosse pela briga no colgio, eu estaria em casa.
      , dona? A senhora no viu o farol fechado?
      Ns no descemos do carro.
      Se tivesse visto a tempo, teria brecado!
      A senhora discute com o seu filho e vem descarregar em cima de mim?
      Eu no estou discutindo com o meu filho!
      Aps termos nos entendido com o motorista de txi, voltamos para casa em completo silncio.
        Chegando em casa, Beatriz nos esperava  porta. Apesar de o pra-choque dianteiro estar parcialmente destrudo, ela inteligentemente - vendo minha me nervosa 
- nada comentou. Pouco conversaram. Na verdade, nada alm de cumprimentos delicados, j que dona Ana - demonstrando certa impacincia - no via a hora de telefonar 
para sua amiga Ldia, o que fez da cozinha mesmo. Fiquei na sala conversando com a Beatriz que para minha surpresa no se espantou nem um pouco ao me ver sem os 
culos escuros.
        Ficou bem roxo, Marcus.
        Me beijou no olho.
        Como voc soube, Beatriz?
        A Katarina estava l. Viu toda a briga e em seguida me telefonou.
        Bem gazetinha a sua amiga, hein?!
        Ela no  gazetinha.  minha amiga.
        Me desculpe.
        Fazendo-me colocar os ps sobre o seu colo, ela tirou meus tnis, minhas meias e comeou a massagear meus ps, Aquela massagem, acompanhada de alguns beijos 
nos dedos, me deixou excitado, mas Beatriz nem percebeu:
        Por que voc no toma um banho para relaxar, Marcus?
         o que vou fazer.
        Vou com voc, Marcus.
        Interpretando meu olhar, ela disse:
        Sua me no vai falar nada. Pode ter certeza.
        Mas, Beatriz
        Vamos subir, Marcus.
        Fui sozinha tomar banho na suite dos meus pais e quando voltei para meu quarto - que j estava  meia-luz - encontrei-a apenas de calcinha.
        Beatriz! Minha me est l embaixo.
      Relaxe, gatinho. Vou fazer uma massagem em voc.
      No incio fiquei excitado ao sentir suas mos deslizando pelo meu corpo. Mas aos poucos essa excitao foi se transformando em um enorme vazio. Pensamentos 
bons e ruins trafegavam pela minha cabea sem rumo. Um desejo de morte se fez presente dentro de mim. Segurei o choro.
      Beatriz, preciso ficar sozinho.
      O que foi? Voc no est gostando?
      No  isso.. Me deixe sozinho, por favor.
      No escuro do quarto, comecei a chorar.
Captulo 23

      Foi clara a mudana de comportamento de dona Ana desde o dia da briga no colgio. Duas coisas diziam que minha me estava preparando alguma coisa. A primeira 
delas era a forma segura como ela nos olhava. Ao contrrio de suas doces palavras, seus olhos sempre diziam: Deixe estar! Deixe estar! Deixe estar! E isso valia 
tambm para meu pai, apesar de ele nunca Ter percebido. A Segunda tinha tudo a ver com a Ldia. Nunca as duas conversaram tanto. Era s eu chegar, para que elas 
- sem muita habilidade - mudassem de assunto.
      Na semana aps a suspenso de trs dias, estava saindo do colgio quando vi minha me no porto:
      O que foi, me? Aconteceu alguma coisa?
      No aconteceu nada, filho.
      Ento o que a senhora est fazendo aqui?
      Tentando resolver um problema.
      Sem entender nada, fui com ela at o carro que estava estacionado poucos metros  frente, com a Ldia ao volante. As duas estava muito estranhas e nervosas. 
Minha me olhou vrias vezes para os lados antes de entrar no Fiat. A Ldia ento acelerou de um jeito - at cantou pneus - que por pouco no batemos na traseira 
de um caminho de lixo.
      Preste ateno no que vou te dizer, Marcus.
      Ok, me.
      Ns vamos levar voc a um lugar que de incio pode parecer estranho, mas foi muito bem recomendado.
      Que lugar  esse, me?
      Antes de dizer o que , quero de voc o compromisso de guardar segredo. Ultimamente, seu pai e eu estamos discutindo muito por sua causa, e em hiptese alguma, 
ele deve saber do lugar aonde estamos indo.
      Prometi segredo. Mas tive a impresso de que a resposta no importava muito. Iramos de qualquer jeito.
      Na casa aonde vamos ser feito um 'trabalho' que tem como objetivo livrar voc de todas as influncias negativas provocadas por espritos sem-luz.
      Me? A senhora est falando de macumba?  isso?
      Eu estou falando de pessoas que podem resolver o seu problema, Marcus! Esse rapaz a quem chamam de 'Zelador', foi muito bem indicado e j ajudou muita gente 
com problemas parecido com o seu.
      Ldia entrou na conversa:
      O nome dele  Jorge, Ana.
      Me, eu no vou falar com Jorge nenhum!
      Vai, sim! Voc me deve isso.
      Minha me comeou a chorar.
      Marcus, sua me e eu j conversamos com o Jorge. Voc s est assim por causa de um esprito zombeteiro. O objetivo do trabalho  justamente afast-lo.
      Mas, Ldia
      Ela no me deixou falar e continuou:
      Marcus, o Jorge explicou que isso  uma cobrana de 'santo' e no seu caso  uma 'santa' que est na frente.
      Ldia, eu sei o que sinto. E pode Ter certeza que no  por causa de nenhum esprito que encostou em mim. Alis, no conheo nenhuma pessoa que era e deixou 
de ser.
      Ns tambm no conhecemos pessoalmente, mas existe.
      Minha me voltou para a conversa:
      Marcus, uma amiga de uma amiga da Ldia garante que o filho de uma governanta de uma outra amiga sua foi curado pelo Jorge. Tentamos localizar essa governanta, 
mas ela est em alguma cidade do Nordeste e ningum sabe o endereo.
      Me, voc falou em cura. Eu no estou doente.
      Silncio.
      Marcus, ns estudamos bem o assunto. O Jorge explicou que essa cobrana de 'santo' ou de 'corpo'  proveniente de outras reencarnaes. Esse rapaz  do candombl, 
que nada mais  do que a religio dos negros iorubas na Bahia. Ldia e eu vimos no dicionrio que ioruba  uma lngua de um povo que vive na frica Ocidental.
      As duas acreditavam mesmo que o Zelador, como num passe de mgica, me transformaria de uma hora para a outra numa pessoa 'normal'.
      Como  esse trabalho, me?
      Ldia respondeu:
      Esse trabalho tem o nome de eb. O eb serve para livrar o corpo de algum da influncia de um esprito sem-luz. Ele tem como objetivo afastar a cobrana do 
corpo pelo santo.
      O meu esprito est sem luz?
      No. O esprito que est sem luz  o do zombeteiro.
      Mas como  esse trabalho, Ldia?
      Isso voc ver na hora. Mas no precisa se preocupar.
      Marcus?
      Fala, me.
      Primeiro,  importante ter respeito por essa religio e depois fazer aquilo que o Zelador pedir para voc fazer.
      Confesso que me sentia cansado. Por mim, estaria jogado na cama em completa escurido, sem porra de religio nenhuma.
      Ldia? D para voc desligar o ar-condicionado? Vou abrir o vidro.
      Estava acendendo um cigarro quando minha me disse:
      Est vendo s, Ldia? Ele no fumava! Alis detestava cheiro de cigarro e agora, por causa do esprito zombeteiro, at fuma.
      Demoramos muito a chegar. A casa do Jorge ficava na periferia de So Paulo, num lugar extremamente pobre. Estacionamos o carro numa rua de terra, bem em frente 
ao nmero cento e quarenta e um. Crianas descalas - algumas de shorts e outras no - cercaram o carro. Descemos do Fiat em meio a um milho de pedidos e, at algum 
abrir o porto, crianas e cachorros nos rodeavam. Entre a rua e a entrada da casa - no havia calada - tnhamos que pular uma pequena vala. Pulamos os trs, mas 
Ldia, num pequeno deslize, acabou mergulhando o p esquerdo naquela bosta.
      Ldia! De novo!
      Voc quer o qu, Ana? Com esses cachorros em cima da gente e essas crianas que no param de pedir coisas!
      Lave o p quando entrarmos. Em casa passaremos lcool como da outra vez.
      O lugar era muito estranho. Alm de velha, a casa foram pintada num azul meio esbranquiado, que no tornava o ambiente nada agradvel. No quintal, entre inmeros 
gatos, galinhas andavam soltas sem maiores problemas. Ficamos os trs sentados num banco de madeira esperando sermos chamados. J me distraa com uma galinha, quando 
uma moa fez sinal para eu entrar.
      Eu?
      .
      Olhei para minha me e perguntei:
      E vocs? No vo entrar comigo?
      Ns esperaremos aqui. V logo, Marcus. No deixe o Zelador esperando.
      Mas, me
      V logo, Marcus.
      Fui levado at um salo e l fiquei junto com a moa, esperando o Zelador chegar. Ela era muito tmida, pois alm de ficar totalmente quieta, quando me olhava, 
o fazia de rabo de olho. Comecei a puxar conversa:
      Como  o seu nome?
      Zinha.
      Como?
      Zinha.
      A moa tinha a lngua presa. Meia fanhosa no falar. Segurei o riso.
      Ah, t que lugar  esse?
      Ronc.
      Ah, t.
      Algumas coisas me chamavam a ateno naquele lugar. Primeiro, no existia uma imagem de santo sequer. Segundo, vrios pratos de barro - contendo uma srie 
de coisas dentro - formavam um crculo no centro do salo e, bem no meio dele, uma pequena esteira. Terceiro, o que mais parecia com um altar estava cheio de enormes 
vasos de barro, pedras, pratos, bacias, tridentes e muitas velas nas cores branca, azul e lils.
      Marcus!
      Era o Zelador. Ele devia Ter entre trinta e cinco e quarenta anos no mximo. E pior, tinha um jeito meio afeminado. Nos cumprimentamos de uma forma totalmente 
diferente, quase que cruzando e batendo os pulsos um no outro. Aps ter dado ordens para a fanhosa sair, ele comeou a falar:
      Sua me j deve ter conversado com voc. O que vamos fazer aqui  uma oferenda,. Que tem como resultado afastar a cobrana do corpo.
      Ok. Vamos l.
      Enquanto me preparo, v at aquele segundo salo, tire toda a sua roupa, inclusive a cueca, e vista esta roupa de rao.
      Ok.
      A roupa de rao nada mais era do que uma cala e uma camisa, bem largas, feitas de saco branco. Daqueles de farinha para fazer po. Voltando, o Zelador me 
fez ficar de p sobre a esteira no centro do crculo, que ele chamou de 'Crculo de Ober'.
      O que tem nesses pratinhos, Zelador?
      Vrias coisas, entre elas: feijo branco, feijo preto, canjica, milho, milho de pipoca, quirera, pano branco, mel, aca e velas. No caso das comidas, todas 
foram torradas.
      O que  aca?
      Aca  um bolo de milho ralado, quase um mingau, embrulhado em folhas de bananeira. Voc pergunta muito.
      O que ele queria? Se estava no meio de tudo aquilo, eu precisava saber o que rolava.
      Com os braos erguidos, Marcus, mantenha o prato com aca sobre a cabea at o final dos trabalhos. E a partir de agora, fique em completo silncio que vou 
comear.
      Usando palavras estranhas, o Zelador iniciou o eb. Acho que devia estar tomado por algum esprito, pois sua expresso facial mudou por completo. Prato a prato, 
ele retirava pequenas quantidades de comida e, esfregando-as entre as mos, passava por todo o meu corpo, sempre  do pescoo para baixo. Todo esse movimento era 
acompanhado por canto e palavras na lngua africana, pelo prprio Zelador. As velas, ento, foram todas quebradas no meu corpo.
      Devamos estar nos aproximando do final, j que faltavam apenas dois pratos: o com mel, no cho, e o aca sobre a minha cabea. Me fazendo ficar fora do crculo 
por alguns minutos, ele recolheu todos os restos de comida sobre a esteira, para s depois utilizar os dois pratos finais. O aca ficou no lugar da esteira, com 
o mel derramado sobre ele. Novamente sua expresso facial mudou.
      Tire sua roupa, Marcus.
      Ele colocou a roupa de saco junto com os restos de comida.
      O que voc vai fazer com isso, Zelador?
      Demorou para responder. Acho que estava rezando ou coisa assim.
      Jogar em gua corrente.
      E o pratinho com aca?
      Ficara por sete dias em cima da firmao do ronc.
      Posso me trocar, Zelador?
       ruim ficar nu na frente de um estranho.
      Ainda no. Falta o banho de Amacim.
      O que  isso?
       um banho de ervas, curtidas no quartilho do santo. V para o banheiro e me espere l.
      Onde  o banheiro?
      No segundo salo, porta da esquerda.
      O banheiro fedia. E todo o cheiro vinha de um jarro enorme. Acho que o jarro era o quartilho do santo. Pelo mau cheiro que exalavam, aquelas ervas deviam 
estar ali pelo menos dez anos. No demorou muito e o Zelador, com uma vasilha na mo, entrou no banheiro. Enchendo-a no jarro, pude ver como aquele lquido era grudento. 
Parecia limbo.
      Vamos comear, Marcus?
      Voc tem certeza de que o banho  necessrio?
      Tenho.
      Ele colocou a vasilha sobre a minha cabea.
      No cabelo, Zelador?
      Esse banho tem que ser completo. E tem mais, banho com gua, voc s poder tomar amanh.
      O mau cheiro acabou nem sendo o pior. Virando vrias vezes a vasilha com ervas sobre a minha cabea, o zelador literalmente me deu um banho. Suas mos percorreram 
todo o meu corpo, inclusive nas partes em que no poderiam estar.
      J era noite quando chegamos em casa. Tomei uma ducha no mesmo dia.

Captulo 24

      Em menos de um ms, minha vida se transformou por completo. Beatriz fez amizade com meus pais e praticamente no saa de casa. Eu, em compensao, me sentia 
cada vez mais dividido. A sensao de estar vivendo uma grande farsa era muito grande. Minha me apostava no casamento e ficou to amiga de Beatriz que a acompanhava 
at nos exames do pr-natal, cujo mdico, evidentemente, fora escolhido por ela. Meu pai soube aceitar tudo muito bem, nunca impondo cobranas. Ele nem sequer chegou 
a associar o nascimento do neto - que mesmo antes de nascer j era tido como rei - a um casamento forado. Beatriz, ento, estava tima. Nunca mais transamos, mas 
isso no a incomodava tanto, pois estava sempre entretida com as novidades preparadas pela futura sogra. At o carro de minha me ela dirigia.
      No colgio, fui isolado pela velha turma. A nica pessoa a me cumprimentar vez por outra era o Guilherme, mas tambm no passava disso. No ptio, vrias foram 
as vezes em que fiquei observando Renato. Ele estava sempre bem, e isso me doa. Sem amigos, comecei a fumar pra valer. O cigarro me ajudava a suportar o fato de 
sempre estar sozinho.
      Foi numa Sexta-feira - no intervalo das aluas - que a dor da separao se transformou em agonia dentro do meu peito. O pensamento de nunca mais t-lo nos braos 
fez minha alma chorar.
      Procur-lo no iria adiantar. Pensei em escrever um bilhete, quando Guilherme passou por mim:
      Guilherme? Guilherme? Preciso de um grande favor seu, cara!
      Se puder o que ?
      Preciso que voc entregue um bilhete para o Renato.
      Marcus! Desista dessa amizade, cara.
       importante! Por favor!
      T legal. Cad o bilhete?
      Fiz Guilherme me acompanhar at a sala de aula.
      Marcus, voc ainda vai escrever?
       rpido, cara. S vai levar um minuto. Por favor.
      Numa folha de caderno, escrevi o mais rpido que pude:

      Renato,

      Voc tem que me perdoar. Eu no sabia o que estava fazendo.  verdade que a Beatriz me atrai de alguma forma, mas foi voc quem provocou isso com as minhas 
histrias.
      Eu amo voc, cara. Paixo mesmo, daquelas que fazem a gente morrer por algum, eu s sinto por voc.
      Se voc me abandonar, eu morro, cara. Eu morro.

      Rpido, Marcus. Estou com pressa!
      J estou acabando. J estou acabando.

      Se voc quiser, Renato, se voc quiser, eu largo tudo por voc. Podemos at fugir, cara.
      Fale comigo, por favor
      Renato, voc pode at no me perdoar, mas pelo menos me escute. Por favor, eu imploro!
      Estou esperando voc na pracinha perto do colgio, aps a ltima aula.
      Voc pode no acreditar, mas eu amo voc!
                                                                              Marcus
        Pronto, cara!
        Juntos descemos at a secretaria. S entreguei o bilhete ao Guilherme depois de grampe-lo:
      Valeu mesmo, cara! Muito obrigado.
      Tudo bem, Marcus. Mais ainda acho que voc perdeu o seu tempo.
      Ansioso, no consegui voltar para a sala de aula e fui direto para a pracinha. Deitado na grama, com aquele imenso cu azul  minha frente, sonhei acordado. 
Alguma coisa me dizia que desta vez, tudo daria certo.
      O tempo foi passando e, minuto a minuto, o imenso azul do cu foi perdendo o seu brilho. Renato no apareceu. Noite, noite. Sonho por desespero. Esperana 
por realidade. J no conseguia pensar direito. No sabia o que mais podia fazer. Ele no me ouvia. Devia estar com muita raiva de mim. Eu fui muito estpido e jamais 
poderia t-lo trado.
      Muito triste e bem depois do horrio normal, voltei para casa. Mais um fim-de-semana de merda me esperava. O que menos queria ver naquele momento era gente, 
e foi o que vi ao abrir a porta da sala. Reconheci Leonardo, o irmo de Beatriz.
      Marcus, como voc demorou. J estvamos preocupados.
      Me desculpe, me.  que passei na casa de um amigo.
      Beatriz veio ao meu encontro. Nos beijamos.
      Tudo bem, Marcus?
      Tudo bem, Beatriz.
      Deixe te apresentar os meus pais. Este  o meu paixo, o senhor Narciso.
      Muito prazer.
      Pode me chamar de Ciso, filho.
      Beatriz estava eufrica.
      E esta  minha me, dona Neusa.
      Convidei os pais da Beatriz para comerem pizza com a gente S estvamos esperando voc chegar, filho. Vamos todos para a cozinha?
      Pelo jeito, meu pai tambm foi pego de surpresa por dona Ana. Antes tivesse ficado mais tempo na praa.
      Marcus! Deixe eles irem na frente.
      Nos abraamos.
      Est tudo bem mesmo, gatinho?
      No, Beatriz. Estou com o saco na lua. De novo no consegui falar com o Renato.
      Quer que eu tente uma aproximao entre vocs? Ou ns?
      No seria uma boa idia.
      Silncio.
      E o seu carro, Beatriz? No o vi na porta.
      Est na oficina. Estamos com o Tempra da sua me.
      Dona Ana nos chamou da cozinha:
      Beatriz? Marcus? No demorem! A pizza vai esfriar.
      O que irrita em minha me  esta imagem de felicidade absoluta que ela passa. At o tom de voz se modifica. Fica mais fresco.
      Marcus, o senhor Narciso  contador como o seu tio Sandro. No  interessante?
      Definitivamente minha me no pensa. O que pode haver de interessante nisso?
       interessante, me.
      Me sinto um estpido sentado  mesa com esta famlia.
      Eles no formam um casal bonito, Neusa.
      Com certeza, Ana. At parece que um foi feito para o outro.
      No  possvel! Naquele momento entendi o porqu de minha me guardar com tanto carinho as fitas de vdeo do seriado dos Waltons. Para ser perfeito, s faltava 
a montanha do estado da Virgnia.
      Se no fosse pelo meu pai - ele era o nico a manter uma conversa constante com o Narciso que, diga-se de passagem, era chato, pois s faltava em contabilidade 
- o que ouvamos seria o barulho de talheres, Leonardo era mestre em riscar o prato com a faca. E essa porra dava arrepio na espinha!
      Olhando bem - ele estava sentado  minha frente -, o Leonardo at que era um cara bonito. O que faltava nele era um pouco de arte-final.
      Sabe, Ana, Narciso e eu temos um sonho
      Beatriz no deixou ela terminar de falar:
      Me! A senhora prometeu!
      Sei que prometi no falar, mas
      Minha me entrou na conversa:
      Beatriz, deixe sua me falar. Fale, Neusa! O que ?
      Ela s falou depois do olhar de aprovao de Narciso.
      Alm de ver Beatriz casando na igreja, evidentemente com tudo o que tem direito, Narciso e eu no pouparemos gastos, ns
        Me! Por favor!
        L vinha a merda.
      Ns gostaramos que a Beatriz e o Marcus se casassem na igreja da Penha.
      Eu? Quem tinha falado em casamento? Essa mulher alm de pobre era louca! Quem disse que iria me casar com Beatriz? Isso s podia ser armao da dona Ana.
      Foi na igreja da Penha, Ana, que Narciso e eu nos casamos. Foi to bonito.
      Que mediocridade!
      No conheo essa igreja, Neusa.  bonita?
      Simples, mas bonita. Do prxima vez que viermos aqui trarei o lbum do meu casamento. Narciso pediu ao fotgrafo que tambm tirasse fotos de toda a igreja 
por fora. O rapaz fez to bem o servio que at fotografou a ladeira da Penha. Como era mesmo o nome dele, Narciso?
      Linhares.
      Com esse nome, s mesmo fotografando uma ladeira. Pena que ela e o Narciso no rolaram.
      Traga o lbum, sim. Ns queremos muito ver. No  Giorgio?
      Claro, Ana.
      Narciso se empolgou na conversa:
      O lbum  muito bonito. Tem fotos grandes e bem tiradas.
      E ainda, Ana, o Narciso mandou encap-lo com veludo vermelho. Tem uma placa dourada e tudo com os nossos nomes gravados. O Narciso mandou fazer a placa no 
centro da cidade. Ficou chique, no  bem? Voc vai adorar, Ana!
      Minha me concordou. Valia tudo para me ver casado. Acho que o lbum foi a maior realizao na vida deles.
      Beatriz ainda no sabe, Ana. Mas j andei vendo algumas vitrinas de lojas no bairro da Luz.
      Bairro da Luz?
      , Ana. Na rua So Caetano. A rua das noivas.
      Toda aquela conversa comeava a me sufocar por dentro. Tudo estava indo longe demais. Querendo sair dali de qualquer jeito, disse que precisava comprar cigarros. 
Foi na sala, depois de convencer Beatriz a me deixar ir sozinho, que decidi sair com o carro da minha me. Todo mundo usava mesmo.
      Marcus, voc no tem carteira de motorista. Seus pais no vo gostar.
       s voc no dizer nada, que eu volto num segundo.
      Voc vai passar na casa do Renato. No  isso?
       isso a, Beatriz. Segure a barra at eu voltar.
      Tudo bem, gatinho. Eu tambm sinto muito a falta dele. Voc sabe que, por mim, estaramos ns trs.
      Nos beijamos.
      Valeu, Beatriz.
      J estava entrando no carro, quando ela me chamou:
      Marcus?
      O que ?
      Ela se aproximou:
      Desculpe pelas besteiras de minha me. Essa histria de casamento  coisa da cabea dela.
      No esquenta no. Sei que voc no prometeria nada aos seus pais sem antes conversarmos.
      Sorrimos e nos abraamos.
      Beatriz, voc sabe que eu gosto muito de voc, no sabe?
      Sei.
      Sabe tambm que, por mim, estaramos ns trs.
      H, h.
      S que fiz tudo errado. Deixei rolar a coisa toda, imaginando que no final tudo daria certo. No deu. Apostei tanto em mim, que fui capaz de mentir para a 
pessoa que mais amo no mundo. Por isso, Beatriz, mesmo sabendo que esse assunto a deixa magoada,  importante no esquecer que entre a gente nada est resolvido. 
Pelo menos por enquanto.
      Nos abraamos.
      Marcus, voc est certo.  muito ruim mentir para quem se ama.
      Beatriz comeou a chorar.
      Eu preciso muito lhe contar uma coisa, Marcus.
      O que ?
      O nosso encontro na pousada no foi coincidncia do destino.
      No estou entendendo, Beatriz.
      Promete que voc no vai ficar chateado comigo? Tudo o que fizemos foi por amor.
      Fale, Beatriz!
      Hoje, Marcus, posso dizer que tenho dois amores. Renato e voc.
      Beatriz, fale logo!
      A minha estada na pousada foi toda arranjada de ltima hora. Sua me e eu preparamos tudo.
      No acredito! Como minha me pde fazer isso comigo? De voc Ter participado, eu at entendo. Naquela poca, alm de no nos conhecermos to bem como hoje, 
voc ainda brigava pelo seu namorado. Mas minha me?
      Ela fez por amor, Marcus.
      Mas, Beatriz, voc estava na pousada com algumas amigas. No estava?
      Elas no eram minhas amigas. Na verdade s as conheci na pousada. Se lembra do Ronaldo? O recepcionista?
      Lembro. O que tem ele?
      Foi ele quem arranjou tudo. Sua me deu um bom dinheiro por fora.
      Como assim, Beatriz? Minha me s ficou sabendo o nome da pousada no dia da viagem.
      Engano seu, Marcus. Ela e sua amiga Ldia vasculharam todos os nmeros de hotis e pousadas da regio de Boiucanga e Barra do Sahy, e telefonaram at que 
encontraram a sua reserva. Depois, foi fcil: o tal Ronaldo foi quem conseguiu tudo por l. As garotas com quem dividi o quarto iram voltar pois j estava sem dinheiro. 
Eu fui a salvao para elas poderem passar o reveillon l. O Ronaldo trabalhou bem.
      Filho da puta!
      Beatriz me abraou mais forte.
      Voc sabe se meu pai participou dessa farsa?
      Ele nem imagina, Marcus.
      Novamente ela chorou.
      Beatriz, no precisa chorar. No estou chateado com voc. Na poca voc tinha motivos muito fortes para fazer isso.
      Marcus, o que me preocupa  a sua me. Se ela souber que eu contei tudo
      Interrompi suas palavras:
      Ela nunca saber. Fao isso por voc.
      Nos beijamos.
      Agora preciso ir, Beatriz.
      Tudo bem, gatinho.

Captulo 25

      Tinha que falar com ele de qualquer jeito. J no suportava ficar daquela maneira. Aquelas luzes me incomodavam. A cidade brilhava muito. Me sentia na escurido. 
Devia acelerar menos ou quem sabe mais. Minhas mos estavam frias. Estava suando. Deveria ter tomado uma dose de usque antes de sair de casa. No iria me preocupar 
com horrio. Beatriz ia segurar a barra. Mas tambm se no desse, tudo bem. Minha me merecia ficar um pouco nervosa. Alis, queria mais  que todos se danassem.
      Cinco voltas no quarteiro da sua casa. Ia parar o carro. No podia. Meus olhos ainda estavam vermelhos. Precisava parar de chorar. No ia conseguir viver 
sem ele.
      Oito voltas. No podia ser esquecido. No podia. O carro me trazia lembranas. Muita coisa fizemos ali. Muita coisa. Seu cheiro fazia parte da minha vida. 
Quem disse que sentir saudades no di? Ainda sentia o seu gosto na minha boca. E que gosto. Seria capaz de passar a noite inteira beijando-o. Sem ele, preferiria 
a morte.
      Doze voltas. Me sentia abraado. S de pensar nos seus msculos, ficava excitado. Tinha que falar com ele. Na prxima volta ia parar o carro. Parei.
      Acendi um cigarro e ajeitei o cabelo, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Toquei a campainha:
      Marcus?
      Oi, Carlos. Tudo bem?
      Tudo bem. E com voc?
      Vou indo, cara. Vou indo.
      Silncio.
      Voc quer entrar?
      O Renato est?
      Ele saiu, Marcus.
      Silncio.
      Voc quer entrar?
      Voc sabe aonde o Renato foi?
      No sei. Mas acho que era algo importante. Ele disse que precisava do carro de qualquer jeito.
      Ele saiu sozinho, Carlos?
      Saiu.
      Por que ser que ele precisava tanto do carro?
      O que voc disse, Marcus?
      No disse nada. Vou procur-lo. Valeu, Carlos.
      Procurei por ele em todos os lugares que conhecia e no o encontrei. Inconformado, rodei por toda a cidade. Milhes de pensamentos passavam pela minha cabea 
ao mesmo tempo. Desespero ao imagin-lo com algum e solido ao me ver sozinho. Por que fui tra-lo? Por qu? Ele era a razo de tudo. No podia perd-lo, cara. 
No podia.
      Eram duas horas da manh. Tinha que arrancar esse vazio do meu peito de qualquer jeito. No podia ficar assim. Ia parar naquele barzinho.
      Quer que olhe a mquina, doutor?
      Por favor.
      Pode ir tranqilo, chefia. Estou de olho nela!
      No sei quanto tempo fiquei naquele bar, mas sei que bebi vodca demais. Cigarro e bebida so grandes companheiros nessas horas. Decidido a dividir a cama com 
algum, num desejo mais animal do que humano, resolvi dar um giro pela cidade. Buscando a companhia de um rapaz no nico lugar que conhecia de nome. Tinha ouvido 
falar no vestirio do colgio, quando um outro time veio disputar o campeonato do ano passado. Era o parque Trianon. Eu sabia que ali no era um lugar segura, mas 
mesmo assim dei inmeras voltas de carro na quarteiro conhecido como 'autorama'. A exemplo de prostitutas, rapazes ficam na calada  espera de clientes. Um deles 
me chamou a ateno por estar vestindo jeans com camiseta branca por dentro da cala. Parei o carro e ele logo se aproximou da janela.
      E a, cara? Tudo bem?
      Nem tive tempo de responder. Ele continuou a falar:
      O meu nome  Roberto, e se voc estiver a fim de curtir bons momentos comigo, s vai custar cinqenta pratas.
      Pensei em acelerar o carro e sair dali com tudo. Mas fiquei.
      Qual  o seu nome?
      Marcus.
      Ento, Marcus! Vamos? O meu apartamento fica aqui perto.
      Sobe a, Roberto.
      Ele percebeu que eu no estava me sentindo muito bem.
      Voc est passando bem, Marcus?
      No.
      Voc fez o qu? Bebeu, fumou ou o qu?
      Bebi vodca demais, cara.
      Ponha pra fora.  s enfiar o dedo na garganta, Marcus.
      Antes mesmo de atravessarmos a avenida Paulista, desci do carro e vomitei. O lance do dedo na garganta funcionou.
       a primeira vez que voc sai com um mich?
      Mich?
      , Mich, garoto de programa.
      D para perceber?
      Ele apenas sorriu.
      Quantos anos voc tem, Roberto?
      Dezoito, cara. E voc? No, no fale. Me deixe adivinhar! Dezesseis no mximo! Acertei?
      Dezessete.
      O apartamento do Roberto era muito pequeno e quase no tinha mveis. Na sala, apenas almofadas sobre o tapete. Deitei sobre elas.
      Quer uma cerveja, Marcus?
      No, obrigado. Ainda no me sinto muito bem.
      Voc  um tesozinho, Marcus.
      Voc tambm.
      Eu continuava deitado quando ele se aproximou de mim.
      Cara, abra os olhos. Voc est quase dormindo.
      Desculpe, Roberto.  que ainda me sinto zonzo.
      Ele estava apenas de cueca quando comeou a desabotoar a minha cala.
      A gente no precisa fazer nada. Apenas deite ao meu lado e durma comigo, cara. Sem sexo, Roberto. Sem sexo
      Ignorando minhas palavras, fui despido da cintura para baixo. Fiquei praticamente imvel enquanto sua boca me excitava. Fisicamente no demorei a gozar. Espiritualmente, 
chorei.
      Adormeci com a certeza de estar abraado ao Renato.
        Sem saber exatamente onde estava, acordei assustado. Aos poucos, flashes fizeram-me lembrar da noite anterior. Comecei a relaxar. Deitado sobre almofadas 
azuis de gosto duvidoso, eu, completamente nu, passei a observar o lugar. Tudo era muito estranho, a comear pelas cortinas pretas. Ao tentar me levantas, percebi 
o estrago que a vodca havia feito na minha cabea. Tudo parecia solto l dentro.
        Estava procurando minha cueca quando a porta da sala se abriu.
        Bom dia, Marcus!
        Bom dia.
        Eu sou o Roberto. Voc lembra?
      Desculpe.  que eu estava bbado demais.
      No esquenta no, cara. Sei muito bem o que  isso, ainda mais bebendo vodca vagabunda.
      Indo para a cozinha, ele disse:
      Por que voc no toma um banho enquanto preparo o nosso caf?
       o que vou fazer.
      O banheiro era to pequeno que por pouco no colocaram o vaso sanitrio debaixo do chuveiro. Mesmo sem nos vermos - ele na cozinha e eu no chuveiro -, conversamos 
no meus quase dez minutos de banho.
      Quem  Renato, Marcus?
      Renato?
      Ontem  noite, voc me chamou de Renato algumas vezes.
      Me desculpe, Roberto.
      No precisa se desculpar, cara.
      Achei que no devia falar sobre o Renato. Mudei de assunto:
      Roberto?
      Fala, Marcus.
      O que exatamente fizemos ontem  noite?
      Infelizmente, s fiz uma chupeta. Voc no lembra?
      Mais ou menos.
      Voc gozou e apagou, cara. Depois disso tirei a sua camisa para no amassar e, nus, dormimos abraados. Na verdade, voc me encoxou a noite toda.
      Ele veio at o banheiro.
      Pena voc ter exagerado na bebida, cara. O seu pau  gostoso demais. Alm de grande,  grosso. Tem volume!
      Roberto disse isso, mexendo no meu pinto.
      Eu gostei muito de voc, Roberto, mas no sei se poderamos fazer alm do que fizemos. No me sinto bem em trair a pessoa que mais amo na vida. De qualquer 
forma, tenho que agradecer a Deus por voc ter cruzado o meu caminho.
       isso a, cara. Termine seu banho numa boa.
      Quando voltei para a sala, Roberto j me esperava com dois copos de caf com leite na mo. Coloquei minha cueca e sentei no cho bem  sua frente.
      Pode comer  vontade, cara.
      Sobre uma bandeja de madeira, um pote grande de margarina dividia espao com pezinhos franceses.
      Voc mora com a sua famlia, Marcus?
      Soltei um palavro:
      Caralho!
      O que foi?
      Meus pais devem estar preocupados. Ontem  noite sa apenas para comprar cigarros. Tem orelho aqui perto?
      Voc no precisa descer para telefonar.
      Atrs de um vaso com plantas se escondia um telefone.
      Est aqui, cara. Pode ligar.
      Enquanto discava, Roberto preparava um po com manteiga para mim.
      Al? Beatriz?
      Marcus! Voc est bem?
      Estou.
      O que aconteceu?
      No aconteceu nada. Acabei encontrando alguns amigos, samos para beber e passei a noite na casa de um deles,  isso.
      Por que voc no ligou? Seus pais esto desesperados e eu tambm estava preocupada.
      Bebi demais e acabei esquecendo. Mas o que voc faz to cedo em casa?
      Cedo? J passam das duas horas da tarde!
      Olhei para o relgio de pulso do Roberto. Ela estava certa.
      Meus pais esto em casa, Beatriz?
      No. Esto na rua  sua procura. Eles ligam de hora em hora para saber se voc telefonou.
      Deu muita merda, Beatriz?
      Deu, Marcus. O clima esquentou. Seus pais discutiram muito ontem  noite e quando saram hoje cedo, apesar de juntos, no se falavam.
      Voc dormiu em casa?
      Dormi no seu quarto, Marcus.
      E quem levou seus pais embora?
      Eu mesma com o carro do seu pai. Foi quando voltei que os encontrei discutindo.
      Beatriz, espere um minuto.
      Tapei o bocal do telefone com a mo:
      Roberto, atrapalho voc se ficar aqui no seu apartamento at s seis horas?
      Claro que no.
       o seguinte, Beatriz. Diga aos meus pais que liguei e que vou estar em casa s seis horas. At l, eles estaro bem mais calmos.
      No  melhor voltar agora, Marcus?
      No, Beatriz. Seria pior.
      T ok, Marcus. Farei o possvel para tranqiliz-los.
      Valeu, Beatriz. Agora tenho que desligar. Um beijo.
      Devolvi o aparelho para Roberto, que apenas me olhava:
      Tome o seu po, Marcus.
      Obrigado, cara.
      Silncio.
      Se eu puder ajudar de alguma forma,  s falar, Marcus.
      No esquenta no. Tudo se resolve.
      Tentando demonstrar um certo controle sobre a situao, mudei completamente de assunto.
      Deve ser bom morar sozinho, no ?
      Sem dinheiro no, cara.
      Pensei que voc ganhasse bem.
      Ningum fica rico fazendo o que eu fao. Essa vida de garoto de programa no  legal.
      Ento por que voc no procura um emprego normal?
      Ele riu antes de responder:
      E voc acha que eu j no tentei? Ningum quer saber, cara. As pessoas querem mais  que os outros se danem. Essa histria de solidariedade  s na televiso.
      A sua famlia no tem como ajudar voc, Roberto?
      So mais pobres do que eu. Vivem no Paran.
      Silncio.
      Pior do que vender o corpo  ver seus irmos menores passarem fome, Marcus.
      Ele pensava muito antes de falar.
      Quando decidi vir para So Paulo, foi na tentativa de arrumar um emprego decente. S que ningum quer saber de ajudar ningum. As pessoas s fazem coisas por 
interesse. No Paran, ento,  pior do que aqui, cara.
      Suas palavras eram carregadas de uma boa dose de indignao, mas jamais o colocavam numa situao de derrota. Claramente ele passava a sensao de que ainda 
no estava vencido.
      Sabe, Marcus, sou homossexual sim, mas s fiz sexo um meio de vida porque no tive alternativa. A nica coisa que tenho para oferecer  aquilo que Deus me 
deu: o corpo.
      Enquanto conversvamos - ainda sentados no cho frente a frente -, sua mo, alheia a qualquer assunto, tocava suavemente nos dedos do meu p, criando uma aproximao 
sutil e gostosa entre a gente.
      Estar aqui com voc  muito bom, Marcus. Nem vejo voc como cliente. Mas voc acha que todos so assim? Muitas vezes, quando a noite termina, fico com nojo 
de mim mesmo. Tenho vontade de tomar banho com lcool, cara. Muitos vm, se lambuzam, me machucam e tudo bem. Tem aqueles que prometem de tudo. Dizem que vo me 
ajudar, do o nmero de telefone e, quando voc liga, descobre que o cara deu o nmero errado. Agora, se eu no fosse garoto de programa, hoje, seria um mendigo. 
Marcus, voc no sabe como  fcil virar mendigo na vida, cara.
      Que tipo de pessoas procuram voc, Roberto?
      Tem de tudo. Casados, solteiros, velhos moos como voc e casais. A maioria deles me quer como ativo.
      Ativo?
      Querem que eu seja o homem da relao. Agem como mulher.
      Ele sorriu?
      O que foi, Roberto?
      Essas mesmas pessoas que curtem rapazes como eu, no dia seguinte nos atiram pedra e vo  igreja.
      Voc me ajuda a levar as coisas para a cozinha?
      Vamos l.
      A quantidade de pratos, copos e talheres sujos sobre a pia era tanta que continuamos a nossa conversa na cozinha. Eu lavando e ele enxugando e guardando.
      Vida de mich  foda, Marcus. Todo mundo tenta tirar proveito de alguma coisa.
      Como assim?
      Esse apartamento, por exemplo. Ns alugamos
      Ns?
      Ah! No falei. Eu divido esse apartamento com outro mich, o Ricardo. Ele est viajando com um cliente agora. Mas como eu ia falando, ns alugamos de uma senhora 
que tem vrios apartamentos neste prdio. Ela s aluga para pessoas de vida incerta como eu. Alm de caro, pagamos o aluguel semanalmente e, mesmo assim, no temos 
segurana nenhuma, pois quando ela cisma com algum, simplesmente manda jogar a pessoa para fora do prdio.
      E no tem como reclamar?
      Com quem? No temos nenhum papel assinado.
      Meus problemas iam ficando menos importantes a cada coisa que ele me contava.
      Outra merda  o Sargento!
      Sargento?
      Sargento  o apelido de um policial. No conheo ningum mais filho da puta do que ele. Vez ou outra, esse cara, junto com outros policiais, d 'batidas' onde 
fazemos ponto. Eles esto sempre  paisana, inclusive o carro.
      Mas o que eles fazem?
      Querem dinheiro. Por isso  que quando estamos na rua, guardamos o dinheiro dos programas dentro da meia, na sola do p.
      Que absurdo, cara!
      Isso ainda no  nada. Tem vezes que, sem motivo algum, o Sargento simplesmente sai na porrada. O Ricardo j teve o nariz quebrado por ele. No meu caso, alm 
de dar porradas, ele tambm sumiu com os meus documentos.
      Agora entendo o motivo de o Roberto achar que solidariedade no existe. Sem ajuda, o que pode uma pessoa como ele esperar da vida?
      Desculpe, Marcus. Estou enchendo o seu saco com as minhas histrias.  que na verdade  to raro ter algum para conversar, que quando isso acontece eu no 
paro de falar.
      Esquece isso, cara. Voc no tem que se desculpar por nada.
      Com certeza de ter arrumado um emprego a ele e dando-lhe o meu verdadeiro nmero de telefone, deixei no pequeno apartamento de cortinas pretas um pouco de 
luz. Sa de l com a sensao de ter feito uma grande amizade.

Captulo 26

      Pensei muito no caminho de volta e conclu que, se necessrio, faria tudo de novo. Afinal de contas, no era obrigado a fazer sala para os pais da Beatriz, 
ainda mais sabendo que tudo isso tinha sido preparado pela minha me. Na verdade, pacincia era algo que estava perdendo dia a dia. Disposto a encarar tudo de frente, 
abri a porta da sala com muita firmeza. Meus pais, sentados cada um num extremo do sof, assistiam  TV  meia-luz. Bastou o ranger da porta se abrindo para que 
eles, olhando para trs, me cumprimentassem. Pelo tradicional tudo bem, filho? percebi que as coisas no estavam to ruins para o meu lado. Sentado no sof pequeno, 
esperei por um sermo que praticamente no aconteceu. Meu pai foi o nico a falar, enquanto minha me demostrava certa impacincia. Com certeza, eles continuavam 
brigados.
      E a, filho? Algum problema?
      No, pai. Comigo est tudo bem. Com o carro da mame tambm.
      Disse isso colocando as chaves e o documento do Fiat sobre a mesinha de centro.
      Marcus, espero que voc tenha conscincia do erro que cometeu. Ns ficamos muito preocupados com a sua atitude e gostaramos que isso no se repetisse mais. 
Fui claro?
      Foi, pai. Me desculpem. Em momento algum quis deix-los preocupados. Eu  que no estava muito legal.
      Pois bem, filho. Sua me e eu estamos indo para Jundia para a casa de seus avs e s voltaremos amanh  tarde.
      Vou com vocs, pai.
      No, no vai. A Beatriz precisa muito falar com voc. Ela ficou de passar aqui l pelas nove horas.
      Confesso que fiquei sem entender nada. Alm de no levar um sermo como se deve - normalmente meu pai  muito mais exigente do que isso -, minha me estava 
com cara de poucos amigos. Aps acompanh-los at a porta - eles no falaram em momento algum -, subi para um banho.
      Depois, na cozinha, procurava algo para comer quando a campainha tocou. Ao atender a porta, levei um susto:
      Renato!
      Lentamente ele foi entrando, e com a mo no meu peito foi me emburrando para trs.
      O que foi que eu fiz, cara? Voc est chateado pelo bilhete que mandei pelo Guilherme?  isso?
      Sem nada dizer, ele continuava me empurrando.
      Fale, cara!  isso?
      Cale a boca, Marcus!
      No calo.
      Fui prensado contra a parede. Para piorar, ainda segurava um vidro de maionese na mo direita.
      Voc  foda, hein, Marcus? Alm de aprontar, ainda quer me enfrentar! Olha o seu tamanho perto do meu, cara.
      Ele disse isso quase com a boca colada na minha. Meu corao foi a mil.
      Perdeu a noo do perigo, alemozinho?
      Ao ouvir ele me chamar de 'alemozinho', meus olhos ficaram completamente molhados. Foi difcil no chorar.
      Sei que no devia, mas amo muito voc, Marcus.
      Fui beijado suavemente no pescoo.
      Eu amo tanto voc alemozinho, que at aceito uma relao a trs. Se vai dar certo, eu no sei. Mas acho que devemos tentar. S no quero mentiras, Marcus.
      Nunca mais, cara. Nunca mais.
      Beatriz tambm gostou de saber que agora somo trs, Marcus. Alis, se no fosse por ela e pelo seu pai, no estaramos aqui sozinhos.
      Meu pai?
      Depois eu conto o que rolou. Agora, d pra largar esse vidro de maionese? Eu quero um abrao.
      Sem olhar, joguei o vidro sobre o sof.
      Que saudades, cara.
      Daquele momento em diante, o tempo deixou de existir. Beijos e abraos se repetiam sem qualquer controle. No demorou muito para que ele me deixasse completamente 
nu. Vestindo uma cala jeans, meias brancas e j sem camiseta, Renato beijou todo o meu corpo. Exploses de sentimentos se sucediam a cada segundo. Um misto de saudades, 
paixo incontrolvel, sangue quente, cheiro, msculos, veias, pele e muito suor fez com que rapidamente chegssemos ao final. Impossvel segurar o gozo. Felicidade 
pura foi o que senti nos momentos seguintes. Com a sensao de Ter atravessado a nado contra a corrente um rio bravo, comecei a chorar.
      No vale chorar, Marcus.
      Me desculpe, cara.  que  to bom estar aqui com voc.
      Como um co, e com toda a calma possvel, meus lbios se deslizaram por todos aqueles msculos. Saliva, plos e muito suor criaram um sabor todo especial e 
nico. Deixando-lhe apenas de meias brancas, pude finalmente senti-lo por inteiro. Perfeito at nas imperfeies, meu noivo possua uma luz interior to intensa 
que, quando nos amvamos, nossos espritos se fundiam numa s alma. Deitados lado a lado, permaneci um bom tempo com a cabea sobre o seu peito. Carinhos nos cabelos 
me fizeram sonhar acordado. Pela primeira vez, um longo silncio ficou a nosso favor.
      Renato?
      Fale, Marcus.
      Tive medo de perd-lo para sempre. Acho que morreria.
      Eu tambm. S que esse medo ficou no passado. No vamos mais falar sobre isso. Tudo bem?
      Tudo bem, cara.
      Silncio.
      Renato?
      O que ?
      Voc est mais gostoso ainda, cara.
      Impresso sua.  que fazia tempo que a gente no transava. Falando em tempo, quer dizer que agora voc fuma
      Depois que nos separamos, o cigarro acabou sendo uma companhia. Foi muito ruim ficar sem voc, Renato.
      Que tal um cigarro, alemozinho? Voc pega?
      Foi bom demais. Com apenas um cigarro aceso, revezamos nas tragadas.
      Renato?
      Fala.
      Voc me disse que o meu pai e a Beatriz foram responsveis por estarmos aqui sozinhos.  isso?
       isso mesmo, Marcus. A confuso toda comeou na Sexta-feira. Primeiro o Guilherme esquecer de me entregar o seu bilhete. S fui receb-lo  noite, quando 
j estava em casa.
      Foi o bilhete que fez voc voltar?
      Ajudou. Na verdade eu j estava pensando nisso. Saudade  um horror, cara.
      Nos beijamos, e ele continuou a falar:
      Como j era tarde, peguei o carro do Carlos emprestado e fui at a sua casa. S sua me estava l. Ela me disse que voc tinha ido para Jundia na casa de 
seus avs.
      Voc est brincando!
      Me levantei e fui sentar ao seu lado.
      No estou, cara.
      Ele tambm se levantou.
      Ai, no pensei duas vezes, Marcus. Fui at Jundia.
      Que loucura, cara. Por que ser que a minha me mentiu?
      Ela quer que voc fique com a Beatriz e no comigo.
      Acendi um cigarro e continuei ouvindo:
      Quando voltei para So Paulo, no sabia exatamente o que fazer e, aps rodar muito com o carro, decidi passar novamente na sua casa. Voc j havia sado e 
a Beatriz, com o carro do seu pai, tinha ido levar os pais dela e o irmo para casa.
      Renato acendeu um cigarro antes de continuar:
      Seus pais discutiam muito quando cheguei. O senhor Giorgio havia descoberto tudo por causa de um telefonema do seu av.
      Que absurdo, cara!
      O clima entre eles esquentou legal, Marcus. Imagina como foi ruim para mim estar no meio de toda a discusso. Seu pai disse para sua me que a mentira dela 
e o jantar arranjado com a famlia da Beatriz haviam provocado em voc uma atitude que no era sua. Eles pensaram que voc havia fugido de casa.
      Isso  muito louco, cara.
      A coisa pegou fogo mesmo, Marcus, quando sua me disse achar muito estranho um pai incentivar a homossexualidade do filho.
      Completamente chocado, eu apenas ouvia:
      Nessa hora tive a impresso de que algum sentimento havia morrido dentro do seu pai.
      Silncio.
      No sei exatamente como tudo rolou, mas aps saber que voc no havia fugido de casa, que nada de ruim tinha acontecido e que, provavelmente, eu e voc precisaramos 
conversar, seu pai decidiu que isso deveria acontecer num lugar decente. E no na rua. Pelo que entendi, sua mo engoliu a seco as decises dele.
      Silncio.
      A vida no presta, Renato. No podia ser tudo diferente? No acredito que Deus seja contra a unio de pessoas como a gente. O prprio ser humano constri o 
seu inferno.
      Sem tristeza, Marcus. Que tal passarmos uma borracha em cima de tudo? Vamos deixar os problemas para depois. Hoje a noite  nossa, cara, s nossa.
      Voc tem razo.  melhor esquecermos.
      Nos beijamos.
      O que voc acha de relaxarmos na banheira de hidromassagem de seus pais, Marcus?
      Agora?
      No, amanh quando eles estiverem em casa.
      No precisava ser grosso, cara. Eu s estava brincando.
      Rimos.
      Vamos ver quem chega primeiro ao banheiro, Marcus?
      Mais apaixonados ainda, brincamos de tudo naquele fim-de-semana e aprontamos muito mais do que sempre havamos feito.

Captulo 27

      Melhor do que estar vivo  poder viver mergulhado numa paixo todos os dias. No existe cu azul, mar, brisa ou montanhas que superem - em nenhum segundo sequer 
- o momento mais simples de um sonho realizado. Assim estava sendo a minha vida. Foi com total apoio do meu pai que uma grande conquista aconteceu. Renato, Beatriz 
e eu tivemos  nossa disposio um dos melhores apartamentos dele. Uma cobertura em Higienpolis seria o ponto de partida para um slido e fantstico amor a trs. 
A princpio, alguns problemas tiveram que ser resolvidos. Como contar aos pais da Beatriz - sem choc-los - que a filha deles, grvida, iria morar com dois rapazes? 
Pensamos em muita coisa, mas acabamos decidindo pela verdade. Todo um esquema foi preparado. Meu pai, com o objetivo de dar seriedade e compromisso, quis conduzir 
tudo e para isso marcou um jantar com o senhor Narciso e a dona Neusa. Engordando as fileiras de convencimento, os pais do Renato tambm foram convidados. Nesse 
jantar, com certeza duas pessoas se sentiram contrariadas: minha me e a me do Renato. Mas, segundo meu pai, nada fizeram para atrapalhar. Duas semanas foram necessrias 
para que os pais da Beatriz entendessem que no havia outro jeito. Querendo ou no, o senhor Narciso e a dona Neusa tiveram que esquecer o vestido de noiva, a igreja 
da Penha, o lbum de fotos e outras besteiras mais.
      Para as pessoas do prdio, Renato seria apresentado como o irmo mais velho de Beatriz. J para parentes e amigos das famlias - isso tambm inclua meus avs 
- ningum poderia saber a verdadeira situao. O nico cuidado que teramos que tomar era o de no sermos visitados ao mesmo tempo por parentes de famlias diferentes. 
Para os meus, eu seria o pai da criana e estaria vivendo com Beatriz. Para os parentes de Renato, ele seria o pai, e eu apenas uma visita.
      Propositadamente, s fui mostrar o apartamento para Renato e Beatriz algumas semanas antes de nos mudarmos. Querendo que a passagem de sonho para realidade 
fosse a mais especial possvel, decidi que ao conhecerem o nosso 'superesconderijo' tambm passaramos a noite l. Para isso - sempre com a ajuda de meu pai -, comprei 
algumas coisas bsicas, que iam desde toalhas de banho, sabonetes e frutas, at sof e geladeira.
      Logo na entrada, eles ficaram impressionados com a sofisticao do prdio.
      Seu Marcus!
      Tudo bem, Joo?
      Ansioso, nem esperei a resposta do porteiro e j fui falando:
      Beatriz, minha noiva, e Renato, seu irmo.
      Muito prazer. Joo, a seu dispor.
      Achava um barato apresentar Renato como irmo de Beatriz. Era excitante.
      Aqui esto as chaves, seu Marcus. Ontem, a pedido de seu pai, fiz a vistoria no apartamento e o servio de pintura ficou timo.
      Valeu, Joo, obrigado.
      Estvamos entrando no elevador, quando ele me chamou:
      Seu Marcus? Seu Marcus?
      O que , Joo?
      Aqui esto as notas fiscais. Todas as mercadorias foram entregues hoje  tarde.
      Obrigado, Joo.
      Quer que eu suba com vocs para ajudar a desempacotar algumas mercadores? Peo ao Mrio para ficar na portaria.
      No, Joo, obrigado.
      Foi impossvel evitar um brincadeira no elevador.
      ltimo andar com destino ao paraso.
      Rimos.
      Marcus, o que voc comprou?
      Antes de vocs me detonarem, Beatriz, quero dizer que s comprei algumas coisas bsicas para o nosso apartamento. Falta muita coisa, e a ns escolheremos 
juntos.
      Chegando ao hall, fiz suspense antes de abrir a porta:
      Eu gostaria de pedir uma coisa a vocs. Posso?
      Os dois concordaram.
      Fechem os olhos e s abram na sala. Ok?
      Ok.
      Ok,
      Espero que vocs gostem do apartamento. Pronto, podem abrir.
      Renato foi o primeiro a falar:
      Cara, isso aqui  demais! Olha s o tamanho dessa sala!
      A expresso no rosto de Beatriz dizia no acreditar que tudo aquilo era nosso.
      Gostaram?
      Primeiro mostrei a eles todo o andar de baixo, menos o nosso quarto, que fiz questo de deixar por ltimo. Para ser completo, a nica coisa que faltava na 
enorme varanda do andar de cima era uma piscina, mas nada que no pudesse ser arranjado com o tempo.
      Agora, quero que vocs conheam um dos lugares mais importantes do apartamento. O nosso quarto.
      Alm de dois criados-mudos, o que havia de especial era a cama. Feita sob encomenda a um dos melhores marceneiros de So Paulo, abrigava at quatro pessoas 
confortavelmente. Beatriz no se conteve:
      Marcus! Que linda!
      Ns trs nos abraamos e, sorrindo, Renato disse:
      Marcus, cabem mais de trs pessoas ali.
      Eu tinha certeza de que ele faria essa observao. Minha resposta foi imediata.
      E o beb, quando chegar? No conta?
      Rimos.
      Me desculpe, Marcus.
      Dois champanhes num balde de gelo e trs taas de cristal italiano nos esperavam sobre o criado-mudo da direita. Renato, antecipando-se a mim, props o brinde:
      Ao nosso futuro! Felicidade, amor, dinheiro e muito, muito sexo para ns quatro!
      Quatro?
      O beb, Marcus!
      Como crianas, deixamos o quarto na maior baguna. Camisetas, cuecas, meias brancas, calcinha, e sei l mais o qu, espalhavam-se em completa desordem. Nus 
e ao som de msicas antigas, brincamos com os nossos corpos sem qualquer limite. Em pouco tempo, batizamos a cama. Renato jorrou no meu peito e eu - quase ao mesmo 
tempo que ele - esporrei nas coxas da Beatriz, que j havia gozado quando nos revezamos em senti-la pela frente.
      Se o que fazemos for pecado, espero que Deus nos perdoe.
      O que est preocupando voc, Marcus?
      Nada, Renato. S estou pensando alto. s fico com esses pensamentos estranhos.
      Tanto amor no pode ser pecado, Marcus. Voc no acha, Beatriz?
      Ela dormiu, Renato.
      Que tal fazermos o mesmo?
      Se voc me abraar, tudo bem.
      Me sentia to protegido quando ele me abraava.
      Marcus? Voc est dormindo?
      No.
      Amanh no posso perder a hora. Tenho que me levantar antes das seis da manh.
      Aonde voc vai? Pensei que passaramos o dia juntos.
      Preciso devolver o carro para o Carlos antes das sete horas e
      Vou com voc e depois a gente volta para o apartamento.
      No d, Marcus. Amanh  a primeira consulta de minha me com um psiclogo e eu fiquei de acompanh-la. Alm do mais,  importante que eu passe o dia com ela.
      A que horas  a consulta?
      Acho que s duas da tarde.
      Fui beijado na nuca.
      Vocs vo passar o dia todo aqui, Marcus?
      Temos que passar. Amanh devem entregar a mquina de lavar roupas e a secadora.
      O que mais voc comprou?
      S isso. O restante das coisas escolheremos juntos. E, se Deus quiser, estaremos nos mudando para c em menos de duas semanas. O marceneiro deve entregar todos 
os armrios ainda esta semana.
      Marcus? Por acaso, voc no comprou um rdio-relgio. Comprou?
      Claro que no. A nica coisa que controla horas aqui  o relgio da cozinha. E s comprei porque a vendedora me empurrou a venda. Mas ele  bonito, no ?
      Mais ou menos.
      Rimos.
      Sem enrolar, Renato. A que horas voc vai estar aqui amanh?
      Ns vamos passar a noite aqui, Marcus?
      Vamos.
      No mximo oito horas da noite, cara.
      Fechado. Vou pedir pizza e esperaremos voc para comer. Ok?
      Como voc vai pedir pizza sem telefone?
      Peo ao Joo para comprar.
      Falando em Joo, Marcus, ser que ele no achou estranho o tamanho da cama?
      Deve ter achado, mas no  louco de falar alguma coisa.
      Mais um beijo na nuca.
      Voc no me respondeu, Renato. Podemos esperar voc com a pizza?
      Se for portuguesa, podem.
      Silncio.
      Marcus?
      Fala?
      Eu amo demais voc, cara.
      Ento me abraa mais forte.
      Na manh seguinte, acordei s nove horas com a Beatriz me trazendo o caf na cama.
        Bom dia, gatinho.
        Me espreguicei antes de responder:
        Bom dia.
        Antes de que eu pudesse perguntar se ela havia visto o Renato sair, Beatriz me entregou um bilhete dele.
        Marcus e Beatriz,
        Estarei aqui l pelas oito horas da noite.
      No se esqueam de duas coisas importantes:
1. No faam muito sexo sem mim;
2. Quero pizza portuguesa.
Um beijo,
    Renato.
      Voc o viu sair, Beatriz?
      No. Acho que ele acordou bem cedo. Me levantei s sete horas e ele j no estava. E voc, dormiu bem?
      Muito bem. Vem me dar um abrao.
      Tome seu caf primeiro, porque seno vai esfriar. No esquea que no temos fogo para esquentar.
      Dane-se o caf. Depois eu tomo frio mesmo.
      Alm do caf pronto, tambm comprei creme dental na padaria. Eles s no tinham escovas de dentes. Teremos que escovar com o dedo.
      Alis, falou em dedo  com voc mesma.
      Marcus!
      Venha me dar um abrao, Beatriz.
      O dia s no foi melhor porque o Renato no estava. Ao som de Enya, demos ordem no apartamento. At um rack de ltima hora eu fui comprar. Ns queramos que 
pelo menos a sala tivesse uma aparncia de 'sala' quando ele chegasse.
      Oito e meia e nada do Renato aparecer. Mesmo com fome, Beatriz e eu - exceto por umas dez azeitonas roubadas - no tocamos na pizza. Deitamos na sala, com 
a TV ligada, adormecemos.

Captulo 28

      Acordei com a campainha tocando. Desliguei a TV e fui atender a porta resmungando. Como vou aquecer a pizza sem fogo ou microondas? O Renato  foda!
      Como voc demorou, cara, Pai?
      Seus olhos estavam vermelhos.
      Aconteceu alguma coisa com a mame?
      Ele me abraou.
      Pai, o que foi?
      Beatriz acordou.
      O que aconteceu, Marcus?
      No sei, meu pai no fala nada.
      Beatriz lhe deu um pouco de gua.
      Aconteceu uma tragdia, Marcus.
      Com a mame?
      Com o movimento da cabea ele disse que no. Apavorado, corri at a cozinha para ver que horas eram. De l mesmo gritei para Beatriz:
      Uma hora da manh, Beatriz! Uma hora da manh!
      Voltei em pnico para a sala.
      Pai, com o Renato no. Pelo amor de Deus!
      Pai, o que aconteceu?
      Renato nos deixou, filho.
      Isso no  verdade, pai. Estamos esperando que ele chegue. Vamos comer pizza, pai. Pai, o senhor no acredita? Olhe pai Beatriz, pare de chorar
      Ele me abraou.
      Sinto muito, filho.
      Tive o peito estourado. Sonhos foram arrancados num s golpe. Como esperana, meu corao dizia que tudo aquilo era mentira. Anestesiado pela imensa dor, no 
consegui mais falar. Desobedientes, lgrimas insistiram em no aceitar a voz do corao. Rosto em lgrimas. Alma dilacerada. Comecei a chorar em silncio. Senti 
o inferno dentro de mim.
      Beatriz ficou com a minha me. As duas disseram no estarem preparadas para isso. Meu pai e eu seguimos para o prdio da morte.
      Pai? Como isso aconteceu?
      Ele capotou com o carro na marginal Pinheiros.
      Silncio.
      A que horas foi isso, pai?
      Pouco antes das seis horas da manh, filho.
      Completamente atordoado e ainda no querendo acreditar no que estava acontecendo, desci do carro e, abraado ao meu pai, caminhamos at a entrada principal. 
Paramos na porta.
      Coragem, filho.
      Aquele lugar tinha um cheiro horrvel de vela. Vrias salas no saguo e muita gente na frente das portas me confundiam. Assustado, tentava perceber cada movimento, 
at que meus olhos estacionaram diante de um quadro-negro. Ver o nome do Renato escrito em letras brancas me fez encostar na parede. Minhas pernas tremiam.
      Coragem, filho.
      Isso no pode ser verdade, pai.
      Fora, filho.
      So 'H', pai. Vamos?
      Voc no quer se sentar um pouco antes de irmos?
      No, pai. No.
      Aos poucos a porta do salo 'H' foi nos mostrando um claro de velas. Esse cheiro me derrubou. Mulheres rezavam. Ainda estvamos na porta. No conseguia ver 
o caixo. Apenas uma ala dourada. Muitas coroas de flores. Castiais prateados. Castiais prateados.
      No faam isso! Ele vai sufocar! Tirem as rosas. Tirem as rosas.
      'Pai nosso que estais no cu'
      Calmo, filho.
      'Santificado seja o vosso nome'
      Pai, diga a eles. Essas rosas cheiram forte. Diga a eles, pai.
      'Venha a ns o vosso reino e seja feita a vossa vontade'
      Isso filho. Chore.
      'Assim na terra como no cu'
      Pai, no consigo ficar em p.
      Eu estou segurando voc.
      'O po nosso de cada dia nos da hoje'
      Que lugar  esse pai? Devo estar sonhando.
      'Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido'
      Pai, pea para essas mulheres pararem de rezar.
      'No nos deixeis cair em tentao'
      Seu Jlio?
      Seu Jlio se abraou a ns.
      Tire o Renato dali, seu Jlio. Aquilo  um caixo. Ele no est morto. Ns vamos comer pizza.
      'E livrai-nos do mal, amm.'
      Preciso chegar perto. Me ajudem! Minhas pernas no querem andar. Me ajudem!
      'Ave Maria cheia de graa'
      Pai, pai,  o Renato que est no caixo! O senhor viu? No  ele, pai. Todos vocs esto me enganando. Deus! Deus!
      'O Senhor  convosco'
      Pai, quero ser enterrado junto com ele.
      Me senti perdido. No sabia o que estava acontecendo. Aquele vu. Aquelas rosas vermelhas. No conseguia olhar para seu rosto. Toquei suas mos. Elas estavam 
frias meu corao ia explodir no agentava aquilo o que fizera a voc? Deus no foi justo!
      Carlos, voc viu o que fizeram? Voc viu
      Chore, filho. Chore.
      'Santa Maria, me de Deus, rogai por ns pecadores'
      Logo estarei com voc, cara.
      'Agora e na hora da nossa morte, amm.'
      Renato, levante da.  o seu alemozinho que est aqui. Eu amo voc, cara. Eu amo voc.
      'Pai nosso que estais no cu'
      O nosso apartamento est quase pronto.
      'Santificado seja o vosso nome'
      Desmaiei. Jogado na cadeira meu corao queimava mais rpido do que aquelas malditas velas. Me deram alguma coisa para beber. No sabia o que era, mas queria 
que fosse veneno. Novamente tudo comeou a girar. Me senti leve. Muitos rostos me observavam. No conseguia ver ningum. Vultos passavam por mim e alguns flutuavam. 
O tempo passava muito rpido. Tambm flutuei. Me vi na cadeira. Meu pai estava ao meu lado e chorava como eu. Queria que parassem de esfregar lcool nos meus pulsos. 
Um dias antes Renato estava vivo, e ento estvamos mortos.
      Pai? Pai?
      'Venha a ns o vosso reino'
      Estou aqui, filho.
      'Seja feita a vossa vontade'
      No quero mais viver, pai.
      'Assim na terra como no cu'
      Pai, ser que ele sofreu?
      'O po nosso de cada dia nos da hoje'
      No, filho. Foi tudo muito rpido.
      Entre o sonho e a realidade, passei toda a madrugada sentado naquela cadeira. Pessoas entravam e saam a todo momento. Muitos o olhavam por simples curiosidade. 
No me agradava v-lo exposto daquele jeito. Era o meu noivo que estava ali e no um corpo. Gotas de sangue pingavam lentamente por debaixo do caixo.
                ' Olhando esse mar todo, sabe do que eu tenho vontade?
                De nadar, Renato.
                Como voc  inteligente, Marcus! A sua sensibilidade  demais, cara. A vontade que eu tenho  de ficar aqui com voc para sempre.
                Eu topo, Renato!
                Como 'eu topo', Marcus? Acho que voc j tomou caipirinha demais.
                 srio, Renato! Por voc eu largo tudo. Estar aqui com voc me faz sentir uma pessoa um milho de vezes melhor. Se no fosse a nossa coragem de 
enfrentar todas as situaes, nossos sentimentos ainda estariam sufocados pelo mediocridade das pessoas. Hoje, Renato, eu me sinto vivo! Vamos ver quem chega primeiro 
na gua?
      Mas ns nem de calo, Marcus.
      E da? Estamos de short.
      O que desceu em voc? O Esprito Santo?
      Quase isso! Eu estou me sentindo muito bem!
      Tentar me derrubar na gua deixa voc feliz, Marcus?
      Voc nunca vai saber como  bom estar com voc, cara'
      Pai?
      Calma, filho. Voc estava sonhando.
      Ningum mais estava rezando.
      Pai, a mame e a Beatriz no vieram?
      No, Marcus. Acho que elas no suportariam ver o Renato desse jeito.
      O senhor acredita nisso, pai?
      Ele apenas me olhou.
      Pai, nunca mais quero ver a Beatriz. Nunca mais.
      Carlos se aproximou de ns. Ajoelhado  minha frente, ele disse:
      Marcus, est quase na hora, eu
      Abraados choramos.
      Preciso me despedir dele, Carlos.
      Choramos.
      Calma, Marcus. Voc vai se despedir meu pai est pedindo s pessoas que deixem o salo por alguns minutos Acho importante voc Ter um pouco de privacidade 
com ele. Renato gostaria disso.
      No fale dele como sendo algum do passado, Carlos.
      Aos poucos o salo foi se esvaziando. De portas fechadas, ficamos meu pai, seu Jlio, Carlos e eu. Sozinho me aproximei do caixo e pela ltima vez pude toc-lo.
      No sei por que Deus fez isso com a gente, cara essa vida no presta, Renato. Agora que tudo estava dando certo sabe, Renato, sei que fiz um monte de besteiras, 
mas nunca deixei de amar voc. O meu amor por voc  eterno, e no vai ser essa droga de morte que vai nos separar eu amo voc, cara. Eu amo voc Daqui a pouco 
vo levar voc para longe de mim, mas o que eles no sabem  que o seu corao vai ficar guardado para sempre dentro do meu peito. Nunca mais terei ningum, cara.
      Abismo, escurido, solido. Seu peito vertia sangue. Beijei suas mos, seus lbios, seu rosto tentei resgatar a vida. No consegui.
      Renato, at que a gente possa se encontrar de novo vamos escolher a Lua como um elo entre ns todas as vezes que eu precisar falar muito srio com voc, 
cara, estarei olhando para ela
      Beijava seus lbios quando eles se aproximaram. Nos abraamos sobre o caixo.
      Seu Jlio, o Renato no pode ir assim. Ele tem que levar alguma coisa minha para no se sentir sozinho.
      Seus olhos disseram que sim. Tirei minha camiseta e a coloquei embaixo das suas mos, junto com o tero. Novamente beijei-o nos lbios.
      Temos que abrir as portas, Marcus.
      S mais um minuto, pai.
      Seu Jlio concordou.
      Tchau, cara. Tchau
      As portas se abriram. Muita gente entrou. Asmulheres da reza voltaram.
      'Ave Maria cheia de graa.
      O senhor  convosco.
      Bendita sois vs entre as mulheres.
      Bendito  o fruto do vosso ventre, Jesus.
      Santa Maria, me de Deus,
      Rogai por ns, pecadores, agora e na hora de nossa morte.
      Amem'
      Ao ouvir que o caixo seria fechado, fui envolvido por uma fora muito parecida com a do vento. Meu corpo continuava inerte enquanto minha alma se arrastava 
pelo cho. As pessoas se movimentavam como em cmara lenta. Gritos, choros, desmaios. Desespero. Empurrado para trs por um sofro de sentimentos descontrolados, 
me separei do abrao seguro de meu pai. Sozinho e quase fora do salo, acompanhei com os olhos, segundo a segundo, a tampa da morte selar a vida. Duas almas gmeas 
foram estraalhadas naquele instante.

Captulo 29

      Cinco Anos Depois

              Meus pais se separaram poucos meses aps a morte do Renato. Beatriz e Rafael moram com minha me e eu com meu pai. Me sinto feliz por ter um filho 
- levo o Rafael todos os Domingos para passear -, mas desde aquele triste acidente de carro, vivo apenas por viver. No existe nada na Terra capaz de arrancar esse 
vazio do meu peito. A saudade  pior coisa do mundo. Aos Sbados  noite, geralmente converso com a Lua e, quando isso acontece, de frente  capela da famlia Assuno, 
espero o nascer do dia, sempre com uma dzia de cravos brancos e uma rosa amarela nas mos. Sentado nos degraus, divido com o orvalho frio da manh o silncio eterno 
da minha alma. Caminhando pelas estreitas alamedas do cemitrio, espero por um milagre que nunca aconteceu. O silncio da morte  enorme. O do meu corao, maior 
ainda.






Marcus Drio



Correspondncia para o autor:
Caixa postal 1003
06460-090 - Barueri - SP - Brasil
